Crítica | Deep Dark (2015): a superficialidade dos relacionamentos

Ficha técnica no IMDb

Escultor frustrado, Hermann resolve seguir o conselho de seu tio, um artista bem conceituado e rico, e se isola no mesmo apartamento em que este criou as obras que o tornaram famoso. Após dias sem criar nada, Hermann descobre um buraco falante na parede, de onde parece brotar magicamente a inspiração para o seu trabalho. Mas há um preço terrível a ser pago.

Deep Dark me foi vendido como um filme de terror, o que está errado. Ele é um drama com uma perspectiva pessimista sobre relacionamentos. Ele é até bem humano, se desconsiderar o buraco na parede que fala e realiza desejos.

Embora o buraco esteja ali com seu aspecto sobrenatural, ele é construído como um personagem, não um mero recurso de roteiro, como é o quarto em A Sala. Ele pensa, sente, deseja e reage, contando ainda com um final emocionante que eu não esperava.

Em geral, os personagens de Deep Dark são marcados pelo desejo. O protagonista deseja ser um artista, a chefe dele deseja ganhar dinheiro, a “caseira” deseja o protagonista e o buraco deseja companhia. Esse desejo os leva a realizar ações sem profundidade, fúteis.

A falta de profundidade não é um problema, pois é proposital. É como uma paixão, um fogo ardente que pode mudar de alvo rapidamente, ao sabor das ondas. Os personagens não podem ser recriminados por seu comportamento mesquinhamente humano, mas cabe a reflexão.

O protagonista nunca gostou do buraco, ele gostava do que o buraco proporcionava, e, no fim, sentiu peso na consciência por ver moribundo aquele ser que ele usava para alcançar o sucesso. De modo semelhante, a chefe dele gostava do dinheiro que as obras de arte traziam, não do protagonista. Ele, burro, se deixou levar pelo orgulho de ser desejado e não percebeu que tudo aquilo era mentira: a arte e o romance.

Existe também uma crítica ao sistema de recompensas do mundo artístico. O protagonista pensava para criar e só obteve sucesso quando usou as obras sem significado produzidas por um ser místico. O rival dele obteve sucesso montando uma obra que consistia em: quem quiser vem nessa tela em branco e assina.

As pinturas da chefe eram muito mais “arte” que a tela de assinaturas do rival, mas meu objetivo não é discutir o que é ou não arte.

O desfecho foi pertinente. A chefe manteve o objeto de desejo (dinheiro), em vez do meio para conquistá-lo (protagonista) e o protagonista sofreu com o sofrimento do buraco. Tudo lógico, tudo superficial, tudo bom.

Só senti falta de saber o que aconteceu com a caseira, a qual levou um golpe num jumpscare desnecessário em um filme com essa qualidade.

Filme esse que de terror só tem a assustadora cena inicial. No todo, Deep Dark é um bom drama sobre um artista fracassado. Parece interminável e diferente do que sua sinopse sugere, mas é bom.

Uma coisa que me incomodou foi o protagonista não se perguntar questões essenciais sobre o buraco: ela é o buraco ou está no buraco? É uma passagem para outra dimensão ou é dentro do nosso mundo? Como ela pode escrever e passar por ali? Como funciona a fisiologia dela? As respostas destas e de outras perguntas nunca saberemos.


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