Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 17: Bikkuri, Licurgo e o Superesquadrão ID

A parte final de Monstros do ID tem a difícil missão de explorar o conflito interno do Cascão, da Magali e ainda apresentar o desfecho desta saga. O que podia ser um volume inchado de conteúdo não o foi, pois o roteiro não explica tudo. Essa aparente falta de informação é um dos trunfos de uma das melhores, se não a melhor, sagas de Turma da Mônica Jovem.

Novamente, é necessário elogiar a estrutura do volume. Ele coordena de forma inteligente o momento de acelerar e cadenciar o ritmo, evitando assim que o leitor se sinta num turbilhão de acontecimentos. É o amadurecimento natural da calma que fora utilizada no ritmo dos volumes 15 e 16. Intercalar a ação com cenas de diálogo também evita que Monstros do ID se torne um mangá de luta genérico (ainda que exista uma acusação do tipo, a qual abordarei mais adiante).

Creio que o maior erro de Monstros do ID seja fazer piadas com a revelação do segredo do Licurgo. A revelação em si não é ruim, mas as piadas escracham tudo, como um reconhecimento da própria incapacidade de fazer um mistério autossustentável. Isto é um problema porque o mistério é bom e é natural que os personagens e o leitor saibam a verdade antes da revelação, pois Monstros do ID não esconde suas intenções.

Cascão e Magali são muito mais controlados que o Cebola e a Mônica, o que rima com a complexidade distinta em suas batalhas.

Cascão e o medo

Como a característica mais forte no pequeno Cascão era o medo, Kainin, seu monstro, é feito de medo. Por conseguinte, o objetivo dele era convencer o Cascão a abraçar o medo e fugir. Ele sabia que provavelmente seria derrotado, sabia que estava ficando cada vez mais fraco, então não foi surpresa para ninguém quando Cascão o domou.

O Cascão ainda é um pouco sujo e hidrófobo, razão para Kainin ter algum poder e forma de monstro. Só o que lamento é que sua “habilidade especial” não foi demonstrada, diferente dos outros três monstros dos protagonistas (Akanin é forte, Soranin voa e o monstro da Magali “conjura” água).

Magali e a derrota gradual

O monstro da Magali leva uma ideia semelhante. Já que a comilança foi suprimida ao extremo, é justo que o monstro da Magali seja fraco. Tão fraco que sequer possui forma de monstro. Outro elemento interessante é que seu nome não foi dito, nem precisava ser dito.

A Magali e o monstro sabiam que a batalha já fora vencida, por isso não há sequer um esboço de confronto. A luta contra o monstro interno não precisa ser literal, ela pode ser o mero ato de impor limites a si mesmo, como no caso do Cascão e da Magali.

O conflito interno dela é mais uma demonstração de que aquela noção de que o ID é o lado mau está errada. O ID é o desejo, é a falta de autocrítica e é a radicalização de algo que pode ser bom para o indivíduo. No caso da Magali, desejar comer coisas gostosas é parte do lado bom da vida.

Essa capacidade do roteiro de dizer coisas e oferecer base para que suas afirmações sejam confrontadas é bem útil para tornar Monstros do ID uma saga que pode ser discutida pelos leitores. É diferente de tudo o que Turma da Mônica Jovem fez até o vol. 14, o que é louvável.

A dose de emoção do conflito da Magali compensa a falta de sabor no conflito do Cascão, ainda que ambos sejam menos empolgantes que Akanin e Soranin. Talvez por isso eu considere o vol. 17 inferior ao vol. 16.

Doutor Bikkuri, Licurgo e o que podemos deduzir

Os monstros ID são feitos de desejo. Se a Magali enfraqueceu seu monstro impondo limites a si mesma, ela teria fortalecido-o caso fizesse tudo o que tivesse vontade.

Diferente do que fora ventilado pelos personagens, os monstros mais fortes não são os monstros das pessoas más, mas sim os monstros daqueles que não pensam nas consequências de suas ações, daqueles que são impulsivos.

E o Louco era, provavelmente, o personagem mais impulsivo da Turma da Mônica clássica. Sua falta de freios era absurda ao ponto de ele conseguir dobrar a realidade enquanto agia caoticamente. Em definitivo, o Louco era puro desejo. É coerente que seu monstro seja o mais poderoso de todos, e vou um pouco além.

Li num grupo de fãs da Turma da Mônica Jovem teorias quanto à cena em que Bikkuri pega a namorada (vou chamá-la assim) do Licurgo numa perspectiva de que aquilo era metafórico e que, na verdade, ela foi embora por conta da loucura do Licurgo. Eu discordo.

A falta de limites do Licurgo tornou o Doutor Bikkuri forte o suficiente para dobrar a realidade, assim como ele. Do mesmo modo que Bikkuri envia monstros para o mundo humano, ele mesmo viajou e pegou a namorada do Licurgo. Esse momento de choque deve ter deixado o Licurgo no “meio do caminho da lucidez” que vimos em Monstros do ID.

Creio que nessa época ele conseguiu a nave Devaneio e partiu para um confronto direto com o Bikkuri, a fim de resgatar a namorada. É difícil teorizar sobre como foi esse confronto, mas presumo que Licurgo tenha perdido e entendido que não conseguiria vencer o Doutor Bikkuri usando métodos tradicionais.

