Crítica | As Kicks (1ª Temporada): infantil e medíocre

Ficha técnica no IMDb

Devin é uma exímia jogadora de futebol de 12 anos de idade, nativa do estado de Connecticut. Quando ela está prestes a se tornar capitã do time de sua escola, seus pais decidem mudar a família para a Califórnia. Em sua nova escola, ela descobre que o time local está caindo aos pedaços e sofrendo uma série arrasante de derrotas, e precisa aprender rápido a ser a líder que suas colegas precisam.

Vendo o título desta resenha, certamente alguém vai pensar que eu estou chamando As Kicks de ruim por ser infantil. Na verdade, ser infantil não torna algo ruim, só que As Kicks, em determinados pontos, passa dos limites e vira um Dora, a Aventureira.

Ser infantil é diferente de ser superficial e este é o pior problema de As Kicks. Antes de explorar a parte mais técnica, vamos ao conteúdo da série.

A trama possui vários conflitos interessantes para uma protagonista adolescente. A Devin precisa fazer amigas, lidar com a falta de qualidade da equipe, resolver os problemas mais ou menos extra-campo e ainda vencer as partidas. Esses conflitos são, em teoria, bons, e o final é muito bom. O problema é que há diferença entre teoria e prática, como veremos a seguir.

Uma aspirante a atleta profissional enfrentar o dilema de jogar no time das amigas ou num time de qualidade é pertinente e interessante, mas achar que poderia jogar nas duas equipes, ao mesmo tempo, é uma burrice incompatível com quem já teve a experiência de jogar sério num time. A desavença advinda deste dilema durou pouco, mas elas são jovens, então até faz sentido.

Foi interessante o zelador ser um ex-jogador de futebol. É um sutil jeito de mostrar como o mundo do esporte pode ser injusto. A melhora no desempenho das Kicks pode ser justificada pela experiência dele, então foi uma sábia escolha do roteiro.

Faz parte da vida lidar com amigos que não são lá tão bons em alguma coisa que precisam fazer, mas, se a goleira é ruim, deve ser trocada. A condescendência da Devin é ilógica, vindo de uma atleta tão ligada no competitivo. Para que a ex-goleira continuasse no time, alguém precisou sair. Suponho que a Devin não se importou com isso.

O duelo das meninas com os meninos pelo campo em bom estado foi uma ótima ideia, mas o lance do passe com curva me pareceu forçado. Teve um foreshadowing, mas podiam ter escolhido uma saída menos mirabolante, como a bola bater num morrinho e enganar o goleiro.

Focar na questão das simpatias que as meninas faziam foi bom, mas foi meio forçado todas elas abrirem mão de seus amuletos. A vingança do Bailey foi particularmente satisfatória. Arrisco dizer que ele é o melhor personagem de As Kicks.

O problema com o uniforme é muito válido, afinal, parte essencial da prática esportiva profissional é a manutenção do equipamento. Gostei muito de o Rivas ter encontrado um torneio que teria um prêmio em material esportivo.

A Mirabelle convencer a Devin a quebrar as regras foi muito lógico, dado o desejo da protagonista de ser aceita. Atletas furando a concentração é um conflito bem esportivo, o que me agradou.

Apesar deste acerto e de ser bom vê-las evoluindo seu laço, foi ridículo As Kicks não mostrar a bronca do treinador em ambas e as demais do time irritadas porque as duas melhores jogadoras fizeram-nas serem desclassificadas. Essas omissões temporais são um pecado mortal de As Kicks.

A consequência da desobediência ser o envio da Mirabelle para uma escola mais rígida é excelente, só que é absurdo as colegas dela quererem ajudá-la a ficar depois de ela, insistentemente: não se importar com os treinos, fazer corpo mole para não perder junto com as outras e ser desagradável em todas as oportunidades que lhe surgiam.

Pior ainda foi os pais dela permitirem que ela continuasse na escola apenas porque ela tem boas amigas. Provaram-se uns idiotas. E o que foi aquele ensino de matemática com futebol?

É patético ver As Kicks desenrolar como se fosse um episódio do Telecurso. Faz sentido usar algo que a Mirabelle gosta, mas, em campo, não tem como aprender geometria. A única forma dela aprender seria se ela assistisse à série e visse aquelas linhas toscas e palavras na tela. Não funcionou.

Seguido para um momento mais sério, sendo o Rivas um funcionário da escola e obviamente tendo um passado de maior sucesso financeiro, é compreensível seu desejo por mudar de emprego. O conflito é ótimo, mas a série fez a descoberta ser de um jeito mais fraco do que poderia.

A partir daí, a guerra de pegadinhas foi uma estupidez que não foi punida formalmente. O carma foi a Devin tropeçar e bizarramente torcer o tornozelo, esta a melhor ideia de conflito da série.

