Crítica | Corpse Party — Musume vol. 3: até que não é ruim

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O vol. 3 de Corpse Party — Musume é um desfecho mediano para uma obra também mediana. O mangá não é totalmente no meio do caminho, mas ele tem pontos altos e pontos baixos. Um defeito recorrente que eu mencionei na resenha do vol. 2 é o ritmo.

No vol. 2 eu estranhei o salto narrativo da missão dada pela Sachiko boa a dois personagens para o momento em que eles surgem maus, querendo matar os outros sobreviventes. No início do vol. 3, há um flashback que parecia querer explicar o que houve, mas que não serve de nada, só quebra o fluxo narrativo.

O conflito entre a garota e o Satoshi (enfim absorvi o nome dele) até é bom e impactante. Eu sofri por ela. O problema foi o garoto que caiu feito um idiota voltar, pois eu não ligava a mínima para ele. Era melhor continuar no buraco do que fazer número no grupo sobrevivente.

No fim das contas, eles foram atrás do corpo da Sachiko e, convenientemente, acharam super rápido e fácil. O segredo para libertá-la do ódio não era encontrar seu corpo, mas provar para ela que o mundo não se resume a sentimentos negativos.

Por isso, desde o começo, o objetivo dela era tentar aqueles que levasse àquele mundo para que se tornassem maníacos. O Satoshi mostrou que era possível ser diferente, abrindo caminho no coração da Sachiko má para que a boa ganhasse poder.

Com o problema da Sachiko resolvido, descobrimos algo lógico e muito bom: aquele lugar não fora criado pela Sachiko, mas estava acima dela, antes dela. Assim que seu ódio se fora, as outras forças que lá habitavam saíram de controle, tornando-se uma ameaça assustadora para os sobreviventes.

Aqui entra um grande defeito de fluxo temporal. A Sachiko estabelece que os sobreviventes têm nove badaladas para saírem da escola, ou a Sachiko deixará de existir e, consequentemente, segundo ela, a escola também. Aí ela indica um buraco e diz que é um atalho que os deixará perto (e, de novo, a Shinohara espírito aparece. Chega, né?).

Na cena seguinte, duas páginas depois, faltam três badaladas, só que existem mais quase 30 páginas até eles entrarem na porta. Em momento algum eles demonstram um senso de urgência compatível com a situação e a única forma de as badaladas serem tão demoradas é a Sachiko ter se enganado, mas nada no mangá indica isso.

Você não pode inserir um elemento temporal, como o relógio das Doze Casas de Os Cavaleiros do Zodíaco, e depois esquecer que ele existe. Não é só desperdício de oportunidade dramática, é contraproducente, pois mostra como faltou planejamento e revisão do roteirista.

Falta senso de urgência. Eu sei que as coisas estão prestes a desabar e eles estão correndo contra o tempo, mas a aparição da Naomi tira esse peso, relaxando a cena e tornando tudo calmo demais.

O retorno dela seria ruim de qualquer forma: ou ela estaria viva e a morte dela perde o peso ou ela estaria morta e sua aparição seria só mais enrolação de Corpse Party — Musume. A cena de impacto que surge naquele momento também é problemática.

É muito conveniente para o roteiro que o espírito ataque justamente a Yuka e apenas ela. Depois, por algum motivo que eu não faço ideia, o Satoshi ficou vendo a irmã morrer ao invés de pegá-la no colo e correr pelo portal. A morte dela já era certa, então ele não tinha nada a perder.

A cena, inclusive, é bem angustiante. Acho que foi o momento mais “terror” de todo o Corpse Party — Musume.

Depois da volta ao mundo real tem uma página escrito “fim” e eu realmente não entendi, porque depois tem mais uns capítulos essenciais para a trama.

Primeiro, o final do Satoshi: nada em Corpse Party — Musume justifica a Yuka conseguir escrever um bilhete e deixar no quarto dele. Mais estranho ainda é ele entrar no quarto dela e vê-la.

Considerando que ele tem sangue na boca e há sangue no chão ao lado da cabeça, acho que a cena de incesto foi delírio e ele se suicidou com um tiro na boca.

Se supusermos que aquilo foi real, fica muito estranho e vago, quase como um desfecho tirado do lado externo do mangá. Não bate com o que vimos anteriormente. Esse tipo de ruindade não me surpreenderia, vindo de Corpse Party — Musume.

O final dos dois que receberam a missão da Sachiko boa faz sentido. O desejo de autopunição é lógico e o rapaz mantém sua natureza subserviente, enquanto a moça não está nem aí para ele. Não é um desfecho necessário, mas não tenho problema algum com ele.

O final da Naomi é o mais importante. A verdade é que ela morreu e seu ódio foi o maior entre os que estavam na escola, por isso ela foi escolhida como sucessora da Sachiko. É impactante e gostei dessa amarração mitológica, porém…

Por que essa revelação precisava acompanhar a detetive? De novo, ela é só um mecanismo narrativo que chega e explica o roteiro, porque, basicamente, ela não faz nada durante a história inteira, não importa nada emocionalmente e é irrelevante.

Se ela não serve para nada, para que criá-la? Obrigação contratual? Ela é tipo o Willian Bludworth em Premonição: só serve para tirar qualidade da obra. E se a intenção era fazer um plot twist com a Naomi, Makoto Kedouin devia ter mantido ela no grupo agindo normalmente e colocado uma dica de que um deles já estava morto. Podia até não dar pista nenhuma que seria bom, mas ele fez uma péssima escolha.

Um personagem não pode existir apenas para fazer o que o autor precisa que seja feito. É óbvio que obras de ficção possuem necessidades, mas quando fica claro como se fosse um rascunho, o personagem foi mal escrito (salvo algumas exceções que focam no arquétipo, como Matrix, com o Neo). Do jeito que foi inserida, é automático olhar para a detetive e enxergar um mero mecanismo de roteiro.

Há outros problemas comuns para Corpse Party — Musume neste volume, como cenas ecchi toscas e as onomatopeias descritivas.

Corpse Party — Musume é uma obra fraca. Seu terror é legal, algumas cenas são boas e o enredo é bem interessante, mas o roteiro é ruim. Se tirar a ideia base de Corpse Party do mangá, o que sobra é uma péssima narrativa (em alguns momentos confusa).

Observação: acho que um problema que permeia toda a franquia Corpse Party é a condição advinda do título. Acaba que as histórias se resumem a uma “festa de cadáveres”, sem interesse em caprichar nos personagens. Até por isso é tão difícil “pegar” o nome deles.


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