Licurgo criou a sorveteria para ser um lugar que acalmasse os monstros e (olha a especulação) permitisse a ele obter informações e traçar um caminho para derrotar o Doutor Bikkuri. Essa seria a trilha para Licurgo saber dos elementos e do ID robô. Só que ainda existe uma estrutura invisível essencial para a compreensão da relação entre o líder dos heróis e o líder dos vilões.

O Doutor Bikkuri tem o objetivo de libertar os monstros, mas não chega a apresentar uma estratégia clara de como fazer isso. Então, qual era o seu plano?

Ele deve ter uma capacidade limitada de enviar os monstros para o mundo humano e precisaria derrotar o Licurgo para obter o poder necessário para dominar o mundo humano. Para tal, Bikkuri criou uma armadilha: fazer Licurgo achar que poderia derrotá-lo e vencer o confronto quando sua contraparte humana surgisse de peito aberto no mundo ID. E como ele poderia ter certeza de que Licurgo morderia a isca? Dedução ou sugestão mental.

Imagino que Bikkuri poderia deduzir que Licurgo se sentiria superpoderoso com quatro guerreiros do ID ao seu lado e, para causar esse efeito, enviou 4 monstros ao mundo humano. A derrota deles fazia parte do plano, por isso Bikkuri não se mostrou irritado, chateado ou com medo em momento algum, até ver o ID robô. Agora entra a sugestão mental.

Licurgo não pareceu surpreso com o ID robô e parecia muito preparado para ajudar a turma a lidar com seus monstros. Como foi dito por ele mesmo (e demonstrado por Monstros do ID), aquele tipo de confronto dos protagonistas não é comum. Além disso, duas falas do Doutor Bikkuri são essencialmente vagas: “Mas eu o enganei primeiro, para achar que…”; “Licurgo me enganou!”.

Com base no sentido da enganação, o que eu entendo é: Bikkuri tentou manipular o Licurgo para que ele acreditasse que seu superesquadrão ID era o suficiente para vencer a batalha (por isso quis que Ângelo ouvisse a parte do seu plano que falava sobre caos e destruição, mais uma forma de atrair o Licurgo), mas Licurgo percebeu a armadilha e manipulou o Doutor Bikkuri para que ele enviasse ao mundo humano justamente os monstros ID elementais necessários para formar o ID robô.

Isto não apenas justifica o surgimento do ID robô como também justifica o fato de apenas os monstros dos protagonistas terem sido enviados ao mundo humano e as duas falas sobre “enganar” proferidas pelo Bikkuri.

Essa teoria parece completar a maioria das lacunas de informação de Monstros do ID sem alterar o sentido dos eventos mostrados. Desconsiderá-la é, necessariamente, criar conveniências de roteiro enormes, incompatíveis com o cuidado narrativo e temático da saga Monstros do ID.

Há também uma frase do Bikkuri sobre a sua derrota fazer parte do plano, pouco antes de ser capturado pelo ID card. Essa eu levo mais como um blefe, no entanto, talvez o ato de domar (com o card) aproxime ambas as mentes e deixe mais fácil para o monstro ID manipular sua contraparte humana.

Neste caso, o plano do Doutor Bikkuri poderia ser ficar falando com o Licurgo o tempo todo na tentativa de fazê-lo enlouquecer, voltar a ser como era na Turma da Mônica clássica e assim se tornar mais poderoso.

É importante ressaltar que o monstro só perde força com o enfraquecimento do “desejo” de sua contraparte humana e o Doutor Bikkuri era superpoderoso enquanto o Licurgo estava no “meio do caminho da lucidez”. Se o Licurgo que termina Monstros do ID é o mesmo que começou a saga, então o Doutor Bikkuri deve continuar igualmente poderoso. Talvez agora apenas mais ligado à mente do Licurgo.

Uma objeção minha a essa segunda possibilidade é que talvez o Bikkuri tenha dobrado a própria realidade e vivido sob outras regras, como não depender de sua contraparte para ampliar (ou reduzir) o poder e também ser “enfraquecível” na base da força bruta.

Se o Licurgo não tentou domar o Bikkuri através de métodos convencionais, talvez soubesse que isso já não era possível, o que explica o uso do ID robô em vez do debate mental.

De um jeito ou de outro, vejo explicação narrativa válida para inserir o ID robô e a ação, embora pouca, é bem feita. Não é um problema para mim.

A conclusão da saga

Monstros do ID se encaminha para o fim unindo os núcleos e finalizando a estrutura narrativa. A volta para casa com uma provável perda de memória é bem justificada pelos “sonhos” que compõem a Devaneio, mas uma saga como essa não podia deixar como sua última cena marcante um robô atirando um raio no vilão.

O discurso do Soranin e do monstro da Magali é uma declaração de amor pela Turma da Mônica e o que tornou o quarteto protagonista o sucesso que ele é. É lindo e carrega uma boa mensagem contra a ideia de odiar as imperfeições.

O vol. 17 fecha com chave de ouro a saga Monstros do ID. Seu enredo é magnífico, os personagens secundários são bem representados, os vilões são fantásticos, os protagonistas são explorados enquanto seres humanos, o mundo é muito bem construído e o conjunto da obra só pode ser definido com uma palavra: excepcional.


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