Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 16: Cebola, Soranin e como o monstro vence

Enquanto o vol. 15 de Turma da Mônica Jovem se focou na luta da Mônica contra seu monstro, o vol. 16 se concentrou no embate interno de Cebola. Como Soranin possui uma ligação forte com as ações anteriores de Akanin, o excelente vol. 15 tornou o vol. 16 excepcional.

A alusão feita pela capa à capa do vol. 4 é uma metalinguagem válida, um símbolo para o rompimento amoroso do casal protagonista. Isto somado aos corações nos olhos das outras personagens leva a conclusão de que o volume irá mostrar um Cebola galanteador, que é o que acontece. A contracapa também é uma beleza à parte, o líder dos heróis e o líder dos vilões.

O vol. 16 é estruturalmente fantástico. Existiam três núcleos narrativos: os heróis (Licurgo e os protagonistas), os vilões (Akanin, Soranin e Doutor Bikkuri) e os heróis secundários (Nimbus e Ângelo). Este volume separa o Soranin para um núcleo próprio e vai girando o enquadramento entre cada um dos núcleos, assim criando uma fluidez narrativa que deixa lacunas temporais que, embora não nos impeçam de entender o que está acontecendo, nos atiçam a querer saber mais.

Essa dinâmica gera um sentimento de que somos privilegiados por poder acompanhar esta história e que, se víssemos mais, gostaríamos ainda mais dela.

O giro entre os núcleos também cria algumas sensações relacionadas ao que cada personagem faz. Se, mesmo perdendo Akanin e Soranin, o Doutor Bikkuri segue confiante, então seu poder deve ser muito maior que o deles. Por outro lado, o desespero do Ângelo e a derrota do Nimbus indicam que a maior batalha está apenas começando.

Como até aquele ponto o núcleo protagonista e o núcleo secundário não tinham se contatado, é uma surpresa para Cebola e Mônica, ainda que não seja para mim. Levando em conta toda a evolução do confronto com Soranin, é como se aquele final fosse o roteirista dizendo: “Achou que era hora de comemorar? De fazer piada? Achou errado.” E assim, tal qual o vol. 15, o vol. 16 se encerra com um ótimo gancho e ampliando a tensão (que poderia ter se perdido após a vitória de Cebola).

O vol. 16 possui alguns detalhes dignos de nota:

O encontro do Nimbus com o Doutor Bikkuri deixa uma pista de que o chefe dos vilões seria o monstro ID do Nimbus, o que tem certo sentido, dado o nível de poder que ambos possuem e a capacidade do Nimbus de sentir o que ocorre no mundo ID.

Na segunda cena do volume, a Mônica tem uma interação corriqueira com o Akanin, como se ele agora quisesse irritá-la. Além de haver uma metalinguagem ótima com o Akanin lendo o vol. 15, as palavras dos pais da Mônica dão a entender que aquela cena é uma metáfora para a menarca. A situação é compatível com a idade dela, que deve ser algo entre 14 e 15 anos.

É interessante especialmente porque a luta contra o monstro faz parte do amadurecimento, assim como popularmente é vista a primeira menstruação. Novamente, Monstros do ID deixa claro que a sua função é ser a justificativa para que o quarteto protagonista (logicamente) consiga desapegar dos hábitos principais que cultivavam na infância.

Embora o subtexto seja bom, creio que as transformações que ocorrem no corpo durante a adolescência poderiam ser tratadas explicitamente na Turma da Mônica Jovem. Fingir que tais aspectos não existem torna este mundo meio artificial. E, não, não estou pedindo cartilhas educativas.

A cena em que as garotas hipnotizadas pedem beijo do Cebola e a Magali as acompanha é o segundo elemento que denota uma fraqueza no sentimento dela pelo Quim. Essas pequenas cenas são importantes para que eu possa dar minha opinião quanto ao vol. 67 (é, está longe, mas foi o que me fez querer ler os volumes depois do 30).

A meticulosidade do plano do Soranin o torna um vilão de alta qualidade. Ele escreveu ofensas para a Mônica na internet para que a irritação dela despertasse Akanin. Ele previu que Akanin atacaria pelo lado da humilhação sentimental, o que prepararia o terreno para que as garotas do bairro do Limoeiro ficassem abertas emocionalmente ao Cebola. Assim, seria mais fácil para Soranin plantar a sementinha da paixão nelas e montar seu exército de adolescentes hipnotizadas.

Devido às variadas reações que as garotas tiveram, é possível concluir que a hipnose precisaria de algum tempo para funcionar. Até por isso o Soranin sempre as incentivava a pensar no assunto. Além disso, vemos na Carmem uma aceitação que não existe na Marina (a qual possui namorado), o que bate com a reação natural a um beijo.

O ataque do Soranin à cidade foi apenas uma distração, pois seu objetivo era conversar com o Cebola. E, pelo desfecho da conversa e a natureza dos monstros do ID, creio que o mais correto seja dizer que o Cebola perdeu luta.

Você vence o monstro quando não faz o que ele quer, quando rejeita a sua influência, ou, pelo menos, busca minimiza-la ao limite. A Mônica venceu o Akanin quando entendeu que seu lado brigão, teimoso e mandão não é o mais forte, pois ela tem amigos. Mas o Cebola negou seu ID?

A certo modo, sim, pois rejeitou seus métodos mentirosos, mas o fator mais importante é a ambição. Cebola não discordou do Soranin quanto a dominar o mundo e ainda zombou de seu monstro, demonstrando uma arrogância bem similar a de Soranin.

Enquanto os outros personagens de Monstros do ID esmagaram a influência do monstro sobre si, Cebola parece guiá-lo na rédea curta, enquanto abraça seu impulso ambicioso. O enfrentamento entre Cebola e Soranin parece mais uma negociação de termos entre políticos do mesmo campo ideológico, embora um seja um pouco mais radical.

Essa noção de que o Cebola não despreza suas características mais perigosas ecoa em vários volumes de Turma da Mônica Jovem. É possível até concluir que ele é o que menos mudou dentro do quarteto protagonista. É um páreo duro para a Mônica, mas o Cebola nitidamente não se tornou mais maleável.

Com as batalhas existentes no vol. 17, é possível concluir que o Soranin era o monstro menos combativo porque sua contraparte humana pouco o negava.

Sobre o conceito da roupa de herói, acho legal tanto em design quanto em habilidade. Parece ser um mecanismo indispensável para que os monstros possam ser enfrentados fisicamente, então posso perdoar alguma eventual conveniência desses poderes.

O vol. 16 de Turma da Mônica Jovem é excepcional. Faz muito bem tudo o que se propõe a fazer e joga lá no alto a expectativa para a conclusão da incrível saga Monstros do ID.

Observação: não comentei nada sobre a sorveteria e o monstro da Magali porque faz mais sentido deixar isso para o vol. 17.


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