Crítica | O Homem de Palha (1973): a fé e o hamster na roda

Ficha técnica no IMDb

Um sargento de polícia religioso é enviado para uma vila escocesa em busca de uma garota desaparecida que os habitantes da cidade afirmam nunca ter existido. Mais estranhos ainda são os ritos pagãos que ocorrem por lá.

O Homem de Palha é um interessante filme sobre fé e intolerância religiosa, sem deixar a desejar na parte do terror. Seu maior mérito é esse: funcionar enquanto entretenimento, já que segue uma lógica vista em vários outros filmes, e apresentar um conteúdo digno de nota, de discussão. O caso não é bem o mesmo, mas achei fantástico o quão O Homem de Palha é melhor que Midsommar.

O filme possui várias cenas de música e algumas delas funcionam, devido ao contexto, mas uma não. A cena da “tentação” é demasiado extensa e não agrega muito ao filme, ficando mais como uma nudez gratuita. Se ela fosse mais curta, não me incomodaria tanto.

Fora isso, não há mais defeitos para apontar, pois O Homem de Palha faz muito bem o que se propõe a fazer.

Falando sobre a narrativa, o vilão do filme é muito bom. E quem é o vilão? Toda a ilha. Desde o início dá para sentir que tem algo de errado. Os moradores do lugar sempre parecem estar escondendo a verdade voluntariamente. Enquanto eu assistia, senti que via um predador brincando com a presa, o que bate com o plot twist.

A revelação faz sentido, pois explica o motivo de o sargento chegar até a ilha e o aparente desejo dos moradores de manter ele por lá. É uma boa adição para a religiosidade local, já que quebra a expectativa de aquele povo ser apenas um monte de gente sem coração.

Adiante, O Homem de Palha conserva a tensão e dá uma pequena esperança de que o final não seja o óbvio, o que também é um grande mérito do filme. Muitos outros largam mão no fim e rebaixam a qualidade do todo. Neste caso, até o último instante existe relevância temática.

O sargento é como um colonizador que chega numa terra com costumes diferentes dos dele. De modo perspicaz, O Homem de Palha não deixa estabelecer-se um maniqueísmo tradicional de os assassinos serem obviamente ruins e o assassinado no máximo ser um idiota. O sargento tem seus defeitos.

Em vários pontos do filme, o sargento trata a religião local como algo falso, que deve ser substituído. Ele vai além da automática repulsa e apresenta um ranço da ideia de crer em outra religião. Para o sargento, tal visão era inadmissível. E não ficou só nisso, pois no fim ele clamou e não se rendeu.

Ressalto a inteligência dele ao tentar colocar os súditos contra o líder. Creio, inclusive, que se a próxima safra não fosse boa, os súditos se voltariam contra o líder. Esticando mais a imaginação, acho que ele sabia disso.

Há alguns interessantes diálogos em que o sargento é refutado. Numa conversa com o líder, ele questiona a pregação da gravidez sem contato físico, ao que o líder aponta para a situação de Maria, mãe de Jesus. Foi um bom momento.

O Homem de Palha construiu bem a religião local, com seu ensino diferenciado e as canções. Gostei da sacada das árvores nos túmulos e a música sobre o fluxo contínuo de renascimento que a vida proporciona. É uma visão de mundo curiosa e plausível partindo de outras “decomposições” (como todos sermos feitos de átomos).

O conflito religioso embasa com vigor o ímpeto e a arrogância do sargento em achar que podia resolver tudo sozinho. A variação emocional no discurso acompanhou esta perspectiva.

É uma experiência gratificante assistir a O Homem de Palha porque ele entrega um bom enredo do começo ao fim e uma sensação de “sem saída” que é excelente. É um filme recomendável, caso você não se incomode com nudez feminina e personagens cantando.

A cena do sargento diante da verdade, conversando normalmente, embora no fundo todos eles (e todos nós) saibam que é o fim, foi tão incrível que me fez ter uma sensação parecida com a conversa final do Kira com os policiais.


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