Crítica | Pânico na Ilha (2009): problemático, mas satisfatório

Ficha técnica no IMDb

Cinco estudantes em férias de primavera encontram-se em uma cabana isolada em uma ilha para uma de fim de semana. Depois de uma noite da música e bebidas os cinco amigos ficam chocados ao encontrar zelador do local morto e o único barco disponível no local desapareceu. Presos na ilha, os jovens agora precisam lutar para permanecerem vivos e encarar o assassino misterioso que os perseguem.

Pânico na Ilha é um filme com vários problemas conceituais, estruturais e roteirísticos, especialmente no tocante ao plot twist. Apesar de tudo isso, ele não é um fracasso completo por conta da boa ideia do plot twist, mas é como uma pérola no meio da lavagem. Até onde acerta ele erra, e isso tem muito a ver com o método escolhido para contar a história.

Existem diversos filmes de terror que constroem sua narrativa a partir de uma investigação no presente que mostra os eventos da história em flashback. O Buraco, WTF! e Carrie, a Estranha (2002) fazem isso e os três contêm o mesmo problema: toda a parte da investigação ou serve apenas para encorpar o plot twist ou é inútil.

Pânico na Ilha aparentemente usou o esquema de flashback também para diferenciar-se dos outros zilhões de filmes de adolescentes que morrem um a um, só que esta escolha cria duas consequências lógicas terríveis: eu já sei quem não vai morrer assim que o filme começa e fica ainda mais difícil me importar com os personagens.

Essa dificuldade não decorre somente do “saber quem morre”, mas também do tempo de tela reduzido que eles possuem, além da óbvia grande quantidade de personagens no grupo. É gente demais com excessivas mudanças de núcleo que acabam criando um monte de cenas inúteis picotadas e estranhezas narrativas.

Se a protagonista está recordando o que aconteceu, por que ela detalha na ordem cronológica? Pior que isso, há cenas do passado com falas que não fazem o mínimo sentido em serem lembradas por ela, mesmo que algum dos envolvidos dissesse para ela o que houve. E considerando que eu sei que todos, exceto ela, morrem, é irritante ver o tempo gasto com nada.

Pânico na Ilha faz a investigação do presente tirar o peso da aventura na ilha, entrega parcialmente o plot twist e torna mais incômodo o flashback da história da Regina.

É óbvio que se há um único sobrevivente e isso é parte da premissa do filme, então ele deve ser o responsável pela morte dos demais. Essa ideia em si é boa, mas a estrutura narrativa de Pânico na Ilha a prejudica de todas as formas possíveis. Houve exagero na quantidade de “pequenas pistas” deixadas ao longo do filme.

Até aceito o “a Megan é especial”, mas o “eu sou especial” foi demais. Pânico na Ilha vai além e a mostra atacando a psicóloga (por qual motivo ela iria confrontar a suspeita no quarto, em vez de usar o devido processo legal?), fugindo e os pais da verdadeira Jenna confirmando o óbvio de maneira extremamente demorada.

Para um plot twist como este ficar bom no produto final, é preciso ser sutil e breve. O longo espaço de tempo entre a revelação e o fim do filme é o que diferencia o bom O Dia do Terror do ruim Pânico na Ilha. O que salva este filme é que a reviravolta é legal e casa muito bem com a estranha cena da Megan se deitando com o cara lá, bem como justifica a bizonha entrada “surpresa” da Megan no barco.

Parte da ideia de Pânico na Ilha é apresentar um dilema do tipo “um de nós é o assassino, mas não sabemos quem é ele”, artifício utilizado pelo ruim arco Yotsuba de Death Note. Para sustentar esse mistério, Pânico na Ilha força a barra para deixar os personagens separados, mesmo que isso muitas vezes não faça sentido (e o próprio roteiro reconhece isto em alguns momentos).

A montagem estranha, a protagonista irritante e as decisões burras dos personagens (a mulher atrás do cachorro foi de arrancar os cabelos em fúria) tornam Pânico na Ilha um filme potencialmente irritante. Não chato nem exatamente ruim, mas irritante. Até quando o plot twist é legal, a direção vai lá e estraga tudo esticando a cena.

Vale ressaltar uma cena em que um corpo pendurado é encontrado por causa de uma gota de sangue que cai em um personagem. Gostei muito dela por me lembrar da excelente cena em que o Peter confronta o Sylar na primeira temporada de Heroes.

O núcleo policial também se torna irritante devido ao policial idiota que conduz a situação. Ele age como um desmiolado e faz algumas perguntas bem nada a ver. Apesar disso, creio que o filme deveria ser protagonizado por ele e pela psicóloga, numa troca do gênero terror para o gênero suspense.

Eu cortaria o excesso de flashback e focaria na dinâmica entre as informações levantadas e as estratégias usadas pelos investigadores para descobrir a verdade sobre o que ocorreu na ilha. Assim daria para segurar bem melhor o plot twist.

A partir do momento em que os investigadores dizem que o Keith, que supostamente morreu pendurado, não morreu, eu não confio mais na protagonista e isso faz com que ver os flashbacks pareça inútil. Por essas e outras eu detesto a ideia de elaborar um filme contando a história do presente para trás e não para frente.

Pânico na Ilha é um filme fraco, porém satisfatório, graças ao seu plot twist. Se usasse melhor sua ideia com menos cenas inúteis e caprichasse no roteiro, poderia eventualmente ser quase bom.


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