Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 15: o monstro dentro de nós

Se eu precisasse definir este volume em uma palavra, seria “excelente”. Ele não apenas faz com primor o que manda o manual da narrativa como também evolui a níveis impensáveis (para Turma da Mônica Jovem) a qualidade do desenvolvimento de personagem. O primeiro ponto positivo é apresentar um mundo que deixa claro já existir.

Embora seja novidade para os protagonistas, Nimbus, Ângelo e Licurgo (o Louco da Turma da Mônica clássica) sabem a natureza dos monstros do ID e o perigo que eles representam. No caso do Ângelo é evidente que ele deve saber sobre os perigos que rondam a humanidade, mas o Nimbus me surpreendeu.

Além de ter conexão com o mundo ID, Nimbus mostrou ter muito poder, o suficiente para invocar o Ângelo e para que o próprio contasse com a sua ajuda para ir até lá ajudar a Mônica. É esse tipo de perspectiva de que o mundo é um lugar grande com pessoas fortes que tornou One Piece um sucesso tão avassalador.

O Licurgo não teve seu conhecimento justificado, mas é algo a ser explorado no futuro. É louvável o resgate de um personagem que sempre foi mero alívio cômico e a transformação dele em alguém que, sim, tem um mundo a salvar, mas que também tem sensibilidade para escolher as palavras corretas num momento tão delicado quanto o de enfrentamento do monstro ID. O roteiro é inteligente e reconhece que a mudança na atuação do Licurgo foi drástica, inserindo um momento em que a Mônica o valoriza e o Cebola acha estranho.

O vol. 15 de Turma da Mônica Jovem trabalha esse trio heroico e apresenta um trio de vilões com maestria. Cada um deles possui uma personalidade distinta e funciona bem enquanto vilão. Akanin é o bucha de canhão estourado e manipulável, enquanto Soranin é frio, calculista e usa Akanin para atingir seus objetivos.

O que sabemos sobre o Doutor Bikkuri é reflexo do que Licurgo e Soranin disseram dele. Esse vilão supremo da saga Monstros do ID tem poder para enviar monstros ao mundo humano e torná-los gigantes. Por mais que o Soranin coloque em cheque a capacidade do Bikkuri de saber o que faz, este certamente é inteligente, pois possui um plano e aparenta ser ponderado quando sugere a Soranin que tenha paciência. Bikkuri tem jeito de vilão final, muito mais que a Yuka, de As Quatro Dimensões Mágicas.

Uma particularidade do vol. 15 é o uso de cores. Existe uma variação de tons de azul e vermelho, sendo vermelho a cor do Akanin e azul a cor do Soranin (o que vem do ID geralmente é apresentado em azul ou vermelho). Se por um lado isto torna certas revelações um pouco óbvias, pelo outro aumenta a tensão nos momentos de interação com o monstro.

E a tensão também vem pelo acerto no design. Akanin é naturalmente incômodo e os cabelos que se tornam vermes são assustadores. Creio que a situação de maior tensão até o vol. 15 foi o confronto entre a Mônica e o Akanin, com direito a monstro gigante atacando a cidade. Um gigante que, dentro do cenário, se torna muito mais ameaçador que um mero robô gigante em um fundo que não importa.

Um ponto interessante sobre a apresentação do mundo é que a informação sobre o que é o monstro do ID foi passada pelo Licurgo, mas ela diverge um pouco da realidade demonstrada pelo próprio vol. 15. Licurgo falou como humano, de forma maniqueísta, tratando o monstro como simplesmente um lado mau das pessoas, só que a realidade é multiangular.

O ID é um apanhado dos desejos, das características principais das pessoas. Tais características, nas pessoas, possuem contrapesos, mas nos monstros não. Akanin é, basicamente, uma versão da Mônica composta apenas por aquilo que a torna “Mônica”. Em outras palavras, o Akanin é uma representação um pouco mais radical da Mônica da Turma da Mônica clássica.

A luta da Mônica com o Akanin se revelou mais um debate do que um confronto físico. A vitória contra o monstro parece ter um sentido maior de dominação, pois a Mônica o coloca no card depois de discursar sobre a razão de ela ser maior que ele. Aquele diálogo, inclusive, é um dos melhores, se não o melhor, da franquia até o vol. 15.

Desde o começo, Monstros do ID deixou claro que esta luta era apenas a ponta do iceberg. Soranin manipulou Akanin para que este fosse ao mundo humano, então nada mais lógico do que ser ele o responsável pelas ofensas que irritaram a Mônica.

Assim como Soranin sabia irritar a Mônica, Akanin sabia como machucar o Cebola. O envio das mensagens, a placa, as ameaças, tudo isso era, do ponto de vista do Cebola, como se a Mônica estivesse pisando nos sentimentos dele e esfacelando tudo de bom que existia no laço entre eles. O sofrimento dele é palpável e muito bem pensado. Um roteiro burro faria simplesmente o Akanin bater no Cebola, mas, felizmente, o roteiro do vol. 15 é incrível.

Depois daquele papo de crescer e mudar um pouco, Monstros do ID soa como uma tentativa de solidificar tal desenvolvimento de personagem, estabelecendo que eles possuem seus desejos e estão cientes das consequências de deixar-se sem controle.

O vol. 15 de Turma da Mônica Jovem é o melhor de até então. O roteiro, a arte, a estrutura narrativa e a estrutura temática são todos excelentes. É bem melhor do que eu me lembrava e acho difícil que seja superado.


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