Crítica | O Massacre (2017): finalmente um filme bom

Ficha técnica no IMDb

No campo britânico, a família Harver sai em uma viagem idílica para acampar durante o verão, onde eles podem enterrar tensões do passado e desfrutar de algum vínculo familiar. Mas quando seu acampamento é sabotado por um intruso invisível durante a noite, eles, desesperados por ajuda, chegam até fazenda antiga e assustadora onde o fazendeiro vingativo Hunt Hansen e seu filho horrivelmente deformado não estão cultivando animais.

Em geral, a franquia O Massacre da Serra Elétrica é composta por filmes ruins que são cópias uns dos outros. O Início executa razoavelmente bem a fórmula desgastada da franquia e A Lenda Continua tenta misturar dois plots, executando mal ambos. O Massacre é o primeiro filme do Leatherface que é bom, totalmente fora da curva de seus antecessores.

Sua qualidade se baseia na inteligente exploração do núcleo das vítimas, o qual é mais relevante do que costuma ser, na boa ambientação canibal, nos flashbacks relevantes e no desfecho consistente e competente.

As vítimas

Um passeio familiar problemático de uma família problemática é, por si, mais interessante que um grupo de jovens viajando para algum lugar. A relevância dos diálogos aumenta automaticamente, já que existe um laço inegável entre os personagens, ainda que seja um laço abalado.

Wesley, um padrasto babaca. Katherine, uma mãe razoavelmente passiva. Jessica, uma filha possivelmente interesseira. Toby, um filho babaca e boca suja. Sam, um filho que sofre a má influência de Toby.

Esse ambiente familiar caótico e permeado por palavras de baixo calão me pareceu o terreno ideal para ser construída a origem de um vilão. Fiquei muito interessado nesse início do filme porque pensei que Sam fosse se tornar o Leatherface, o que constituiria uma origem melhor que a sugerida em O Massacre da Serra Elétrica — O Início.

O choque do acidente com a Katherine e o fato de estarem perdidos justifica a ida da família para qualquer lugar que pudesse ajudá-los, resolvendo um problema tradicional da franquia: a entrada das pessoas no território do Leatherface. Rapidamente eles foram rendidos e a demora na reação também foi contornada.

Só que ainda restava um problema comum de filmes de terror: por qual motivo os personagens estariam incomunicáveis? A solução de O Massacre foi fazer o Wesley exigir que eles não estivessem com celular. Apenas por ele ser um padrasto babaca? Não, muito melhor que isso.

O Wesley ser um “freelancer” da fazenda canibal justifica a falta de comunicação e até o fato de terem “se perdido”. Essa sacada foi excelente e ainda conectou de modo mais pertinente as vítimas aos vilões, tornando-as relevantes enquanto personagens, não apenas os brinquedinhos do Leatherface.

Seus dramas são um acerto, mas não dignos de nota.

A ambientação

Uma crítica antiga minha a esses filmes sobre canibais é que os vilões são retratados, geralmente, como assassinos nojentos apenas, o que é reduzir absurdamente a amplitude da composição de personagens canibais (que o diga o incrível Hannibal Lecter).

Um ponto que levantei nas críticas de Os Canibais e Pânico na Floresta é a questão do tratamento das vítimas, que costumam ser tratadas como pessoas a serem torturadas, não como mercadoria. E aqui O Massacre acerta muito.

O Massacre coloca os vilões em diálogos sobre o comércio canibal. O Wesley se refere à família como “comida gourmet”, por ser uma família de classe média. O próprio ato de enjaular tem uma pegada de fazenda, bem como a marca com fogo. Esses traços de “normalidade” colaboram para que O Massacre seja o melhor filme que já vi em termos de caracterização de canibais.

Os vilões

Já falei sobre o Wesley e quero registrar que ele é um bom vilão, muito funcional e pertinente, especialmente considerando a ambientação que ressaltei anteriormente.

Além dele, há o carniceiro e o Hunt. Hunt começou o negócio da fazenda canibal após dois garotos deixarem o rosto de seu filho desfigurado e levarem sua esposa ao suicídio. Ele só não sabia que o pai dos garotos, o qual escapara de sua vingança, era o carniceiro, o poderoso chefão do comércio canibal.

Esse entrelaçamento da origem do Leatherface com o início do comércio canibal foi astuto e valorizou a estrutura narrativa do filme, pois deu uma segunda função aos flashbacks. Assim, O Massacre tornou-se muito mais robusto enquanto obra cinematográfica.

A existência do carniceiro possibilitou que Jessica realizasse sua vingança contra os clientes da fazenda, arrematando a trama, finalizando os personagens e consolidando um pertinente final suicida.

Já o Leatherface não teve tanto destaque, foi apenas um capanga do vilão. O que o torna melhor que o Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica — O Início é que, ironicamente, sua origem é melhor neste filme.

As falhas de execução

O Massacre está muito longe de ser um filme perfeito. Seus efeitos especiais são por vezes galhofas, como na explosão das mãos do namorado da Jessica e no sangue que fluía dos ferimentos.

O filme possui problemas padrão de filmes de terror, como a falta de lógica em atitudes e não-atitudes. A Jessica saiu da gaiola chutando-a, mas a Katherine ficou parada lá dentro, esperando ser salva.

A Katherine viu o filho queimar e sequer tentou abrir a gaiola. Questiono até a falta de tentativas anteriores, afinal, se eles estão calçados, o que os impedia de bater na grade com o calçado?

Aí o plano da Jessica para abrir a gaiola da mãe é amarrar a corrente na porta da gaiola e puxá-la com o carro até abrir. Dúvida: ela não pensou na possibilidade de apenas dar um super tranco e arrastar a gaiola com a mãe dolorosamente? Essa ideia foi muito estúpida (e funcionou).

Também é estranho que a eletricidade na porta fosse tão forte, mas nem desse choque nas laterais. As gaiolas também tinham grades espaçosas demais. Foi o cúmulo do absurdo a tigela passar por ela na horizontal.

A burrice da Katherine foi o destaque negativo. Faz total sentido o Toby se disfarçar de Leatherface e a Jessica atacá-lo sem hesitar, mas a Katherine viu o Toby sair do forno e, além de reagir com medo, não explicou para ela que aquele era o Toby.

De resto, as falhas do filme são aquelas forçadas pontuais que raramente não estão em filmes de terror.

Conclusão

O Massacre é um filme de terror feito com esmero, pois seu roteiro tem vários pontos inteligentes, seu argumento é muito bom e suas falhas não estão além do que costumo ver no cinema de horror. Por estes motivos, O Massacre é não apenas um bom filme, é também superior a todos os outros filmes O Massacre da Serra Elétrica juntos (talvez tirando O Início).

Observação: escrevi a resenha acima achando que O Massacre fosse Massacre no Texas, este sim um exemplar da franquia. Mantive o texto igual para deixar claro o quão bom O Massacre é.

Observação 2: O Massacre é superior a maioria dos filmes que não justificam a ida dos protagonistas para a armadilha vilanesca, o que significa uns 90% do cinema slasher.

5 comentários

  1. Na boa, alguém pagou vc pra falar bem do filme ? Kkkkk pq não é possível que vc acha que o filme seja bom, kkk
    Filme muito horrível, sem nexo, história mal adaptada, “cópia” horrorosa do Massacre da Serra Elétrica, filme tudo de ruim kkkk

    Curtido por 1 pessoa

    1. Se você considerar que toda a franquia O Massacre da Serra Elétrica é ruim, eu aceito deixar O Massacre na prateleira de baixo. Ele tem seus problemas, mas é redondinho e é, de muito longe, melhor que a franquia que ele copiou.

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