Crítica | Philip Dick’s Eletric Dreams – Vida Real: a negação da realidade

Philip Dick’s Eletric Dreams é uma série antológica de ficção científica baseada nos contos escritos por Philip Dick. Este episódio, o primeiro que vi, é um excelente cartão de visitas, uma reflexão dupla sobre o que nos leva a escolher o mundo da fantasia em vez do mundo real.

Vida Real tem um protagonista duplo: Sarah, uma policial lésbica futurista e George, um empresário vigilante noturno atormentado pela morte da esposa. Ela está estressada com o trabalho e decide tirar férias numa realidade virtual projetada para realizar o sonho de quem a usa. Ele quer fugir de seu sofrimento e decide usar um aparelho de realidade virtual inventado por ele próprio. O problema é que um dos dois é o sonho do outro e a consciência no meio disso tudo não tem certeza de qual é a vida real.

Essa sacada estrutural de o aparelho ser a ponte entre os mundos foi muito inteligente, pois tornou extremamente crível a noção de que o protagonista tinha motivos para desconfiar de ambos os mundos. O que me incomodou enquanto assistia era a obviedade de que George era o mundo real, afinal, que realidade virtual geradora de sonhos criaria um mundo trágico para seu usuário?

Os dois âmbitos da fuga da realidade de George são muito eficientes, tanto o vigilantismo quanto a realidade virtual. Ele queria se vingar, mas, mais do que isso, queria ter sua esposa de volta. Não era culpa dele, mas a dor o levaria a talvez abraçar um mundo de fantasia consciente de que era fantasia, apenas por impulso emocional.

O trauma o tornou mais suscetível a confundir os mundos, mas mesmo nestas condições era muito difícil negar os argumentos da Paula. Fugir da responsabilidade e abrir mão da verdadeira correção dos rumos da vida seria covardia, e George aceitou isso na linda cena em que decide destruir o aparelho, para que não voltasse a flertar com a fantasia futurista.

Este teria sido um desfecho dramático muito bonito, mas eu sabia que não podia ser simplesmente isso, pois ficaria óbvio demais qual dos mundos é o real. De forma quase surreal, Vida Real inseriu uma camada a mais no desejo de fuga da realidade, mas uma fuga que parece muito estranha à primeira vista.

Sarah se questiona sobre o motivo de sua vida ser tão boa, afinal, o que ela fez para merecer tudo isso? Ela rejeita a própria perfeição, rejeita o mundo ideal que obteve. Olhar para o que se conseguiu sem esforço e dizer “eu não mereço isso” não é tão inusitado, mas o episódio usou essa noção como trampolim para o impensável: o aparelho criou para Sarah um mundo de sofrimento em que ela precisaria se esforçar para ser feliz, exatamente como ela queria.

Na trilogia Matrix, existe um conceito semelhante. A inteligência artificial que pretendia domar os humanos criou para eles um mundo ilusório perfeito, mas falhou, pois as pessoas o rejeitavam e conseguiam sair da simulação. Os seres humanos tem uma crença de que a realidade deve ter sofrimento, do contrário, não é realidade, não serve, não vale à pena. Vida Real expandiu um pouco mais a mesma ideia.

A escolha de Sarah entre o mundo perfeito e o mundo de sofrimento é condizente com seu estranhamento diante de uma vida feliz que não foi custosa de se conquistar. Se não há custo, não há valor. Não tem graça vencer por desistência do adversário. Quanto maior o desafio, maior o sabor da vitória, por isso a “felicidade extrema” de Sarah não lhe era o suficiente.

Sarah não desejava apenas sofrimento, desejava algum desafio para a felicidade. George não era apenas uma pessoa ferrada, era uma pessoa traumatizada pela morte da esposa, mas que estava tendo um caso com a médica. Era um combatente do crime com muita habilidade, um pouco perseguido pela lei, mas não muito enrolado. Sem falar em seu patrimônio gigantesco como produtor de tecnologia.

De fato, o mundo fantasioso que Sarah abraçou não era um mar de sofrimento e desespero, era sob medida. E por mim podia tirar o plot twist que Vida Real continuaria com alta qualidade, mas ele é um charme especial por indicar duas conclusões, uma bonita e uma desesperadora: George escolhe encarar a infelicidade e Sarah perde totalmente o contato com a realidade.

Todo o conceito é bem bonito, bem legal, com uma ambientação tecnológica interessante (a questão do carro futurista VS carro antigo foi ligeiramente divertida), mas tenho problemas práticos com a ideia do aparelho que gera a simulação.

Não seria algo básico o desenvolvedor do aparelho criar uma regra que impedisse que a realidade virtual tentasse convencer o usuário a querer ficar lá? Não fazer isso só pode ser ideia de uma pessoa que acha que está tudo bem em seres humanos trocarem o mundo real pela simulação.

Se o coma da Sarah ocorreu devido à quebra do aparelho na fantasia dela, então a própria simulação poderia quebrar? Porque aquilo não é físico, nem as pessoas nem as interações. Todo mundo iria voltar para a realidade necessariamente usando aquilo? É meio idiota usar um mecanismo interno quebrável como elevador para o mundo real. Foi o que mais me causou estranhamento.

A comparação com Black Mirror é inevitável. No futuro provavelmente farei um duelo de qual série é melhor, mas este episódio de Philip Dick’s Eletric Dreams aborda um tema que Black Mirror não abordou (San Junipero não é bem sobre escolher entre a fantasia e o mundo real), então já tem vantagem.

Vida Real é uma incrível história sobre a natureza humana e o quão distorcido pode ser o nosso mundo ideal.


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