Crítica | Liga da Justiça — Snyder Cut: bom, porém interminável

Ficha técnica no IMDb

Desde que Liga da Justiça foi lançado, boa parte das críticas a ele empregadas mencionam, ainda que indiretamente, o desvirtuamento dos planos que Zack Snyder tinha para os heróis. A força da expectativa se aliou à esperança de saber que Snyder já tinha gravado grande parte do filme antes de deixar a direção e, desta forma, nasceu uma campanha que pedia o lançamento do corte de Zack Snyder, o Snyder Cut.

Sempre tive curiosidade de saber como seria esse filme, pois gostei muito, mas muito mesmo, da versão do diretor Joss Whedon, tão massacrada pelo público. Eu imaginava que o Snyder Cut teria problemas típicos do Snyder, e o filme de fato os têm, mas também possui seus acertos.

Estrutura narrativa

O Snyder Cut não é um filme, ele é um compilado de tudo o que Zack Snyder conseguiu enfiar nas 4 horas de duração do (muito) longa-metragem. Assim como ocorre com Vingadores: Ultimato, Snyder Cut é a mistura de alguns filmes.

Já que Snyder teve a ideia ruim de apresentar os personagens da Liga da Justiça no filme da Liga da Justiça, ele precisou gastar muito tempo com suas vidas. O problema é que não dá para ver 10 minutos de Aquaman no filme da Liga sem que eu tenha conhecido o personagem anteriormente. Pode até ser legal, mas não me importa.

Snyder, basicamente, foi costurando uma série de videoclipes com estética de videogame. É o clipe da guerra do passado, o clipe do Ciborgue, o clipe do Aquaman, o clipe da primeira aparição da Mulher Maravilha e por aí vai.

Uma parte muito considerável do Snyder Cut acaba sendo enfadonha por explorar demasiadamente tais videoclipes. Só não considero essa duração um grande problema porque ela fortalece os principais personagens do filme: Ciborgue e Flash.

Esse excesso de tempo e de personagens torna o Snyder Cut uma tremenda bagunça, o que o faz falhar enquanto filme. A única forma de ele se tornar um filme de verdade é sendo enxugado e editado para caber no tamanho de um filme sem prejudicar a execução da ideia ruim do Snyder de apresentar Ciborgue, Flash e Aquaman no mesmo filme. Sabe qual é o resultado desse processo? O Liga da Justiça do Joss Whedon.

Zack Snyder claramente tentou cavar umas continuações para seu universo cinematográfico. O filme tem uma cena final com monólogo esperançoso, outra cena final com um gancho para um filme do Batman e até um da Liga, outra cena final com um gancho para a continuação direta do conflito deste filme e mais uma cena final, com gancho para um filme sobre o futuro.

Com esse tanto de ideia condensada, fica difícil defender o Snyder Cut enquanto obra completa. Ele é mesmo destinado aos fãs, com um campo de abrangência de público muito, mas muito limitado. Antes de 2h de filme eu já tinha pensado em dar uma pausa para dormir várias vezes.

Estrutura temática

O benefício da longa duração do filme é que valoriza muito bem a relação entre os personagens. É ótimo ver os heróis conversando sobre coisas da vida enquanto desenterram o Superman. Por isso, o Snyder Cut deixa de ser um porre quando os personagens da Liga da Justiça ficam juntos.

A Mulher Maravilha não tem nenhuma evolução; o Aquaman tem um lampejo, mas nada claro; o Batman explora seu desejo por deixar um legado, o que nada acrescenta ao personagem que vimos no fim do Batman vs Superman, mas um ponto nele é interessante. Batman demonstra um apego a fé, o que rima com a perda de esperança que levou o Batman a matar criminosos. Isso prova que ele evoluiu enquanto pessoa. Muito bom. Os outros são mais dignos de nota.

