Crítica | A Sala (2019): parece bom, mas só parece

Ficha técnica no IMDb

A Sala começa instigante, mas, conforme o filme progride, o enredo vai desandando.

Matt e Kate compram uma casa isolada. Enquanto se deslocam, eles descobrem uma estranha sala que lhes garante um número ilimitado de desejos materiais. Mas, como Kate teve dois abortos espontâneos, o que mais sente falta é uma criança.

A premissa é extremamente interessante e a ideia de “cuidado com o que deseja” já fora explorada bem pelo O Mestre dos Desejos (1997) e pelo excelente 7 Desejos (2017), mas, com uma diferença crucial: o ponto de virada da trama é o uso de palavras que podem ser interpretadas diferente do que se pensa, criando uma realidade quase acidental.

Destaco isto porque a ideia de que Kate pediu um bebê e se dispôs a cuidar dele é surreal. Tão surreal que quebra a suspensão de descrença. O lógico seria pedir para que o quarto a permitisse engravidar. O pior é que tanto ela quanto Matt não percebem a óbvia bizarrice de achar que está tudo bem criar um ser humano que fora gerado magicamente por um quarto místico.

A coisa piora quando se soma o bebê ao fato de que o que é gerado pelo quarto envelhece rapidamente fora da casa. Não faz sentido se dispor a criar o garoto a vida inteira deixando-o preso em casa, ainda mais levando em conta que existiam outras possibilidades. Para ter uma criança, Kate poderia adotar. Não é como se o ser que o quarto lhe dera fosse sangue de seu sangue.

O ponto é que o problema era claro, inevitável e injustificável de se manter, além de ser rápido de resolver. Bastava Matt ir ao quarto e desejar que o garoto desaparecesse. O conflito do filme é raso e a própria virada do rapaz enquanto vilão também não foi trabalhada com qualidade. É afobado, fraco e o pior, não é intrínseco à natureza do “quarto dos desejos”, sendo mera casualidade emocional.

É evidente que, se o filme quisesse explicar demais o funcionamento do quarto, eu o criticaria fortemente, no entanto, ter um atrito tão independente da mitologia daquele mundo faz A Sala vender uma ideia e entregar outra. A maior ligação entre a mitologia e o clímax se dá com os “substitutos” (eu gostaria de saber como foi exatamente que Matt e Kate fizeram esse pedido), mas o uso do desejo dessa forma não foi preparado. Vale destacar que em momento algum o roteiro explora os limites criativos do quarto, além da ótima ideia de fazer o mundo real envelhecer rapidamente o que o quarto cria.

O final dá a entender que Kate está grávida do “filho do quarto”. Tirando o fato de ser o resultado de um estupro, essa gravidez não parece ser algo perigoso, já que Kate está fora do quarto há tempo o suficiente para o feto envelhecer e morrer algumas milhões de vezes. É interessante, mas não passa disso.

A Sala criou pontes que, se usadas, constituiriam um filme bem melhor do que foi: a casa funciona como um vício, uma mãe eterna que te alimenta e te permite fazer o que quiser (talvez até ser imortal), desde que não saia dela; viver naquele lugar tem como único risco fazer algum desejo estúpido, algo que é potencializado pela existência de uma criança na família, mecanismo ventilado e não explorado pelo roteiro; a última ponte é o conflito familiar puro, Kate escolher ou não se sacrificar para que o filho tenha uma vida normal.

A Sala é um filme fraco, salvo apenas pela premissa interessante.


Observação: é sério que o roteiro concebe um quarto virtualmente onipotente e o usa só para criar joias, comida e um mundinho para o Shane? Os desejos eram ilimitados e em momento algum é pedido algo ilógico ou absurdo, como ser imortal, um quadrado redondo ou coisa do tipo.

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