Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 23: Cebola, o Grande Palhaço

O vol. 23 de Turma da Mônica Jovem é a primeira parte de O Caderno do Riso, uma saga inspirada em Death Note (e que me motivou a assistir ao anime). Na segunda parte vou comentar de maneira mais geral sobre as características adaptadas da obra original e as melhorias feitas pelo roteiro de Petra Leão em relação ao de Tsugumi Ohba (sim, melhorias).

O vol. 23 apresenta uma expansão mitológica interessante. As Quatro Dimensões Mágicas e Monstros do ID tratam de ordens superiores e estruturas místicas que não se conectam ao único “arauto do bem” que conhecemos, o Ângelo. Aqui é dado o primeiro vislumbre de como as coisas funcionam no céu, ou seja, a função dos anjos.

Os anjos trabalham para ajudar os humanos a alcançarem mais alegria e felicidade. Para tal, constroem aparatos tecnológicos, como um robô gigante, sete esferas místicas realizadoras de desejos e um caderno que faz rir com a escrita do nome da pessoa. Por acidente, o caderno caiu na terra, e, como o Ângelo é irresponsável, um humano se apoderou de um poder divino.

Seria legal mostrarem mais dessa organização celestial, principalmente em termos de quando é permitido agir, afinal, o Ângelo é o único anjo que vimos até agora, mesmo com grandes ameaças dando as caras.

O fato de o caderno ter regras e o Cebola testá-las é muito bom para esclarecer a capacidade do caderno e rende boas piadas. É uma eficiente justificativa para o Ângelo permitir o uso do caderno, mas cria uma contradição com o prólogo.

No início do vol. 23, o Cebola usa o Caderno do Riso sem estar testando nada, mas tal cena só poderia ocorrer caso ele tivesse escrito escondido do Ângelo, o que não é dado a entender em nenhum momento do vol. 23. Essa incoerência mancha um pouco os ataques de riso iniciais, que são uma forma de intrigar e cativar o leitor imediatamente.

Num segundo momento, o enredo trabalha a insatisfação do Cebola com a rabugice do mundo. Cascão, Magali e Mônica o zoam à vontade por seu desempenho no futebol, mas quando ele tira onda com as notas baixas dos amigos, acaba apanhando.

O destaque dado para a realização dos testes propicia um ambiente repleto de pessoas que sabem que os ataques de riso estão acontecendo.

A divisão de opiniões quanto ao Grande Palhaço é natural, visto que todo grupo de pessoas tem as mais otimistas e as mais pessimistas, do tipo que olha para uma situação e enxerga apenas o que lhe convém, devido à sua incapacidade de perceber a floresta, em vez de uma única árvore.

Sim, a atitude da Mônica mostra sua inteligência minúscula, pois vimos que conflitos perigosos foram evitados por ataques de riso. Ainda que o prólogo cronologicamente tenha ocorrido mais tarde, a surra que o Xaveco deixou de levar já devia ser o suficiente para a emburrada olhar para o Grande Palhaço com um viés mais positivo.

Pego no pé dela porque ela sabia que o Xaveco deixou de apanhar devido à ação do Grande Palhaço e mesmo assim o trata como se não houvesse ponto positivo em sua trajetória.

Por outro lado, se a birra da Mônica com o Grande Palhaço viesse ao final do vol. 23, eu tenderia a concordar, afinal, o Cebola atacou o treinador Átila apenas para mostrar seu poder, por puro impulso egocêntrico. Aqui vemos um desvio de caráter que complica um entendimento totalmente positivo quanto ao Grande Palhaço. Soranin estaria orgulhoso do Cebola de O Caderno do Riso.

Minha cena preferida é aquela na qual o Cebola confronta a Mônica e joga na cara dela como seu mau humor é incômodo para os demais. Ela é extremamente chata e, embora a derrota do Cebola seja iminente (o mal nunca vence), eu gostaria que o roteiro não fingisse que a Mônica estava certa, pois isto seria premiar sua má conduta. O mau comportamento dela foi premiado em Surge Uma Estrela.

Ainda sobre a Mônica, quando o Cebola a fez contar piadas sobre assuntos levantados pelo professor, veio dela sim a piada sobre o coração espaçoso da Magali, apesar de ela querer colocar a culpa no Grande Palhaço. Não é minha intenção reclamar desse pensamento da Mônica, pois é algo óbvio. O problema é ela agir como se estivesse certa, sabendo que realmente pensava aquilo (se não pensasse, não teria gaguejado quando a Magali confrontou-a sobre o assunto).

A inserção do Licurgo como o antagonista do Grande Palhaço foi uma ótima ideia. O jeito louco dele permite engolir suas deduções geniais e falhas ridículas, sem contar que é mais um elemento de humor muito funcional (assim como o Ângelo, cuja piada com seus nomes fora surpreendentemente engraçada).

O Licurgo disse que sofreu um ataque de riso enquanto corrigia a prova dos alunos e deduziu que devia ser obra de um trapaceiro, mas o quadro mostra que ele estava lendo um gibi do Chico Bento. Essa piada ridícula é um grande ponto negativo do vol. 23. Não havia a menor necessidade de ela existir.

Com o número de suspeitos reduzido a quem estava presente durante o anúncio do professor treinador Átila, uma análise das vítimas escolhidas poderia levar a uma suspeita concreta sobre o Cebola (especialmente por conta do ataque a Mônica).

Já que o vol. 23 havia estabelecido o Ângelo como alguém fácil de dobrar, foi lógico tanto seu interesse em pegar de volta o Caderno do Riso quanto deixar ele com o Cebola, apesar de ter a impressão de que a última regra fora escrita à mão. Combinou com os traços da personalidade de ambos.

E o fechamento do vol. 23 apresenta um gancho muito bom. Alguém poderia ter descoberto o caderno do Cebola e o utilizado (porque o ataque funciona com hora marcada) ou poderia haver outro Caderno do Riso na terra. Qualquer uma das hipóteses representa outro desafio que o Cebola terá de enfrentar enquanto evita as suspeitas do Licurgo e da Mônica. Assim cria-se grande expectativa para o vol. 24.

O vol. 23 de Turma da Mônica Jovem é um ótimo início de uma aventura fantasiosa detetivesca com alguns toques de debate moral. É boa na forma, no conteúdo, na abertura e no gancho.

Similaridades e referências a Death Note

O visual do Ângelo tem um estilo parecido com o do Ryuk; o Cebola tem uma irmãzinha, joga uma maçã para o Ângelo, coloca uma regra falsa no caderno e ataca o L por egocentrismo.


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