Crítica | Little Miss Perfect (2016): ciclo autodestrutivo

Ficha técnica no IMDb

Little Miss Perfect é um filme dramático centrado em uma adolescente que deseja a perfeição e que vai vendo o que é mais importante para ela ruir. Seu ritmo encaixa muito bem no drama, pois eu me senti conduzido suavemente por entre os dias de vida da Belle. O enredo flui muito bem.

A ambição pela perfeição é cabível para a Belle, uma vez que ela é presidente de turma e possui um pai super ligado ao trabalho. Provavelmente sua ambição foi sendo reforçada conforme tentava mais e mais deixar seu pai orgulhoso.

Claro que, ocupado com o trabalho, ele pouco dava atenção para ela. Além de não prestar atenção no que dizia, foi negligente, deixando Belle sozinha em casa e sem perceber o que ela estava fazendo. Uma das pessoas culpadas por aquela situação é o pai da Belle.

Ele foi um catalisador para os problemas da protagonista, mas outra pessoa foi o estopim: a mãe irresponsável que de uma hora para a outra sumiu e sequer se comunicou com a filha. A ausência do afeto dos pais criou um vazio em Belle, um vazio que precisava ser preenchido.

Ela então começou a se agarrar naquilo do que dispunha. O rapaz que ela não ligava se tornou seu namorado e ela assimilou a beleza da magreza, do emagrecimento. Como a ausência era do amor paternal e maternal, ela nunca se sentia satisfeita.

Muito pelo contrário, na busca por eliminar o vazio, suas ações começaram a prejudicar as próprias esferas de sua vida que ela estimava, como o namoro e o desempenho escolar. A dor pelo mundo abalado reforçava o vazio e Belle sentia mais necessidade de abraçar o único conforto que lhe restava. Estava feito o ciclo autodestrutivo.

Provavelmente, Belle só interrompeu o ciclo quando descobriu a verdade sobre Ally. Um plot twist que eu não esperava, por não me parecer relevante saber quem enviava as mensagens, e que me chocou.

Lyla, mesmo sendo amiga da Belle, continuamente a incentivou a se destruir. Ela via o transtorno em ação, mas, ao invés de parar, deu forças a ele, como na cena em que joga a comida fora (uma pista bem forte).

Se Lyla foi capaz de tal coisa, o que ela não fazia com as anônimas com as quais conversava? Quantas vidas a alma corrompida da Lyla não destruiu? Eu mal posso expressar em palavras o ódio que senti por ela. No final, ela diz que não pensava que alguém iria tão longe, mas, se convivia com a Belle, podia monitorar seu estado o tempo todo. Ela sabia o que estava acontecendo.

Mas não só de pessoas ruins é feita a vida da Belle. O professor Davy tentou ajudá-la desde o começo, pois percebeu que havia algo de errado. Bem, talvez ele tivesse interesses mais amplos por detrás de sua preocupação, como o desejo por uma aluna perfeita ou, como sugerido por Gus, o desejo pela Belle. Little Miss Perfect não dá subsídios para concluir se Davy queria ser professor, pai ou namorar a Belle.

O final de Little Miss Perfect não é uma grande conclusão. Podemos interpretar que a Belle passou a lidar melhor com o sumiço da mãe e que seu pai se tornou mais responsável, mas fica tudo no campo da projeção. Nós vimos o meio do amadurecimento da Belle, não o fim.

O enredo de Little Miss Perfect é muito bom, bem executado e delimitado, o que o torna um filme da prateleira de cima. Entre os aspectos técnicos, destaco a inserção da interação com a rede social, a qual foi bem feita e progrediu inteligentemente.

O único ponto negativo que vejo no filme é a ocorrência de aparições meio fantasmagóricas. Entendo que pode ser uma indicação de que a mãe anoréxica atormenta a Belle, mas não combina com o clima do filme.

Little Miss Perfect é um filme muito bom e recomendável, mas gostaria de ressaltar a semelhança de uma reflexão trazida por ele com o filme Suicide Room. Ambos carregam a mesma ideia de uma pessoa que espalha sentimentos e práticas negativas por brincadeira sem se importar com o impacto que isso tem nas outras pessoas. Tomem cuidado com isso.

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