Crítica | A Morte te dá Parabéns (2017): quase muito bom

Ficha técnica no IMDb

Tree (Jessica Rothe) é uma jovem estudante que trata mal as pessoas e não está muito disposta a atender as ligações do pai. No fim do mesmo dia, no entanto, ela é brutalmente assassinada por um mascarado.

A Morte te dá Parabéns me deixou triste assim que terminei de assisti-lo. Não triste pelo filme ser dramático, mas sim por ele construir um maravilhoso arco de personagem, comparável aos melhores filmes que já assisti, e jogar isso fora para ser apenas mais um filme de terror genérico, embora possuindo um pouco mais de criatividade.

A estrutura narrativa do filme possui dois elementos antagônicos no que tange ao “valor clichê”: o assassino que é alguém que o protagonista conhece e a repetição de eventos.

O primeiro elemento fora usado em demasia pelo subgênero slasher, ao ponto de ficar saturado. O segundo não é tão comum e rende filmes brilhantes, como Triângulo do Medo e El Incidente. A Morte te dá Parabéns também seria brilhante, caso entendesse que de slasher o mundo já está cheio.

É bem interessante como o filme coloca o esquema de ter que descobrir quem é o assassino como algo importante e vai levando isso até a revelação de que ele não era ninguém relevante. É corajoso, pois vai na contramão do gênero, e traz um nível além de qualidade.

Quando a protagonista escolhe voltar para o ciclo a fim de salvar o Carter, A Morte te dá Parabéns está nos demonstrando que o filme não é sobre um assassino perseguindo uma adolescente. Então sobre o que ele é? A redenção de uma pessoa ruim.

Astutamente, o filme inseriu no ciclo momentos em que coisas acontecem e a protagonista reage a essas coisas de formas reprováveis. Assim, a cada repetição, íamos absorvendo a noção de que ela não é uma boa pessoa, especialmente para com sua colega de quarto.

Considerando este cenário, senti que A Morte te dá Parabéns caminhava para um final em que, no máximo, seria revelado que o problema não era o assassino ou a protagonista morrer, mas sim ela não mudar de comportamento. Um mecanismo extremamente similar ao Izanami de Itachi em Kabuto, um dos melhores momentos de Naruto.

Quando a protagonista tem o dia perfeito, em que faz tudo certo e não é babaca com as pessoas, concluí que aquele arco de personagem disfarçado de slasher era uma das melhores coisas que eu tinha visto em filmes de terror nos últimos tempos. Muito bom e corajoso, só que não era isso.

O filme poderia ter acabado com a protagonista descobrindo que aquilo é de fato um ciclo infinito sem escapatória, mas A Morte te dá Parabéns escolheu a pior saída de todas: assumiu ser o slasher que tenta ter um enredo intrincado em que tudo está conectado com a grande revelação, aquela síndrome Lex Luthor de Batman vs Superman.

De tanto tentar amarrar o roteiro, o filme se enforca sozinho, jogando fora o desenvolvimento da protagonista e tratando a trama como se o importante fosse, realmente, o assassino e sua identidade secreta. Como esse lado do assassino não é lá essas coisas, a qualidade da obra vai pelo ralo.

Isso nos leva a reparar mais em detalhes estranhos, como a eficiência do assassino em atacar a protagonista com total precisão, mesmo ela pegando uma estrada de carro a toda velocidade. O confronto derradeiro é idiota, pois, se a protagonista sabia quem era, não havia sentido em não se preparar devidamente. A cena patética é coroada com um movimento à lá Jackie Chan.

É estranho que a protagonista não tenha sido presa, pois não havia nenhuma prova de que ela agira em legítima defesa. Claro que isto é o de menos.

A motivação do vilão é uma piada e sua identidade é óbvia, não tanto pelo título do filme como muitos apontam, mas pela quantidade de tempo de tela e de destaque dado a cada personagem. Não é exatamente ruim, mas A Morte te dá Parabéns trocou algo muito bom por algo que é só mais do mesmo.

Um detalhe que me agradou um bocado no filme foi o realismo da protagonista diante daquela situação. Ela era uma má pessoa, mas não o tipo forçado de má pessoa. Do mesmo modo, ela reage ao ciclo como uma pessoa normal reagiria.

Se sabemos que aquilo provavelmente não é real, ou deixará de ser, nós perdemos a vergonha e fazemos o que queremos, afinal, não importa. Um ponto positivo que se perde em meio a um final ruim.

A Morte te dá Parabéns tinha tudo para ser um grande filme, mas preferiu ser só mais um slasher mais ou menos criativo.

Observação: até o momento de publicação desta crítica, eu não assisti ao segundo filme e já suponho que vá me irritar muito.


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