Crítica | Louca Obsessão (1990): entre altos e baixos

Ficha técnica no IMDb

O famoso escritor Paul Sheldon sofre um acidente de carro e é socorrido pela enfermeira Annie, que afirma ser sua fã número um. Ela o leva para sua isolada casa e cuida de sua saúde, mas um dia acaba tendo acesso aos originais do próximo livro do escritor e descobre que sua personagem predileta será morta.

Louca Obsessão é um filme de suspense que varia entre altos e baixos de qualidade. Em certos detalhes, ele acerta com louvor, mas, em outros, ele erra miseryavelmente (perdão pela piada). Considerando esses dois pesos na balança, mais a comparação inevitável que faço com o livro, é difícil dar um veredito quanto a Louca Obsessão.

O início do filme carrega aquela clássica aura de personagens indo do ponto A ao ponto B falando sobre qualquer coisa irrelevante, antes de a verdadeira trama começar. A trilha sonora ajuda nessa atmosfera, até que ela é rompida de modo surpreendente com o acidente de carro.

Certo, não tão surpreendente, já que a neve estava ficando mais intensa conforme o Paul dirigia. Ainda assim, é um começo rápido e, até certo ponto, inesperado. O acidente de carro pareceu pouco plástico para tamanho dano nas pernas do Paul, mas posso ter sido contaminado por carros fazendo coisas espalhafatosas e irreais em filmes.

O período em que o Paul não sabia que estava preso foi bem demarcado. O melhor momento possível para a Annie ser clara era aquele mesmo, após saber sobre a morte da Misery. Era até óbvio, pois sabíamos da morte da Misery e da paixão da Annie pela personagem.

A partir daí, entra um dos problemas de Louca Obsessão: a falta de foco no Paul Sheldon. Parece tudo muito bom e muito fácil para ele durante boa parte do filme. Não vemos a progressão de seu sofrimento psicológico nem a regressão do sofrimento físico, parecendo mudanças bruscas de estado.

Um empecilho para a minha análise é saber como foi feito no livro. Lá era fácil trabalhar de forma mais paulatina tanto a dor do Paul quanto sua recuperação. Não posso exigir de um filme que adapte a excelente metáfora dos mourões e da maré, mas outros marcadores eram necessários para fundamentar o terror psicológico.

A Annie não fez nada ruim para o Paul antes do “acerto de contas”, tirando bater a caixa de papel nas pernas dele. Por outro lado, o livro contém a aterrorizante cena em que ela limpa compulsivamente a parede do quarto e o obriga a beber a água suja da limpeza.

Esse aspecto não é ruim, mas poderia ser melhor. O outro elemento que exigia mais foco no Paul era o lado escritor dele. Parte do terror psicológico, no livro, estava em ele ser obrigado a escrever O Retorno de Misery a partir de um ponto em que era impossível fazê-lo de forma coerente.

O filme apenas o mostra escrevendo, sendo reprovado pela Annie, escrevendo de novo e sendo aprovado. Não há demonstração da dificuldade de se ter uma ideia, de achar uma saída que possa reabrir uma história que fora fechada (sem poder fazer alterações no que já existe).

Parece fácil demais, então não há desafio. Como a Annie não oferece risco, é só questão de tempo até o livro ser terminado e o final chegar.

Os detalhes que tornam o livro muito bom não estão no filme, deixando-o apenas como “ok”. Agora chega de falar sobre o livro.

Foi muito interessante a ideia do Paul de guardar a faca na tipoia e trouxe grande expectativa para o confronto que se seguiria. Então chega a incrível cena do “acerto de contas”. É um grande susto, sem precisar de jumpscare. Annie sabia das peripécias do Paul e pretendia puni-lo.

Ela encontrar o grampo, a faca e reparar no pinguim virado para o lado errado faz sentido e é coerente com o que o filme apresenta. A punição foi, plasticamente, um grande acerto.

Avançando na trama, o plano do Paul para acabar com a Annie e se vingar pelo que ela fez com seu novo manuscrito foi incrível. A luta deles foi emocionante até o fim, mas senti que a forma com que ela se jogou sobre ele, pouco antes do golpe fatal, não pareceu realista. Ela nem tentou dar um mata-leão.

Louca Obsessão acertou muito na perspicácia do Paul nesse plano final e naquele de dopar a Annie usando os remédios que ele deveria tomar para a dor. Eu, como fã de Death Note, apreciei outras perspicácias empregadas pelo roteiro.

O lado do policial na trama foi muito bom. A forma com que ele concluiu que a Annie poderia ter sequestrado o Paul foi muito boa (mesmo sendo forçado a Annie ter dito justamente a frase que o policial gostou no livro).

Por outro lado, a saída da Annie, justificando as evidências encontradas pelo policial antes mesmo dele mencioná-las, foi espetacular.

Ela põe a cabeça para fora, para ver se o policial está indo para outro cômodo, e ele faz o mesmo, para ver se ela o está observando. Ela lhe serve um chocolate, provavelmente batizado, mas ele recusa e vai embora. Até aí estava perfeito, só que…

Se era para ela matar o policial, tinha que ser quando ele estava de costas para a porta da casa dela. Uma vez tendo uma evidência sonora da presença do Paul na casa, era ilógico o policial se aventurar a procurá-lo sem ter um parceiro para cobrir suas costas.

Não é o policial mais burro que já vi na ficção, mas ainda é uma falha do filme. Felizmente, a coragem de matar o herói que há tanto tempo vinha sendo preparado é quase compensadora. Aquilo aumentou a sensação de “fim da linha”.

O final final do filme, com o renomado escritor Paul Sheldon sendo atormentado por visões da Annie, foi satisfatório. Uma pena que Louca Obsessão cometeu o erro infantil de não mostrar como foi que encontraram o prisioneiro.

Mesmo que seja possível imaginar o que houve, cortar essa cena é tirar um pedaço importantíssimo da conclusão da trama. Algo semelhante ocorre no 119 Graus.

Louca Obsessão é um bom filme de suspense que poderia ser muito melhor.

Observação: só resolvi assistir este filme depois de ver um GIF da Annie. Ela parecia tão feliz, bela e radiante que eu precisava conferir se a atriz conseguia transitar bem entre a felicidade que transborda o terror iminente. Não há grandes transições, mas a atriz foi bem.


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