Crítica | Kart Nervoso (2020): uma aventura pouco memorável

Ficha técnica no IMDb

Um adolescente destemido se arrisca nas corridas de kart com o apoio dos amigos e de um ex-piloto durão, que vira seu treinador.

Kart Nervoso começa bem por esse título, o qual traduz muito bem o clima do filme, que, definitivamente, não deve ser levado a sério. Ele é clichê, extremamente previsível e raso, quase que se limitando a fazer o que não é mais do que a obrigação de um filme decente.

A última frase do parágrafo anterior se encaixa em um sem-número de filmes, e, Kart Nervoso é um dos mais perdoáveis deles. A beleza de Kart Nervoso é que ele não finge ser revolucionário nem tenta enganar o espectador com uma percepção de que algo incrível virá. E ser honesto quanto às suas pretensões não o torna displicente, no que tange aos personagens principais, devo acrescentar.

A fotografia tem alguns cuidados agradáveis, como enquadrar ao mesmo tempo o lado de fora e o de dentro de uma loja para mostrar uma ação e o Jack Hooper reagindo à ação. Outra opção técnica se dá em uma conversa, na qual a câmera mostra um personagem de costas para o outro e seu rosto é visto entre ambos por meio de um espelho.

Além destes mais interessantes, o estilo de filmagem é bem misto, combinando câmeras “tremidas”, estáveis, planos abertos e mais fechados. Novamente, o mínimo que se espera de um filme é o uso de vários enquadramentos, mas o que tem de longa-metragem conhecido pobre em fotografia não está no gibi.

Kart Nervoso é bem humorado. Suas piadas incluem uma autoconsciência de que certos momentos são um pouco forçados, o que deixa o filme mais tragável. Agora, houve uma imensa oportunidade (desperdiçada) de brincar com a natureza clichê do Dean Zeta.

Jack é um gênio do kart que acabou de descobrir isso. Sua falta de conhecimento justifica sua dificuldade em se equiparar ao Dean, ainda combinando muito bem com os dois coadjuvantes principais.

O laço com o pai foi sabiamente marcado com duas ações: fazer fumaça com o carro e jogar videogame. A segunda deságua em seu desejo irrefreável por vencer. Ou talvez não por vencer, mas por tentar, já que quando bate o recorde de seu pai no jogo, não parece estar feliz.

A escolha artística por deixar a imagem mais distorcida e confusa no momento em que a ambição supera a razão é no mínimo curiosa. É estranho no começo, mas essencial para que a contagem regressiva do clímax tenha mais peso.

A Mandy Zeta é um personagem interessante. Provavelmente por ter crescido em um ambiente profissional de corrida desenvolveu grande habilidade com a parte técnica dos veículos. Isto faz sentido, assim como a escolha do pai dela por deixá-la “de molho”, em vez de dar uma chance a ela.

E isto me leva a um ponto de convergência dos dois coadjuvantes principais com o Jack. Depois de ele, coerentemente, se zangar e destratá-los após perder a vaga na nacional devido à sua impulsividade, o mecânico e a moça se dispõem a ajudá-lo na nacional.

O que poderia ser apenas um conveniente poder da amizade vai um pouco mais longe. Não que ambos não gostem do protagonista, mas… O Patrick queria acertar as contas com o seu passado e, de modo egoísta, investir em um jovem genuinamente talentoso (o que ele ressaltou que não era o caso do Dean).

Já a Mandy desejava mostrar ao pai e ao irmão que eles não deviam deixá-la de lado. E tem jeito melhor de fazer isso do que vencê-los em uma corrida com um carro feito com sucata e pilotado por um iniciante? Certamente, ao final do filme, Mike Zeta percebeu que tinha um gênio para trabalhar, este muito mais interessante que o filho sem talento.

O destaque negativo fica para o Colin, que serve basicamente como um chaveiro do protagonista. O roteiro poderia ter investido muito mais nele, em vez de relegá-lo a ser um mero humilhado com autoestima baixa o suficiente para voltar a ser amigo do protagonista, depois de ele ter sido um grande babaca. Até nisto é possível ver o roteiro sendo coerente.

O Dean e seus amigos são extremamente genéricos, o arquétipo do cara mau, visto em Karatê Kid (2010). E comparações entre ambos os filmes não faltam. A semelhança mais óbvia é o uso de tarefas estranhas para preparar o protagonista para a prática. No geral, a aventura em Kart Nervoso é genérica, uma mistura de Karatê Kid com Carros (2006).

Felizmente, Kart Nervoso não finge ser o que não é e entrega bem o que se espera dele, uma aventura leve, divertida e funcional. Não é muito bom, mas é perfeitamente satisfatório.


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