Crítica | O Nevoeiro (2007): apocalipse extradimensional

Ficha técnica no IMDb

Depois que uma tempestade causa danos em sua casa no Maine, David Drayton e seu jovem filho vão à cidade para conseguir alimentos e suprimentos. Logo depois, uma espessa neblina atinge a cidade, deixando várias pessoas presas na mercearia.

Existem filmes que se critica pegando um aspecto bom e outro ruim, o tipo comum de obra. Eles podem ser recomendáveis ou não, mas não são simplesmente desprezíveis. Por outro lado, há o filme bom, aquele que está em outro nível de qualidade e que, basicamente, só oferece pontos positivos. O Nevoeiro é isso, um filme bom de verdade.

O Nevoeiro é estruturalmente inteligente. Seu enredo é extremamente parado e parece que nunca vai para lugar algum, então a saída encontrada para não entediar quem vê é mostrar um pouco mais das criaturas mortais. Esse estilo dita o ritmo do filme e o deixa mais agradável de consumir.

Devido às dificuldades com computação gráfica, as melhores cenas das criaturas são aquelas encobertas pelo nevoeiro, sem muita nitidez. Sabiamente, a partir disso, O Nevoeiro usa as aparições parcialmente visíveis para ampliar o terror. Destaque para o efeito nojento das ações das criaturas, em especial o homem ninho.

Uma característica interessante dos insetos foi a dinâmica de predador e presa. As “moscas” que apareceram no começo foram perseguidas por seu predador natural. O inseto que quebrou o vidro não queria entrar, a quebra era consequência da captura das “moscas”. Tal detalhe não foi percebido pelos personagens, o que aumenta o valor do filme como um todo.

Os personagens de O Nevoeiro são bem construídos e desenvolvidos. O Capitão Holt, cujo laço estava sendo construído com o protagonista, rapidamente voltou-se contra ele, acendendo velhas chamas de conflito. Sua racionalidade, em consonância com sua profissão, o impedia de conceber um ataque alienígena.

Os profissionais “braçais”, assim que encontraram um problema para resolver, agarraram-se a ele e deixaram de lado o risco que viviam, o não saber que tinham. Estavam tão assustados que assistiram ao protagonista e ao nerd tentarem salvar o rapaz. O mesmo medo fez um deles se agarrar à fé.

A mocinha principal estava marcada para ser companheira do protagonista desde sua primeira aparição no mercado e a evolução do laço entre eles foi bem empregada, principalmente em questão de como ela cuidou do filho dele como se fosse seu (em especial, na última cena).

O inexplicável é um forte combustível para a religiosidade, pois a religião explica tudo ou, pelo menos, torna menos incômoda a sensação de não saber. Além disso, ela representa a esperança de que tudo melhore e esperança é a maior, e última, das motivações.

Gradativamente, a religiosa alcançava um público maior e mais fiel, pois oferecia conforto e uma saída. Era o que todos ali queriam, ainda que tal saída significasse assassinato. A própria religiosa estava com medo, buscando respostas e tentando entender o que devia fazer. Não à toa seu discurso inicial de que é a punição divina acontecendo muda para um “eu sou o caminho”.

A religiosa é um bom personagem, pois eu quis muito entrar no filme e dar um soco nela. Ela é um tipo de personagem padrão em obras de apocalipse. O primeiro par que lembrei foi o Shidou, de Highschool of the Dead, no mesmo pique de conversa religiosa.

O final dela foi adequado, a única saída até que as pessoas do mercado elejam um novo salvador. A forma como acontece é tocante, pois o risco era imediato e inadmissível. Não foi apenas raiva ou convenção de roteiro, foi não ter saída. Tentar a sorte no mundo lá fora era mais fácil que sobreviver ali dentro.

Não ter saída também é uma ótima definição para a sequência do carro. O clima é de total desesperança e a certeza de que, caso a gasolina acabe antes de saírem do nevoeiro, será impossível sobreviver às criaturas.

A arma tinha sido estabelecida no início do filme e o suicídio como saída também fora apresentado. Era o cenário ideal para uma difícil escolha. O gatilho para a ação teria que ser a emoção, mesmo que os 4 ali concordassem implicitamente com a saída. Se o filho do protagonista não acordasse, duvido que a escolha teria sido feita tão rapidamente.

O desespero carregado por aquela circunstância é excelente, muito doloroso e crível. Se O Nevoeiro acabasse ali, seria muito bom e já estaria em outro patamar, mas houve o toque final de sadismo do roteiro: se a escolha demorasse mais alguns minutos, não seria necessária.

O que mais gosto neste final é que ele une elementos mostrados lá no começo, como a base militar da montanha, o nevoeiro vir de lá e os militares com pressa. É lógico e coerente, não apenas um “vou te choquei” (como fazem filmes tipo Centopeia Humana).

O Nevoeiro é um incrível filme de terror, com clima de apocalipse e personagens interessantes. Não é só recomendável, como também é um dos melhores do gênero.


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