Crítica | Turma da Mônica — Laços (2019): o valor da amizade

Só precisa de amigos quem não acredita que pode fazer tudo sozinho

Ficha técnica no IMDb

O Floquinho desaparece. Para encontrar seu cachorro de estimação, Cebolinha conta com os amigos Cascão, Mônica e Magali e, claro, um plano infalível.

Turma da Mônica: Laços é uma história sobre amizade e seus quatro personagens principais possuem um momento de virada, uma espécie de renúncia que explicita a natureza de seu “laço”. Embora a grandeza maior do filme esteja em seu roteiro, há muita qualidade em seus pormenores.

Amarelo é a palavra-chave no que diz respeito à cor do filme. Mais forte nos momentos tranquilos, mais vacilante nos momentos de angústia e sempre presente. Em dado ponto do filme me perguntei se era pôr-do-sol o tempo todo, devido ao tom de amarelo.

Os dez minutos iniciais de Laços são como uma mensagem para o espectador, uma prova de que Turma da Mônica: Laços é uma obra consciente do conteúdo e, principalmente, da natureza de seu material original (com original quero dizer os quadrinhos, não a graphic novel Laços, a qual não estou considerando nesta resenha).

A caracterização dos personagens é boa, sendo que o essencial não é a aparência, mas o comportamento. O que torna a Magali um personagem adaptado com perfeição é a quantidade de momentos em que ela compra comida ou surge alguma piada neste sentido, como quando ela esvazia a reserva de comida do grupo ou quando morde a bússola (que é parecida com uma rosquinha) e a quebra. Estes dois exemplos também servem para demonstrar outra coisa, Turma da Mônica: Laços tem jeito de quadrinhos, tanto nas piadas quanto no enredo, sem suavizar demais a trama.

No início do filme há uma cena que parece ser apenas uma piada simples e funcional com calvície, mas ela se liga ao grande inimigo da trama: um homem que rouba cães e os vende para uma empresa que os utiliza para desenvolver produtos como o Cabelol. Um vilão entendível e coerente. O enfrentamento a ele também não se perde nas “burrices” que facilmente transformam filmes infantis em esquetes de baixo orçamento, ainda que seja preciso certa boa vontade para aceitar o desenrolar dos planos de Cebolinha.

Sempre gostei das histórias do Cebolinha e de sua interação com o Louco, o qual nunca vi interagir com outros personagens (isto na Turma da Mônica clássica). A cena de ambos na floresta mostra como o filme é todo do Cebolinha e o cuidado da direção em transpor “manias” que parecem funcionar bem apenas em quadrinhos. A frase subtítulo desta resenha foi dita pelo Louco e funciona como uma síntese do arco de personagem do Cebolinha em Laços, o que reforça a qualidade da aparição do Louco muito além de um (excelente) fan service.

Agora vamos aos momentos de virada dos protagonistas. Durante o plano final para resgatar Floquinho, Magali vê uma melancia e não a come. Isto tem peso devido à forma com que o filme construiu a Magali como uma esfomeada, incluindo cenas com melancia. Similarmente, Cascão enfrenta seu pavor de água, o mesmo pavor que outrora forçara o grupo a mudar de rota em sua trilha até a casa do homem do saco. Estes são bons, mas o ponto de virada da Mônica é mais profundo.

Deixando um pouco de lado a decisão por permitir que o Sansão fosse usado como isca, na floresta, a divergência quanto a qual lado seguir gerou atrito até o ponto em que o Cebolinha ofendeu a Mônica. Ele sempre o fazia e ela o perseguia com o coelho, mas, naquelas ocasiões, era brincadeira. Quando a Mônica vira as costas para o Cebolinha e se cala, é porque ele a magoou de verdade. Cebolinha provavelmente sabia disso, afinal, ele a ofendia normalmente para incomodá-la, e, na floresta, foi apenas raiva e instabilidade emocional.

Lamentavelmente, embora o Cebolinha seja o personagem principal de Turma da Mônica: Laços, o roteiro do filme falhou no estabelecimento de seu ponto de virada. É claro que o ato de abrir mão da liderança seria a atitude drástica ideal, no entanto, Cebolinha não fracassou em seu plano de resgate. Para alguém tão arrogante e inteligente quanto ele, abandonar o orgulho recém-saído de uma situação séria que ele não superou com seu plano montado egoisticamente por mero detalhe (Cascão não encontrar a chave certa antes do homem do saco chegar e o próprio Cebolinha decidir resgatar os demais cachorros) não tem o peso que deveria ter.

O final de Laços é tocante (com uma adequada pitada de romance) e o que fica é uma sensação de querer ver mais desse mundo e desses personagens.

Turma da Mônica: Laços é um filme galgado no arco de personagem do Cebolinha, que consiste na transição entre o arrogante tóxico e o amigo verdadeiro. Devido à finalização fraca de tal arco, Laços é muito bom, mas poderia ser excelente.


Observação: adicione uns sustos baratos, um palhaço tosco de computação gráfica e Turma da Mônica: Laços vira It: A Coisa.

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