Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 43: O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda é, sem dúvida, o volume de Turma da Mônica Jovem mais criticado pelos fãs, ao lado de O Cecê do DC. Eu já ouvi falar horrores sobre esta história, mas a verdade é que os fãs precisam ver o outro lado da moeda.

Parte técnica

O traço do vol. 43 não é uma constante. Às vezes ele está bom, às vezes está ruim e muitas vezes mostram o cabelo do Cebola. Parece que só engrossaram os cinco fios e o resultado final é, em geral, muito tosco. Em alguns quadros surgem mais traços, mas nada que se compare à majestosa juba cebolácia da capa.

Falando na capa, detesto a claridade da paleta de cores. A intenção é parecer que eles estão no céu, mas acaba saindo uma agressão gratuita aos olhos do leitor. O Cascão está de moicano na capa, mas não no volume (?), a expressão da Maria Mello é estranhamente desconexa do sentimento expresso pelos demais personagens e o braço/mão do médico está com uma proporção horrorosa.

Além de, muitas vezes, o traço ser artificial, os diálogos também são. O melhor exemplo disso é o quadro em que a Mônica vê a Maria Mello desmaiada depois de correr até o local onde, segundo a Magali, alguém fora atropelado, abre os braços espalhafatosamente e diz: “O que aconteceu com ela?”.

Por mais que a cena fosse pesada, não consegui sentir o drama por conta da fala ruim e da pose exagerada da Mônica. O tempo todo essa fraqueza técnica joga contra O Outro Lado da Moeda.

Antes do médico

O vol. 43 apresenta três problemas emocionais antes de o médico aparecer. A ideia é que saibamos o que aflige os personagens e tenhamos a perspectiva de que o olhar deles é unifocal, o que justificaria o uso da expressão “ver o outro lado da moeda”.

Como o roteirista quis, o Cebola ficou burro e, para não reprovar, precisou implorar para que a Cascuda o deixasse colar. Detestei essa distorção da natureza cebolácia porque ela vai contra a principal característica do personagem e nos leva ao momento surreal em que o Cascão se oferece para ajudar o Cebola com os estudos. Foi também revoltante ver o Cebola menosprezar o problema que arranjou para a Cascuda por conta de sua imensa burrice.

A Maria Mello atravessou a rua sem olhar para os lados e foi atropelada por um taxista. O filho dele vai visitá-la e a presenteia com flores, as quais ela descarta, cheia de raiva. A cena é bem impactante e coerente, tanto a raiva da Maria Mello (errada, mas coerente) quanto a tristeza por ver o desprezo dela para com o presente do rapaz.

A Mônica, sem uma causa externa aparente, demonstra estar com depressão. É pesado e legal de ver na Turma da Mônica Jovem, pois é um problema recorrente e pode levar a bons ensinamentos que não estejam em forma de cartilha, como a busca por ajuda profissional. O duro é ver a Magali sugerir que a perna quebrada da Maria Mello é que é um problema real, não a tristeza sem motivo da Mônica.

Versões alternativas

Depois que o médico surge, ele leva os personagens problemáticos e a Magali para verem versões alternativas da vida deles, uma ideia legal que me lembro de ter sido muito bem usada numa história do Cebolinha chamada “Como você seria se você não fosse você”.

O possível futuro de um Cebola entregue à raiva é pesado, especialmente pela sugestão clara de que ele pretendia bater na Cascuda. Até onde ele iria em decorrência do mero rancor? Levando em conta a ambientação de briga de gangue, suponho que iria bem longe.

No caso da Maria Mello, era óbvio que seu outro lado seria ter morrido no acidente. Embora a sacada seja boa, me incomodou o fato de ela não ter se visto ser atropelada e mesmo assim ter concluído que a culpa fora dela mesma.

A diferença vem quando a visão é da Mônica. Os outros viram o desdobramento de problemas vistos no próprio vol. 43, mas a Mônica vê algo recorrente na Turma da Mônica Jovem: seu temperamento forte causando atrito. A questão é muito relevante, mas não segue o padrão que fora seguido pelos demais personagens. Não é ruim, mas parece ser um vacilo do roteirista.

As três versões alternativas são boas e têm peso dramático consistente.

O outro lado

O médico providenciou o choque de realidade para mostrar aos personagens que a vida deles poderia ser pior do que é, que é possível olhar a vida por mais de um ângulo, e essa é uma mensagem linda. Quantas pessoas não se engessam e travam diante de muros que julgam ser intransponíveis apenas por ignorarem que podem dar a volta?

A crítica ao Cebola e à Maria Mello é necessária, mas o médico interagiu com a Magali numa atmosfera de descontrole alimentar, o que não bate com a personalidade jovem da Magali, afinal, ela cresceu, está diferente e não é o saco sem fundo que era quando criança.

O problema central de O Outro Lado da Moeda é a forma com que o médico coloca a tristeza da Mônica no mesmo balaio que o problema dos outros personagens e a reduz a uma simples burrice de adolescente que não valoriza o que tem. E é por isso que a fanbase odiou tanto este volume.

A falta de cuidado da roteirista Alice Takeda com este aspecto tão delicado inserido na Mônica colocou a perder, para o público, toda a linda mensagem que Deus tentou passar em O Outro Lado da Moeda.

A meu ver, a mensagem não se perde e acaba compensando a falta de qualidade dos demais aspectos do vol. 43, colocando-o acima de vários de seus pares (como os volumes 45, 47 e 49).

O Outro Lado da Moeda não é uma história muito boa, mas ela tem uma boa ideia e isso me faz respeitá-la.

3 comentários

  1. Eu não consigo ver o outro lado da moeda desse volume LOL

    Tipo, a ideia de colocar um “Deus” no meio daquilo tudo foi tão tosca, mas tão tosca. É fácil falar pra todo mundo que os problemas deles não são nada, quando não é você que quebrou a perna e perdeu oportunidades de carreira, nem está triste sem motivo/depressão. A Maria Mello precisava de um tempo pra se recuperar e não um palestrinha dando lição de moral.

    Curtido por 1 pessoa

    1. A inserção de Deus foi precipitada, considerando que os seres angelicais quase não aparecem.

      O médico deu lição de moral depois de fazer o mais importante, e o que fez melhor, mostrar o outro lado da moeda. Ele mostrou para a Mônica o fim que lhe traria seu temperamento, mostrou ao Cebola o resultado de seu orgulho explosivo e mostrou à Maria Mello que um atropelamento poderia matá-la, o que seria pior que a perna quebrada.

      Estes exemplos estão corretos e acertaram na mosca. O didatismo da explicação final pode até ser ruim, mas não é diferente do que Turma da Mônica Jovem costuma ser.

      Só houve dois grandes problemas com o médico: ele aconselhar a Magali como se ela não cuidasse da alimentação e tratar a depressão da Mônica como se fosse tão “controlável” quanto o problema dos demais.

      Sim, o vol. 43 tem problemas, principalmente na arte e na artificialidade dos diálogos, mas reforço que ele faz melhor que vários volumes porque tem uma boa ideia e evolui os personagens, diferente de certas tranqueiras que eu já resenhei, como os volumes 45, 47 e 49.

      O que eu li da segunda fase da TMJ é tão ruim e sem vida que eu valorizo os volumes que ao menos tentam ser relevantes, como o 37, o 46 e, sim, o 43.

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