O Flash não tem bem um arco de personagem, mas o Snyder Cut vai plantando aspectos nos poderes dele importantes para o final. O Flash diz que quando corre próximo à velocidade da luz coisas estranhas acontecem com o tempo, o tempo regride quando ele vai tocar na Caixa Materna e já sabemos de sua viagem ao passado para avisar o Batman, então faz total sentido quando ele salva o mundo através de sua habilidade de regressão temporal. Além disso, os efeitos dos poderes e o jeito que ele interage com o mundo enquanto está na Força de Aceleração é bem legal.

O Ciborgue tem todo um arco dramático envolvendo a negação de quem ele se tornou e o laço com o pai. Gradativamente, ele vai aceitando mais e mais quem se tornou, até o ponto em que resiste à tentação da Caixa Materna de uma vida normal. Esse é um amadurecimento muito bom.

Em certo ponto do filme, o Ciborgue quebra o gravador do pai antes de ouvir a parte gravada sobre a relação sentimental deles. Esse é o fim do laço entre eles. Quando, no final, o Ciborgue refaz o gravador e ouve o resto da mensagem, além da reconexão com o pai, há uma rima com a explicação de que a Caixa Materna destrói e reconstrói. A analogia feita com uma casa que é incendiada por um fósforo foi incrível e permitiu uma transição ótima entre a explicação do passado do Ciborgue e a conclusão de que a Caixa era o meio para reviver o Superman.

E por falar nele, o Superman do Snyder não se tornou o Superman esperançoso do Whedon, em especial por observarmos que ele não salvou pessoas na sequência final, como o fez no Liga da Justiça.

Embora não tenha sido conclusivo, Snyder, neste filme, esboçou pela primeira vez um desenvolvimento concreto no Kal-El: conforme lentamente ia se lembrando de sua vida, ele ia amadurecendo e refletindo. Quando ele anda na nave e passa pelos uniformes, refletindo sobre o que disseram seus pais biológico e adotivo, está no caminho para concluir quem ele é e o que quer ser.

Infelizmente, Snyder não indicou se o Superman incorporou um espírito esperançoso, então ficamos no meio do caminho do desenvolvimento. Em sua terceira oportunidade, com liberdade criativa, Zack Snyder falhou em construir bem um Superman.

Parte técnica

Gostei do visual “armadura mutante” do Lobo da Estepe, mas a computação gráfica do Snyder Cut é complicada. Algumas cenas do Darkside me deram nos nervos e os personagens parecem muito bonecos de borracha, especialmente na cena inicial da Mulher Maravilha, em que ela joga brutalmente os bandidos na parede e surge no máximo uma manchinha de sangue. Artificial.

Muitas cenas do filme possuem estética de videoclipe. É bem bonito, mas parece videogame. É tão artificial que, em certa cena de sangue, a qualidade é digna de um jogo de Playstation 2.

A trilha sonora também me incomodou. Entendo a intenção de construir uma atmosfera mais densa, tal qual a excelente abertura de Liga da Justiça (com a música Everybody Knows), mas ficou demorado e exagerado, ao ponto de me desconectar do filme. Detestei isso.

Conclusão

O Snyder Cut erra exatamente naquilo que mais prejudicou Joss Whedon: a necessidade de apresentar três personagens importantes já no filme em que eles se tornam importantes. Isso é culpa do mau planejamento do Zack Snyder, pois também ocorreu em Batman vs Superman.

Sua longa duração e demora exagerada em várias cenas caminha para torná-lo um filme chato. Não é algo que eu assistiria mais do que uma vez.

A parte boa é realmente boa, com o Superman, o Batman, o Flash e o Ciborgue (especialmente os dois últimos), além de boas cenas de ação e uma condução de enredo que leva ao medo e ao desespero ante o fracasso.

Infelizmente, os pontos negativos contrabalanceiam os positivos e a cereja do bolo é que Snyder fez a guerra do passado ser contra o Darkside, não contra o Lobo da Estepe, retirando do vilão um dos aspectos que mais o tornavam bom.

Snyder Cut foi a última chance de Zack Snyder mostrar seu trabalho. Se considerar a qualidade da obra enquanto filme, podemos esquecer a possibilidade de Snyder fazer mais filmes de herói.

Observação: a caixa materna desintegrou a Terra? É épica a cena do Flash, mas eu realmente não entendi o que houve.

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