Crítica | A Moça da Limpeza (2018): isso é tão estranho

Ficha técnica no IMDb

Uma mulher se torna amiga de uma faxineira desfigurada por queimaduras. Logo ela descobre, da pior maneira possível, que as cicatrizes escondem algo assustador.

Em meio a tantos filmes ruins que tenho assistido, este é bom. Surpreendentemente bom. A Moça da Limpeza é uma história que mescla terror e suspense, combinando boas sacadas de enredo com dois fluxos narrativos, o presente e o flashback, fora a cena inicial.

Comecemos pelo começo. Em geral, filmes de terror contém uma cena inicial inútil, ou quase inútil, que, basicamente, serve para introduzir o conceito aterrorizante que será explorado ao longo do filme. Aqui, o início é uma cena assustadora de ratos sendo batidos no liquidificador.

A princípio pensei que fosse um erro do diretor, pois, ou a cena adiantaria algo, o enfraquecendo, ou não teria utilidade. Ledo engano. Os ratos são essenciais para compreender o desfecho da narrativa via flashback.

E, estruturalmente, A Moça da Limpeza é bem feito. No transcorrer do longa, considerei o flashback um erro, já que a mera origem do distúrbio da vilã não era justificativa boa o suficiente para a troca de foco narrativo. Ao final, a cena de abertura, o flashback e o presente foram amarrados de maneira brilhante.

Os conflitos dos personagens mais importantes vão se desenrolando e afunilando, até o excelente momento em que a Shelly apaga a Alice e chama o Michael, o qual é seguido pela Helen.

A magia está no quão lógica é essa situação. Shelly frequentava rotineiramente a casa da Alice e entrou lá algumas vezes sem ser percebida; Alice, uma viciada em amor, era amante do Michael e, após um tempo o evitando, eles estavam se vendo novamente; Michael era rico, casado e tinha medo de perder metade do que tinha no divórcio; Helen desconfiava há tempos de atitudes estranhas do marido.

Nada disso é excepcional, mas a condução é coerente, o que fortalece muito o terço final de A Moça da Limpeza.

O laço da protagonista com a vilã pode parecer forçado, rápido demais, mas há algumas desculpas interessantes para tal. Na primeira ficada até mais tarde, a Alice queria a companhia da Shelly porque sabia que sozinha não resistiria ao Michael (fato comprovado pela forma fácil como eles voltaram a se ver). A partir daí, é claro que houve um exercício de caridade.

A Shelly é uma moça da limpeza, tem o rosto queimado e tem dificuldade com interações sociais. Ela chama caridade, apesar do outro lado.

O título desta resenha é “isso é tão estranho” porque essa era a frase que me vinha à mente sempre que acontecia uma das desconfortáveis conversas da Shelly com a Alice. Outro bom adjetivo seria “constrangedor”. Ela é estranha o suficiente para ser ilógico a Alice continuar agindo normalmente com ela? Quase. E deixo esse “quase” de lambuja para A Moça da Limpeza.

Duas esquisitices se destacavam entre os aspectos da Shelly: ela morava no meio do nada e mantinha uma pessoa em cativeiro, indo até ela apenas para a refeição. Quem era essa pessoa? Vamos ao flashback.

O passado traumático da Shelly consiste em sua mãe tê-la tornado prostituta. Não havia escolha e em duas vezes nas quais Shelly se rebelou, houve consequências: na primeira, o cliente atacado queimou seu rosto, na segunda, sua mãe ameaçou cortar-lhe a língua.

Esta justificativa para o comportamento da Shelly não quer dizer nada, tematicamente falando, mas fortalece a narrativa à medida que converge três linhas narrativas em uma revelação aterradora e, até certo ponto, satisfatória.

Outro elemento do flashback é o gosto da Shelly por brincar de boneca. Várias vezes ela ajeita a boneca e observa do lado de fora da casa.

No decorrer da cena final, eu entendi o que estava acontecendo e torci muito para que o filme acabasse sem se estender mais. Felizmente, A Moça da Limpeza terminou bem. Diria eu que muito bem.

A Moça da Limpeza é um filme bom. Não está na prateleira de cima, mas é astuto, responsável, coerente e mais do que satisfatório.

Minhas críticas são assumidamente com spoilers, mas prefiro evitar entrar em muitos detalhes para não estragar a experiência de quem só quer ter certeza de que o filme vale a pena.


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3 comentários

  1. Não entendi o final com Alice sendo presa por Shelly. É pelo gosto dela de brincar de boneca? Não se faz de total compreensão só isso de explicação.

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