Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 50: os influencers e o museu

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O vol. 50 de Turma da Mônica Jovem retoma o arco de redenção da Carmem, iniciado no vol. 46. Só essa intenção inicial já o torna superior às histórias recentes da franquia, pois a continuidade que evolui os personagens é muito mais valiosa que histórias aleatórias que não servem para nada além de cumprir o dever da publicação regular.

A franquia possui volumes com histórias relevantes e volumes com histórias aleatórias, as quais representam pouco ou nenhum avanço para os personagens envolvidos. É claro que a função comercial da Turma da Mônica exige que a produção seja volumosa, o que pode acarretar em menos esmero na produção da Turma da Mônica Jovem, mas Deixa o Like comete um erro inadmissível: junta os dois tipos de história.

No referido vol. 46, eu critiquei a falta de foco na Carmem e aqui o problema se repete. Lá o núcleo paralelo era um giro de comédia, aqui é a trama do museu. Legal a lição de moral advinda dessa questão do fechamento do museu, mas, por mim, ele teria espaço mínimo na história.

Muito mais relevante que falar sobre esse museu, que poderia ser feito a qualquer momento, era explorar melhor a Carmem. Nós não vimos seus primeiros passos enquanto influenciadora digital e poderíamos admirar mais ainda seu crescimento e renascimento enquanto pessoa, bem como o andamento de seu problema familiar.

O pai da Carmem teve parte dos bens desbloqueados e disse que foi um erro da justiça, mas não sabemos até que ponto ele foi injustiçado ou é realmente um criminoso. Essa parte precisa ter maiores esclarecimentos.

Embora mais uma vez o roteiro tenha dado menos qualidade à Carmem do que deveria, seu lado é o maior atrativo do vol. 50. Para suprir a falta de dinheiro, ela se tornou uma influenciadora digital que fala sobre beleza e sobre a mesma ONG que fez parte do vol. 46.

Eu disse na crítica de O Segredo dos Frufrus que esperava que os novos amigos da Carmem se tornassem seus coadjuvantes permanentes, pois não suporto a Denise. Felizmente, o núcleo da ONG foi mantido como relevante na vida dela. O Cauê continuou na friendzone e a Liz seguiu como a melhor amiga da Carmem. Gosto de continuidade.

O enredo mostrou a Carmem já no ponto em que ela ganha dinheiro o suficiente para mudar de vida, mas mostrou também as consequências da dedicação que essa ocupação exige. Além de se enfadar, falando sempre sobre a mesma coisa, o desempenho escolar e social da Carmem despencou. Ossos do ofício.

Isso me agradou porque, além de aprofundar a personagem, é orgânico e verdadeiro. Sei por experiência própria que é difícil estudar e produzir conteúdo, então me vi representado pela Carmem.

E não é como se ela tivesse se tornado alguém obcecado por ganhar dinheiro, pois manteve a prática de falar sobre a ONG. O problema é que falar sobre a ONG não trazia o engajamento de falar sobre seus cuidados capilares. Sabendo disso, Carmem recusou-se a ajudar o museu.

E aí entra o núcleo do museu. A Mônica falou como se a Carmem fosse uma pessoa ruim e o Cebola ignorou a experiência da Carmem, crendo que era fácil ser influenciador e falar sobre questões sociais. Detesto o jeito que o roteiro deixa esse tipo de injustiça praticamente passar batida.

Confesso que também estou achando a Mônica insuportável. E me incomoda a postura pouco colaborativa do Cascão e da Mônica em relação ao projeto cebolácio. Tem toda uma sequência do Cebola tentando fazer vídeos e obtendo pouco resultado, até que um tombo dele viraliza. Faz sentido. A melhor parte é o cabelo dele passando pelos furos do capacete.

Essa caracterização da dificuldade de ser influenciador digital foi bem feita. Pensando no sucesso, Cebola fingiu ser outra pessoa para entrar numa festa para a qual não foi convidado. Pensando no sucesso, ele quis filmar a Carmem e se catapultar na fama dela. Pensando no sucesso, ele quase destruiu todo o esforço da Carmem.

Ocorre que o Cebola transmitiu ao vivo um desabafo da Carmem sobre o público só querer vídeos de cabelo. Isso repercutiu tão mal que ela perdeu um milhão de seguidores da noite para o dia. Foi como se ele, em poucos segundos, jogasse fora todos os sacrifícios sociais, físicos e escolares feitos pela Carmem. Cebola não merecia perdão, mas sim uma surra.

Deixando de lado meu ódio pelo Cebola, esse choque desaguou em uma genialidade deste volume: nas redes do Cebola choveu gente querendo mais vídeos “desmascarando famosos” e também fãs da Carmem. Esses fãs odiavam o Cebola e transferiram seu ódio para o que o Cebola defendia. Assim nasceu uma campanha fervorosa contra o museu.

É assim que a internet funciona e foi muito bem retratado na história. A mobilização contra o museu levou a Carmem a se posicionar contra isso, o que, ironicamente, recuperou o prestígio dela. Com a causa do museu em alta, um patrocinador da Carmem se tornou patrocinador do museu.

O museu foi salvo, o Cebola ganhou por duas semanas as redes sociais da Carmem, ela foi tirar férias e todos viveram felizes para sempre.

Um final coerente, digno e merecido para a Carmem, depois de tanto esforço. Faz sentido também considerando o que ocorre no mundo real.

Apesar de eu criticar a mescla temática de Deixa o Like e de ter detestado o Cebola e a Mônica, os acertos precisos do vol. 50 de Turma da Mônica Jovem fazem-no ser muito bom. É prazeroso ler algo que importa e que parece ter sido feito com cuidado.

Observação: Cebola — faz a Carmem perder um milhão de seguidores da noite para o dia. Mônica — “O Cebola errou e sabe disso! Deixa no passado!”. Lembra quando a Magali deu a entender que a depressão da Mônica não era um problema de verdade? É mais ou menos a mesma situação.

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