Crítica | O Dia do Terror (2001): quando o furo de roteiro melhora o filme

Ficha técnica no IMDb

Assistir a O Dia do Terror foi uma experiência muito mais interessante do que as que costumo ter. Em geral, os roteiros são bons ou ruins, mas, neste caso, alguns erros de lógica favorecem a estrutura narrativa do filme e o que tornou minha sensação quanto a ele negativa foi algo bem trabalhado, porém uma escolha que me desagradou.

Um comentário geral importante é que O Dia do Terror é medíocre em vários aspectos, mas em outros tantos mostra um cuidado (e atenção) digno de bons filmes.

Sobre a parte técnica, a montagem me pareceu um pouco apressada e confusa aqui e ali (no final, a festa termina e todas as pessoas somem de uma hora para a outra), mas o problema mesmo é com o som. Desde sempre não gosto das trilhas de suspense forçadas (que acabam estragando o clima, como se o diretor implorasse para que eu fique tenso) e dos jumpscares, que aparecem em vários momentos de O Dia do Terror. Estes são componentes padrão de slashers genéricos, que é o que este filme se propõe a ser.

Habitualmente, os slashers contêm dois desenvolvimentos distintos, às vezes paralelos. Um é o blá blá blá dos personagens principais que serve para que o espectador se importe com eles e o outro é o caminho do vilão. O desenvolvimento dos personagens principais costuma ser extremamente chato e irrelevante, mas em O Dia do Terror é diferente.

Quase é possível dizer que este filme é mais sobre amizade e flerte do que sobre terror. O humor em algumas cenas é apurado e rende piadas boas, mas destaco o conteúdo da Dorothy. Sua insegurança e necessidade de autoafirmação se faz presente ao longo do filme, desde a triste cena inicial (na qual ela diz que um beijo consentido foi forçado) até sua explosão, ao final do filme.

O medo de ser julgada a fez decidir imputar um crime sobre o único garoto que a olhou, mas ela ainda queria sentir-se tão bem, tão desejada, quanto as outras garotas. Por este motivo permitiu que um quase estranho ficasse em sua casa. É real e triste essa necessidade de preencher um vazio com um relacionamento, não que Dorothy possa ser desculpada pelo que fez com Jeremy.

E o mascarado é um assassino não simplesmente genérico. As mortes um pouco mais elaboradas (de forma coerente) foram um ponto positivo. O problema com ele é a existência de um grande furo de roteiro e várias cenas forçadas de locomoção rápida.

O furo é que a Dorothy pediu para o seu “namorado criminoso” fazer uma coisa dentro da casa e, no lugar designado, ele foi morto pelo mascarado. Como o mascarado poderia estar ali e como o desaparecimento do assassinado não fora percebido pela Dorothy? Este furo me fez acreditar no segundo falso plot twist.

O falso plot twist é quando o roteiro indica uma possível reviravolta para que o espectador ache que aquela é a verdade e se surpreenda mais ainda quando o mistério for revelado. Este artifício ajuda alguns filmes de terror a não serem previsíveis, mas O Dia do Terror vai mais longe.

A dinâmica da estrutura narrativa do filme é um estímulo para que o espectador tente descobrir qual dos homens que apareceram é o assassino mascarado. Por eliminação, desde o início é possível concluir que é o Adam, mas O Dia do Terror não entrega totalmente esta revelação. Isso me fez sentir que não era um falso plot twist (outros filmes que entregam muito de bandeja a revelação falsa deixam claro que é um falso plot twist).

O sumiço da Dorothy me deixou com uma pulga atrás da orelha. Eu tinha certeza de que o Adam era o Jeremy, mas poderia ser ela o assassino. Quando a máscara foi tirada eu comprei totalmente a ideia, pois era a explicação perfeita para o “grande furo de roteiro”. Mas ainda havia uma coisa estranha: por que a Dorothy surgiria do nada daquela forma atacando a Kate?

Novamente, o suposto furo de roteiro acabou dando muito mais força para a revelação do verdadeiro plot twist: um plano genial de Jeremy para ficar com a Kate só para ele. O plano usou até mesmo o furo de roteiro para enganar o espectador e, pelo menos no meu caso, conseguiu. Não gostei dessa escolha, devido ao furo, mas entendo que O Dia do Terror se tornou um filme muito mais marcante com esse erro de lógica.

Para quem não sacou, o Jeremy vestiu a Dorothy com a fantasia dele e a jogou em cima da Kate, por isso ela rolou pela escada daquele jeito. Assim ele poderia executá-la com justificativa e ganhar o coração da Kate de vez. Tanto que ele pega a arma e vai pela escada, o que bate com o local em que ele precisaria estar para poder empurrar a Dorothy.

Só o que eu melhoraria no verdadeiro plot twist é o excesso de momentos em que o mascarado sangra pelo nariz. Se fosse mais sutil, renderia boas surpresas quando os espectadores fossem comentar sobre o filme com outras pessoas ou lessem textos na internet.

O melhor filme não é o impecável, o perfeito, mas sim o que marca, o que fica, o que gera discussão. No Blog do Kira há um editorial sobre a crítica objetiva que trata um pouco dessa dificuldade em estabelecer critérios que definam o que é bom. Acrescento a ele que existe diferença entre o que é bom e o que eu gosto.

Isto tem muito a ver com o formato “efêmero” de um longa-metragem. Um livro pode ser lido em semanas, uma série pode ser assistida em semanas, mas um filme não pode durar mais que duas horas ou duas horas e meia. Por isso, o impacto emocional no filme importa mais que sua “qualidade objetiva”, pois quanto mais curta a obra, mais a subjetividade ganha relevância.

Para finalizar, O Dia do Terror tem muitos momentos sem clima de terror, com uma pegada muito mais próxima de um Todo Mundo em Pânico da vida. Isto pode prejudicar a experiência para aqueles que gostam de ação frenética ou detestam tramas de amigas falando de relacionamento amoroso (vale mencionar que este filme tem alguns bons diálogos).

O Dia do Terror não é uma obra prima, mas é provavelmente o meu slasher preferido. Ele tem suas limitações, mas usa uma estratégia narrativa interessante e encerra com o verdadeiro plot twist, talvez não tão surpreendente, mas bom.

Observação: Impressionante como as personagens ficam confortáveis em estarem sozinhas ou expostas sendo que há possivelmente um assassino atrás delas.


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