A Devin esconder o machucado foi bom e lógico. Gostei muito do jeito que a Mirabelle a ajudou e de como a Emma achou aquilo errado. Apesar disso, precisava mesmo ter aquela cena “eu sou Spartacus”? Ficou de graça.

Também me agradou o treinador deixá-la de fora da partida, mas senti falta de serem mais claros sobre qual era o risco de ela forçar o machucado. Teria um machucado pior? Ficaria mais tempo de molho? O quê?

Essa falta de informação fez o agravamento da lesão, durante a comemoração (algo muito bom), não ter significado para mim. É a season finale, mas eu não sei qual é o grande drama da situação. Claro que um machucado é uma coisa ruim, mas era preciso mais corpo a esse desfecho.

Sabendo que a série foi cancelada, fica apenas como um final mal feito.

O clímax do episódio final também foi um problema. Era possível fazer a Devin ser relevante para a cobrança do pênalti sem que o Rivas agisse de forma incoerente (deixar um jogador machucado entrar em campo apenas para bater o pênalti? Ainda mais sendo o pé bom o machucado? Tem o foreshadowing do treino da canhota, mas não faz sentido o treinador arriscar tudo).

Bastava a Mirabelle dizer que a Devin devia bater, aí esta lhe entregaria a bola e diria: “Você é a melhor do time. Vai lá e faz o gol”. Sela o desenvolvimento da amizade delas e coloca o pé de ambas na vitória. O final não é de todo ruim, mas…

O que me irritou estruturalmente na série é como ela omite e coloca de forma errônea algumas informações, sem utilizá-las no que seriam brilhantes fins de episódio. Mais que isso, até parece que as coisas não têm lá muito peso, dadas as punições. As Kicks invadiram uma escola e nada aconteceu.

Agora, como poderia ter sido o encerramento dos episódios finais:

7: Rivas dá uma tremenda bronca nas mau comportadas e diz que aquele atitude é uma falha grave. Diz que a Mirabelle está suspensa por um jogo e que a Devin está fora do time (válido, afinal, elas fizeram o time ser desclassificado).

8: apesar de as amigas estarem cheias de esperança, a Mirabelle diz que não tem jeito. Ela tem que mudar de escola.

9: Rivas revela que irá para a Pinewood e que, por isso, não pode treinar as meninas para a partida final. Isso significaria que o time perde o treinador, mas ganha a Devin.

A partir daqui, chega uma encruzilhada: o que fazer com a Devin e a lesão? Seria excepcional ela se sentir responsável por trazer a vitória, tomar uma injeção analgésica no tornozelo e jogar normalmente. Aí, depois do jogo, ela descobriria que a lesão se agravou seriamente. O problema dessa possibilidade é que, em se tratando de uma série infantil, é improvável que permitissem uma solução desse tipo. Seria como apoiar o doping.

Certamente, o melhor final não inclui a Devin batendo o pênalti e sendo feliz. No mínimo, a lesão tem que se agravar por causa desse chute. Aí o fim do episódio seria um diagnóstico médico (o que seria bem melhor do que eu não saber por que devia ficar preocupado e ansioso para a próxima temporada).

Sobre outros elementos de As Kicks:

A condução dos laços familiares é boa, em especial pelo Bailey, que admite gostar da Devin abertamente no final. Os desafios da família dela são interessantes e se a série não fosse sobre futebol, mas sobre a família deles, provavelmente eu gostaria mais.

O que foi a cena do “mostra o seu quarto para ela”? Tudo bem que a série é infantil, mas não dá para fingir que pais responsáveis permitiriam/incentivariam um garoto de uns 12 anos a levar uma garota visivelmente bem mais nova para ficar com ele no quarto dele.

Nunca mais ela apareceu e, do nada, surgiu um novo amigo do Bailey. Essa falta de carinho de As Kicks pela boa fluidez da trama me faz pensar que a Amazon fez essa série de má vontade. Isso justificaria o cancelamento, apesar da boa nota no IMDb.

E por falar em idade, a Devin com certeza não tem 12 anos. No mínimo tem 14.

Mais um personagem terciário que acabou deixado de lado na série foi o aparente par romântico da Devin. O garoto começou com alguma relevância, mas depois não foi usado para nada.

Um aspecto da série que eu detestei foi a existência da Mirabelle. Detesto esse estereótipo da garota má amiga da garota boazinha. Desgosto fortemente da Sam, de iCarly, por ela ser exatamente o que a Mirabelle é: uma pessoa que pisa nos amigos, mas que continua lá como se estivesse tudo bem. No fim, o desenvolvimento da amizade delas foi merecido.

Quanto às partidas de futebol, não ficaram devendo nada em qualidade.

As Kicks é uma série meia boca, com pontos fortes e fracos. Certamente, se prosseguisse, evoluiria muito de qualidade, talvez com o retorno da desaparecida antiga treinadora.

Observação: ei, Amazon, será que não dá para fazer Bailey, o Artista?


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