Crítica | 119 Graus (2011): o desespero na sauna

Uma sauna que não é à prova de idiotas

Ficha técnica no IMDb

Quatro amigos viajam para uma cabana à beira do lago para um fim de semana sem preocupações, a diversão se transforma em um pesadelo quando três deles acabam trancados em uma sauna. Cada minuto conta e cada grau aumenta o risco de morte, eles lutam por suas vidas no calor até 247°F.

Conforme eu assistia 119 Graus me perguntava se seria muito exagero chamar este filme de obra prima. Lamentavelmente, o final acaba reduzindo o nível geral do enredo, mas ele ainda vale a experiência, pois funciona muito bem enquanto suspense, ainda que force um pouco em alguns pontos.

Em geral, filmes de terror que juntam jovens num lugar costumam ter um início desinteressante com personagens sem graça interagindo de formas que eu não me importo. 119 Graus consegue fazer essa parte chata e necessária fluir de modo mais agradável. Ela fica ainda melhor numa avaliação retroativa, pois os personagens de 119 Graus conseguem ser minimamente diferentes de seus irmãos de outros filmes.

Durante a primeira meia hora, inteligentemente, 119 Graus finge que o espectador não sabe o que vai acontecer e rodeia sem mostrar qual é o desafio que os protagonistas enfrentarão. Além disso, ele brinca com a perspectiva de que talvez o caseiro seja o vilão, ou o Michael, algo reforçado pela ocultação do objeto que bloqueava a porta.

Um problema dessa parte é que os amigos vão da sauna para o rio duas vezes, o que acaba ficando repetitivo (e suponho que não seja saudável). Mesmo com esse pequeno incômodo, gostei do ritmo do filme, que segurou mais 50 minutos com os três personagens dentro da sauna.

Nesses 50 minutos está o coração do filme. Há uma progressão no sentimento dos personagens em cena, que vão ficando mais e mais debilitados fisicamente e exaustos emocionalmente. Assim, suas ações deixam de responder à lógica, desde o combate físico até a obviamente ruim ideia de tocar no bocal da lâmpada com o pano molhado.

A dúvida quanto a mexer ou não no termostato foi bem interessante. Se não mexessem, eles poderiam morrer caso não fosse encontrados, se mexessem, ou morreriam mais rápido ou provavelmente sobreviveriam. Vale a pena correr o risco?

No início valia menos, mas a perda progressiva de esperança e o desespero por encontrar uma saída criou o cenário para que a personagem que usara a força para impedir outra de tocar o termostato o quebrasse por vontade própria.

A tensão chega ao máximo: eles vão viver ou morrer? Bem, a segunda opção era a mais próxima da realidade. Só que o desespero do Ian e seu suicídio prático deram às outras duas pessoas um tempo a mais para tentarem sobreviver, agora enfrentando o gás do aquecedor. Eu preferia o Ian vivo, mas entendi sua ação.

Uma cena a destacar é logo após a explosão. A Jenna imaginou que a porta havia sido aberta pela explosão e ela andava pela casa. Eu acreditei e fiquei pensando no quão esquisito seria aquilo, meio conveniente, mas, felizmente, a sobrevivência contra o gás veio depois, sem falar na boa “revelação” de que ela ainda estava na sauna.

A explicação de como eles ficaram presos foi interessante pela posição da escada, mas foi muito difícil acreditar que o Michael colocaria a escada na única posição que impediria os outros de abrirem a porta da sauna. Além desse flashback, o Michael tem muitas cenas de “dentro da mente”, entre flashback e flashforward, em geral desnecessárias.

Apesar de me incomodar o destaque excessivo para o Michael, é desesperador ver como o mundo do lado de fora da sauna segue normal, sem chegar perto de saber o que está acontecendo lá dentro. Este é um dos maiores acertos de 119 Graus.

Infelizmente, o desfecho parece ter sido feito com pressa, pois toda a tensão que fora construída diante do problema se resolveu em duas cenas rápidas, as quais funcionam mais como um flash do que aconteceu. É inacreditável que 119 Graus tenha errado justo na parte mais fácil.

A cena na ambulância tem seu peso emocional, mas não cobre o buraco dramático do resgate. Vale ressaltar que isto desvaloriza pontos excelentes de tensão, como o cachorro e toda a movimentação do lado de fora. Pelo rumo que estava sendo escrito, o lógico seria Michael e o caseiro entrarem juntos e resgatarem os protagonistas. Quando se erra o que confere lógica básica à narrativa, é possível estragar a qualidade do filme inteiro.

Não foi uma decepção nível A Invasora, mas 119 Graus vacilou. O mantenho como recomendável devido à profundidade dos personagens que ele entrega, bem menos estereotipados que nos demais filmes de terror do subgênero galera junta num lugar quase condenada à morte.


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