Crítica | A Fera (2011): arco de personagem nulo

Você é tão atraente por fora quanto por dentro

Ficha técnica no IMDb

A história se passa em Manhattan, e a ‘Fera’ será um lindo e rico rapaz, com um pequeno desvio de caráter. Ao terminar seu relacionamento com uma garota de uma forma bem má, ela, que é uma bruxa, o amaldiçoa, fazendo com que ele se transforme em tudo o que mais odeia. A modificação grotesca em sua aparência faz com que ele comece uma caça ao amor verdadeiro, o único sentimento que pode acabar com essa terrível maldição.

A Fera é um filme que mistura drama, romance e fantasia. A fantasia é interessante, o drama é pesado e o romance é ruim. De um filme com essa premissa espera-se que haja um desenvolvimento do protagonista desde o momento em que ele é um idiota até o momento em que ele se torna uma boa pessoa. O problema central deste filme é que Kyle não evolui enquanto ser humano. Antes de tocar neste ponto chave, falemos do filme em ordem cronológica.

O início mostrando o protagonista e outdoors com “corpos perfeitos” é muito inteligente ao criar um ambiente de superficialidade, fato brilhantemente reforçado pelo pai que não presta atenção no protagonista. É uma pertinente construção nas entrelinhas de como funciona a mente do Kyle. Gostei tanto dessa abertura que fiquei empolgado com A Fera.

O momento em que o Kyle faz a Lindy se derreter e humilha a bruxa é bem eficaz em demonstrar o que ele perderia com a nova aparência. Também é pertinente o desejo da bruxa por vingança e preciso dizer que o rosto dele ficou assustador. Toda vez que eu o via me arrepiava. Terrível. Nesse momento dá para sentir o sofrimento do protagonista. Até a forma de quebrar a maldição é válida, já que é automático supor que o amor só será conquistado através da mudança interior.

A medida do pai do Kyle de confiná-lo em uma casa com a empregada e o professor cego é lógica e encaixa bem na necessidade da Lindy de ser protegida. Tendo os dois primeiros como suas únicas companhias, claro que ele é forçado a aceitá-los, bem como confrontar a realidade sobre sua namorada estar com outro. Todavia, ele está em transição, não mudou de fato, pois apenas se tornou um stalker da Lindy.

E o coração de A Fera é o período que a Lindy passa dentro da casa com o Kyle. Aqui está o grande problema. Do começo ao fim de sua estadia, ele faz de tudo para agradá-la. Começa dando bolsa, dá brinco, constrói uma estufa e escreve cartas para ela. O ponto é que, desde o primeiro presente até o último, ele está sendo materialista.

Não há diferença entre o Kyle que convidou a bruxa para a festa e o Kyle que disse amar a Lindy. Ele sempre esteve apenas interessado em conquistá-la para desfazer o feitiço e em momento algum houve um trabalho roteirístico para demonstrar que ele se tornou uma pessoa melhor.

O que existe é um conjunto de conveniências. Como aqueles personagens estão confinados juntos, é natural que o Kyle acabe ficando mais maleável com eles e é perfeitamente cabível que a Lindy passe a gostar dele. Justamente por isso o desfecho desses laços não convence, pois eu não compro a mudança interior do protagonista.

No final, a separação do iminente casal não teve nenhum sentido. Tudo indicava que a Lindy estava gostando dele, então aquele “você é um ótimo amigo” soou forçado. Se este era o caso, por que ela escolheu ignorar o pai e permanecer na casa? Mais forçado que isso foi o Kyle não retornar as ligações dela, sendo que os sentimentos dela eram a chave para quebrar o feitiço. Será que ele não se importava mais com a própria aparência? Duvido, já que nada no filme indica isso.

Sobre o final final, tenho um elogio e três críticas:

A moça descobrir que o bonitão é o feio pelo toque do celular foi bem legal.

Por que ela desistiu da viagem para Machu Pichu?

O que foi aquela cena do visto permanente? Desde quando aquela era uma questão? E o cego voltou a enxergar? O quê?

Para finalizar A Fera com chave de “hã?”, a bruxa trabalhar para o pai do protagonista não significa nada.

A Fera é um filme em que o protagonista não evolui. Nem sempre isso é um erro, mas, considerando sua premissa, no caso deste filme, a nulidade do arco de personagem do Kyle é um erro gravíssimo. Só para sintetizar meu ponto: quem quer assistir A Fera o quer para ver uma pessoa transformando o seu interior, mas o filme não entrega isso e por este motivo é ruim.

Um comentário

  1. Achei super legalzinho o filme, mas não tenho argumentos contra os seus, nem sou escritora, apenas gosto de filmes clichezinhos.

    Curtido por 1 pessoa

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