Crítica | Corpse Party — Musume vol. 2: estranhamente bom

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O vol. 2 de Corpse Party — Musume é estranhamente bom porque, por mais que ele contenha boa parte dos defeitos do vol. 1, eu me empolguei muito enquanto lia e terminei de ler com o astral lá em cima, como fico depois de curtir uma boa obra.

Só que, dando uma olhada depois, percebi que o volume não foi lá essas coisas. No começo, uma personagem está enfrentando um inimigo inusitado e acaba de quatro, praticamente se arrastando no chão. O problema é que ela não fora machucada e podia se levantar e correr.

Seria só uma desculpa para ecchi? Talvez. E isso tem a ver com um grande ponto positivo do vol. 2. Depois que dois personagens conseguiram sair da “outra escola”, a Sachiko apareceu e explicou o roteiro de Corpse Party — Musume.

Em geral, eu consideraria isto um defeito, mas era isso ou um livro conveniente. Fato é que a Sachiko morreu (não sei dizer se foi suicídio porque o quadro não deixou claro) após ser abusada por um professor na escola. O trauma a tornou um espírito errante, preso ao nosso plano, o qual, cheio de ódio, criou uma escola num outro lugar para onde leva pessoas e as manipula.

Onde está o ponto positivo? A Sachiko má ter nascido de um desejo sexual justifica seu interesse pela atmosfera erótica. Por este motivo ela matou o diretor da escola quando ele pretendia abusar da neta.

Esse elemento da personalidade da Sachiko parece ser a causa de atitudes estranhas dos personagens. Se ela usou o corpo da Naomi para seduzir (ou pelo menos brincar com) o protagonista, pode ter feito aqueles que estavam na escola terem impulsos sexuais intensos (a cena inicial e a do abraço/dedada se explicariam).

Vou mais longe. Podemos esticar a interpretação e presumir que a Sachiko queria testar o protagonista, ser uma tentação para ele. Nessa ânsia, além de usar o corpo da Naomi, ela pode muito bem ter ocasionado a cena em que a irmã dele fica de quatro, presa na parede, com tudo de fora.

Talvez eu esteja enxergando amarração demais no roteiro de Corpse Party — Musume, mas pensar assim deixa este mangá menos doentio para mim. Tirando isso, a história da Sachiko é tocante e me convence como origem mitológica do evento. Só que…

A partir daí, a solução que ela apresenta para a situação é ilógica. Por que encontrar o corpo dela na outra escola mudaria algo? Aquele lugar foi feito pela Sachiko do mal, então não devia mudar nada para ela ter um corpo lá, escondido ou não.

Isso não é um jogo, em que se pode colocar uma missão e ter como recompensa a resolução do problema. Precisa fazer sentido. Por exemplo, uma boa saída seria ter que revelar o corpo na escola de verdade.

No todo, Corpse Party — Musume me dá a impressão de não conseguir guiar seus personagens e situações para um momento-chave final. No vol. 3 falarei mais sobre isto.

A versão que eu comprei do mangá tem as páginas grossas, então sempre tenho a impressão de estar passando mais de uma. Pra piorar o entendimento, a quadrinização de Corpse Party — Musume é confusa. O último quadro de uma página muitas vezes não parece desaguar no primeiro quadro da próxima página, criando uma estranha sensação de estar perdendo algo.

Outro problema, este técnico, é que algumas onomatopeias foram traduzidas como “agarra”, “arrasta” e outras formas de se explicar o som. Como há onomatopeias que não são descritivas, isso deve ser da versão original. Não estudo sobre quadrinhos, mas presumo que seja errado explicar o que é o som em vez de simular o som, que é o propósito da onomatopeia. Ela não é um parêntese num roteiro.

Como eu disse na resenha passada, o fato de o mangá sugerir que a Naomi fora substituída tira o peso da revelação de que ela já estava morta. O momento podia ser mais impactante se eu não soubesse, se o roteiro não me fizesse desconfiar.

Em mais um problema de roteiro, os dois personagens a quem a Sachiko boa confiou a missão de achar seu corpo do nada apareceram com um papo de que fizeram um trato com a Sachiko má: matar os três restantes para voltarem ao mundo real.

O que houve com “encontrar o corpo”? Por que eu não vi eles falando com a Sachiko má? Como funciona a relação de tempo entre cada núcleo neste mangá? (Se não houver distorção temporal, então eles entenderam “encontrar o corpo” como “mate os três”, porque não daria tempo de tentarem, falharem e receberem a proposta indecente).

E a pergunta que não quer calar: por que o rapaz foi burro o suficiente para achar que a moça iria matar o protagonista quando ela já demonstrou se importar mais com o protagonista do que com ele? Ele levou a expressão “gado demais” a níveis jamais vistos na história deste país.

Agora uns pontos rápidos:

A Sachiko é bem assustadora.

Sinto que vou explicar na próxima crítica o motivo de a “detetive” ser um desnecessariamente óbvio recurso de roteiro.

O protagonista é tão irrelevante que não fiz questão de aprender o nome dele.

Depois de terminar esta resenha eu me pergunto: como é que fui gostar deste volume?


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