Crítica | Funhouse (2019): rinha de famosinho com alguma lição de moral

Ficha técnica no IMDb

Quando oito celebridades de todo o mundo são convidadas a competir em um reality show on-line, elas logo percebem que estão jogando por suas próprias vidas, pois as votadas sofrem consequências terríveis, transmitidas ao vivo para o mundo inteiro.

Funhouse é um filme localizado no meu subgênero preferido: pessoas presas num lugar. Gosto desse tipo de filme por ser mais automático o entendimento, não costuma haver complicação no enredo ou no roteiro. Funhouse acaba falhando justamente nisso, quando gasta tempo demais com as interações dos personagens.

Não que eu critique personagens mais bem desenvolvidos, só que o aprofundamento dos personagens de Funhouse é quase irrelevante e toma tempo de tela que poderia ser dedicado ao maior detalhamento do “jogo”. Seria melhor explorar mais o conceito da “roleta da morte” (algo usado com maestria no início de Deadman Wonderland).

Apesar desta crítica negativa inicial, há algumas coisas muito boas em Funhouse e, no geral, o filme se sai bem. Creio que ele esteja acima do universo “trash”, o que foi uma grata surpresa.

A prova da luta, por exemplo, foi muito boa. Podia ter mais planos abertos, mas se saiu superior a lutas de filmes de grande porte, tanto em execução quanto em coreografia. O duelo de machado seria melhor se fosse iluminado, mas também foi tenso. Funhouse soube construir a tensão nas provas, especialmente pela esperteza em criar desafios relacionados aos personagens (o lutador luta, o mestre em xadrez joga xadrez…).

Por falar em mestre de xadrez, achei estranho como ela pareceu perder fácil a partida. Depois que a verdade foi revelada, senti que era melhor deixar no ar se ela se deixou perder ou não, porque aquela conexão ficou gratuita na trama. É como se o roteirista quisesse mostrar como ele é incrível e amarra todas as pontas da história.

O desfecho do duelo foi a melhor cena do filme. De forma inteligente, Funhouse colocou a aproximação da polícia em paralelo com a contagem para os tiros, assim o espectador não tem como saber o que vai acontecer. Ele vai matar ela? Ela vai matar ele? A polícia vai salvar o dia? Eles vão atirar nos caras estranhos com cabeça de panda?

Não. A saída foi incrivelmente surpreendente e lógica. Nenhum deles iria aceitar fazer aquilo, o que tornou a mestre de xadrez campeã do jogo. Um fim bonito, pois o relacionamento do casal foi razoavelmente interessante. Se não fosse pela extensão do plot twist, o filme seria recomendável.

O vilão é bacana, uma pessoa que não gosta das futilidades que atraem público. Ele despreza os influencers e por isso organizou uma rinha de famosinhos, um Big Brother um pouco mais radical. Se encaixa naquela categoria de bilionário excêntrico. A motivação dele foi melhor aproveitada pela ambientação.

Em Funhouse, aparentemente, existe uma crítica à cultura da idolatria do reality show. As cenas de crianças assistindo não devem ser por acaso, mas sim o reflexo da nossa realidade que expõe crianças a toda sorte de imoralidade.

E o público diante daquelas atrocidades, bem como parte da própria mídia, trata a situação como brincadeira. É o entretenimento, o distanciamento e a relativização do certo ou errado. As pessoas continuavam votando, apesar de tudo.

Funhouse poderia ter partido para um lado mais Hated in the Nation (um dos melhores episódios de Black Mirror) com a conexão entre a audiência e a motivação do vilão, mas sua escolha por deixar mais no ar foi acertada. Essa pequena lição de moral funciona e poderia estragar o filme se fosse explorada muito a fundo.

Funhouse é um filme legal que oferece alguns significados, boas cenas e um sensacional desfecho. Não é preciso avaliar muito os sentidos implícitos para concluir que o filme funciona, por isso ele está acima da maioria dos trash que eu resenhei.


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