Crítica | O Poço (2020): o inferno somos nós

Conceito interessante num filme incompleto

Ficha técnica no IMDb

Dentro de um sistema prisional vertical, os presos são designados para um determinado nível e forçados a racionar alimentos a partir de uma plataforma que se move entre os andares. O Poço é uma alegoria social sobre a humanidade em sua forma mais sombria e faminta.

O Poço é praticamente um filme de cenário único, com quatro personagens e meio. Nenhum dos personagens tem grande desenvolvimento, servindo basicamente para que conheçamos como diferentes personalidades se comportam dentro do poço. Eles não são ruins, mas funcionam como mero adereço para a mensagem.

E qual é a mensagem? Podemos dizer que o meio é a mensagem, a ambientação. O poço é sujo, industrial e desumano, sem nenhuma perspectiva. Por isso, quando o segundo companheiro do protagonista tenta convencer com palavras os do andar de baixo, é engraçado. “Por que ela está tentando isso?”, nos perguntamos.

A resposta para tal pergunta é: para provar que eles são seres humanos. Claro que as coisas não são tão simples, mas a “mensagem” da qual tanto falam na parte final de O Poço consiste em um sinal de que, do primeiro ao último andar, os prisioneiros são humanos, não monstros. Era isso que o protagonista e seu terceiro companheiro queriam provar para os que estavam no andar 0 (e também para a administração).

A certo modo, a sobremesa voltar intocada seria sim surpreendente, mas não teria o valor desejado. De nada serve o prato que volta bonitinho ou a criança se foi usada extrema violência para que aquilo pudesse ocorrer. O protagonista falhou no raciocínio. A única forma de “vencer” o mecanismo e também provar que aquelas pessoas podem ser reintegradas à sociedade é garantir a sobrevivência de todos através do diálogo.

A criança no último nível é a prova. Se ela sobrevive, então os prisioneiros foram racionais e humanos. Se ela morre, significa que eles falharam e talvez por isso mesmo mereçam continuar no poço.

Se você colocar em uma esquina uma caixa com objetos e anexar a ela uma placa escrito “Se precisar, pegue um”, certamente, em algum tempo, a caixa será saqueada. E se uma pessoa vir outra pegando dois objetos, vai ter a desculpa para fazer igual e talvez pior. É exatamente isso que é o poço.

A comida é feita com extremo cuidado e capricho, é um enorme banquete, mas os prisioneiros preferem estragar a refeição dos colegas a cuidar de sua própria sobrevivência. O que eles ganhavam emporcalhando a comida? O mesmo que o primeiro companheiro do protagonista ganhava ao urinar no andar de baixo: nada. No entanto, a falta de fé no comportamento humano e o desejo por sair por cima de qualquer um falam mais alto.

O Poço é uma fábula sobre como os humanos se destroem voluntariamente, mas, infelizmente, é apenas isso. Com meia hora de filme você pode parar de assistir que não perderá nada até o fim.

A mulher misteriosa que desce todos os meses não é nada e a “mensagem” para o nível zero não é mostrada sendo recebida, então também não é nada. Para completar, temos o porão enorme e escuro onde o protagonista termina, o que também não significa nada.

Seria um erro dizer que O Poço é um filme ruim, mas, definitivamente, é um filme incompleto com um mecanismo interessante.

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