Crítica | Vivarium (2020): um mundo artificial e angustiante

Vivarium é um filme onde nada acontece, e por este motivo é assustador

Ficha técnica no IMDb

O casal de jovens Gemma e Tom está em busca de uma casa para comprar. Eles visitam um estranho agente imobiliário, Martin, que fala para eles de um novo empreendimento chamado Yonder. Gemma e Tom vão até o local com Martin, onde as casas são residências suburbanas idênticas.

Vivarium não enrola e, após uma introdução rápida dos protagonistas, já os insere na “trama assustadora”. É óbvio que algo vai dar errado, mas o agente imobiliário é especialmente estranho e desconfortável de observar. As casas iguais incomodam, mas o deslizar do roteiro não apontava para uma virada súbita, que foi o que ocorreu. Rapidamente, estamos diante do plot do filme: um jovem casal criando um filho.

Boa parte de Vivarium consiste no desenvolver da rotina dos três. Excetuando a primeira marcação de tempo, que vem com a medição da altura do filho, só o que sabemos quanto ao tempo que passou advêm de seu impacto nas ações contínuas. O filho vai crescendo, até se tornar um adulto (embora cresça muito mais rápido que uma pessoa comum), e o buraco cavado por Tom no quintal amplia a sua profundidade. Essa percepção não-óbvia do fluxo temporal aumenta o terror da situação devido à incerteza quanto ao sofrimento experimentado pelos protagonistas. Às vezes assusta mais imaginar do que ver.

A caracterização do bairro Yonder é extremamente artificial. O céu, as nuvens, o sol, as casas serem iguais, bem como suas ruas, tudo contribui para a sensação de estar em um globo de neve ou um mundo de brinquedo. A cena em que Tom sobe no telhado e olha ao redor é simplesmente desesperadora. E as expectativas são correspondidas quando eles retornam para a casa número nove depois de ir na direção do sol.

Toda a construção da rotina irritante demonstra que tanto Tom quanto Gemma estão chegando ao limite, ao ponto de Tom querer matar o “filho”. Ambos reagem de maneira diferente: Tom quer fugir, se dedicando a cavar incessantemente um buraco que provavelmente não dará em nada e Gemma se habitua a cuidar do filho, afeiçoa-se a ele. Curiosamente, o “amor maternal” fez a protagonista impedir a morte do filho, mas depois a abandonou com a perspectiva de que deviam ter matado ele enquanto era criança.

Conforme o filho crescia, o plot twist ia ficando mais e mais óbvio. Cheguei a recear um final fraco, mas, felizmente, Vivarium sabia de sua limitação e adicionou um pouco de dinamismo à narrativa. Este momento se dá quando Gemma conhece a realidade interdimensional por trás do bairro Yonder: uma estrutura cujo propósito é replicar o “vírus” Martin. É curioso como o filme dá a entender que existe algo místico, além da mera reprodução, sem explorar significativamente tal aspecto.

Vivarium se encerra com uma pitada de romance e a rima narrativa da cova, pois o mesmo Tom que cavara uma cova para um pássaro cavou a cova dos protagonistas. Ficam algumas questões quanto ao funcionamento da Yonder, como: são criadas novas lojas ou os Martin servem apenas para substituir o responsável pela loja mostrada no filme? A quantidade de famílias simultâneas é para o caso de algum Martin ser reprovado?

Por fim, se um filme me assusta sem usar jumpscare, eu o aplaudo de pé. Vivarium não é memorável, mas é competente no que se propõe a fazer.

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