Crítica | Perdidos (2017): era melhor se fosse um sonho

Ficha técnica no IMDb

Num fim de semana, a bordo de um luxuoso veleiro, um grupo de amigos decide nadar no mar sem terem baixado as escadas. Tendo em conta que é impossível de subir, acabam à deriva, a quilômetros da costa. Lentamente vão percebendo o tamanho da situação dramática em que se encontram e a esperança de escaparem com vida começa a desaparecer. A exaustão de se manterem a superfície e a luta para voltar a subir a bordo do barco tornam-se insuportáveis.

Perdidos usa uma boa ideia: pessoas presas em uma situação adversa que envolve água. Além dos vários filmes com tubarões, há um que conjuga mais ou menos esse desafio, o muito competente 12 Feet Deep.

Neste cenário concorrido, por mais que Perdidos não seja ruim, ele não consegue ser bom o suficiente para valer a pena. Apesar disto, há um ponto positivo muito forte que fiquei em dúvida se era bom ou ruim: os personagens.

Durante meia hora o filme trabalha a meia dúzia de personagens expondo algumas características relevantes, mas que pareciam tão superficiais que pensei que Perdidos fingia desenvolvê-los.

Há um pouco de cuidado materno, amor do passado, nostalgia e desconforto.

O lado materno (e paterno) cria uma motivação a mais para a sobrevivência e traz um drama acentuado. É doloroso pensar no bebê isolado, à mercê de tudo, incapaz de fazer qualquer coisa. Infelizmente, este tema não foi bem amarrado.

A nostalgia evoca a sensação de que houve um drama amoroso, o qual agora respinga na realidade. O beijo é a maior prova disto.

Daniel quis retomar aquele laço porque seu fim, pelo menos fim enquanto rico, se aproximava. Talvez seu drama seja o mais interessante de Perdidos. A necessidade de aproveitar aquela última vez o fez perder o senso de risco, sentimento que desaguou em uma escolha estúpida.

A escolha estúpida que condenou os amigos à morte é estupidamente humana. Uma brincadeira impensada e fim de papo. Roteiro ruim? Talvez. Minha aposta é que o roteiro é inteligente.

Foi inteligente também ao trabalhar o desconforto. O homem que não se sente à vontade perto dos amigos da esposa e a mulher que admite a patética situação em que se encontrava: morrendo diante de desconhecidos que não sabem quem é o dono do nome que ela clama. Vi nela um doloroso arrependimento. E, assim, ela decidiu morrer sozinha.

Saindo do lado interno dos personagens, existem decisões burras que não sei se são acertos de um roteiro que explora a burrice humana ou se são erros de um roteiro ruim.

Só existiam quatro formas de voltar ao barco sem ser pela escada: esperar ondas que os deixassem mais perto dos pontos de apoio do barco; abrir buracos no barco para poder escalar; fazer uma corda com as roupas ou subir no barco na marra.

Esperar ondas não podia sequer ser cogitado, pois era o mesmo que esperar um barco salvador vindo do nada.

Fazer uma corda com as roupas era a segunda opção mais óbvia e, por algum motivo que desconheço, os perdidos acharam uma boa deixar um homem tentar subir a corda, mesmo havendo mulheres ali.

Voltar ao barco subindo na boia era a opção mais óbvia e imediata. Como eles haviam acabado de cair, não é possível que não tenham percebido a chance que tinham: encostar o golfinho ao barco, colocar os três homens para apoiar uma das mulheres e esta se escorar na embarcação até alcançar a borda.

Não faz sentido insistirem tanto em “arremessar” alguém tirando impulso da água, ou seja, de nada. Por que não fazer o mais evidente e simples?

A burrice campeã foi abrir buracos no barco. Se eles tinham algo com ponta, como não fizeram isso antes? Passaram várias horas lá e não sacaram que era a única alternativa? Por que saudáveis não conseguiriam fazer o que o moribundo conseguiu?

Aquela resolução foi tão simples, súbita e surreal que pensei e torci para que fosse apenas uma alucinação da protagonista. Depois de tudo o que passaram, foi fácil demais. Para quem assistiu ao 119 Graus, pensei “naquela” cena mesmo (só que o referido filme acertou).

Em resumo, Perdidos é um filme meia boca com uma ideia até que legal e alguns pontos positivos, mas o final morno põe tudo a perder.


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