Crítica | Blankman — Um super-herói muito atrapalhado: heroísmo bobo e satisfatório

Ficha técnica no IMDb

Quando a avó de Darryl é morta pela máfia, ele decide combater o crime por conta própria e inventa apetrechos que o transformam em Blankman, um intrépido super-herói. Sua cruzada contra o crime chama atenção, e seu irmão se junta a ele nessa luta.

Já que Blankman é um filme parcialmente de comédia, é pertinente a tentativa de esclarecer seu teor através do título, mas esse complemento enorme me incomodou profundamente. Tudo bem inserir esse texto no pôster, mas usar no título é complicado.

A comédia é um forte atrativo de Blankman. O filme aposta em diálogos humorísticos afiados com várias sacadas que me fizeram rir. Há uma pegada semelhante ao que seria um sitcom, só que sem as detestáveis risadas de fundo.

Há, no entanto, destaques negativos. O título “Blankman” provavelmente é uma piada com chamar de “homem branco” um homem preto, ideia que achei bem besta. Além disso, o humor de quinta série às vezes vai longe demais na idiotice, como nas piadas com excitação. O balanço final, nesse sentido, tem saldo positivo.

Um elemento crucial que provavelmente foi pensado como piada é o fato de o Darryl ser retardado. A mentalidade infantil dele rende momentos bobos, como suas lutas, e piadas de quinta série, o que reduz o apreço que sinto pelo personagem. Só que existe outro lado.

É justamente a cabeça de uma criança que embasa perfeitamente o ideal de super-herói. Para se sujeitar a enfrentar o mal lá fora e fazer o que não é sua obrigação, é necessário ter um coração puro, naturalmente proveniente da ingenuidade de uma criança.

Além da atitude heroica se justificar melhor, é mais aceitável alguém com mentalidade de criança fazer engenhocas inúteis ou pouco úteis. Blankman espertamente coloca inventos mais simples e não incômodos no começo, o que ajuda a acostumar o espectador ao caráter “criativo e engenhoso” do Darryl. Não que isso torne totalmente coerente o Blankmóvel, Blankcicleta ou seja lá como for o nome daquela motoca nos trilhos, mas a escalada é aceitável.

Por mais que os inventos sejam fantasiosos, especialmente a roupa à prova de balas, Blankman contrapõe essa facilidade com a não aptidão do Darryl para batalhas. E como ele poderia combater bandidos de forma eficiente? Aí entra outra sacada do roteiro: o Kevin fazer aulas de caratê, algo mencionado aparentemente como piada, apenas para que ele se livrasse da companhia do irmão.

Essa esperteza do roteiro de estabelecer conceitos de forma mais simples antes de ampliá-los sugere que a produção de Blankman foi feita com esmero, não de qualquer jeito. Esse tipo de obra merece ser valorizada muito mais que histórias patéticas feitas de qualquer jeito, ou que jogam fora elementos essenciais de sua temática.

Blankman me ganhou com duas demonstrações de heroísmo. A primeira oficial do herói foi um parto no elevador, acompanhado de seu irmão. A magia nesta sequência é que o ato é extremamente bonito e pode ser feito por pessoas comuns, não apenas por um sujeito com apetrechos inusitados.

Com sua entrada no estrelato, a partir do parto, Blankman virou um ícone. O super-herói da cidade, aquele que todos amam, o amigão da vizinhança. Um nobre sujeito que não aceita receber dinheiro, apenas máquinas que poderá usar em seus inventos. O mascarado que não quer dar entrevistas porque não quer holofotes.

Essa postura é, definitivamente, utópica e apaixonante. A boa índole do Darryl é muito mais atraente que o explícito interesse do Kevin. Não que ele fosse uma má pessoa, mas é compreensível que a Kimberly goste mais do Darryl. Se este é puro, o resto do mundo não é.

Na sequência do banco, a polícia deixou todo o dever de impedir os criminosos nas mãos do Blankman e o povo depositou sua fé nele. Blankman não tinha a menor chance de lidar com tantos meliantes, mas, ainda assim, enfrentou o desafio. Ele e o prefeito conseguiram impedir o assalto e até desarmar a bomba acoplada ao prefeito, mas mesmo um herói não consegue salvar todos sempre.

Blankman foi um grande herói, mas a mesma polícia que cruzou os braços diante do problema jogou toda a culpa nas costas dele. Quem poderia julgá-lo por desistir do heroísmo? Ainda mais levando em conta que o prefeito, alguém considerado pelo Darryl, morreu quase que diante dos olhos dele.

O que faz um herói ser um herói não é o super poder. É aquilo que fez Peter Parker entrar no prédio em chamas (no excelente Homem Aranha 2), aquilo que fez o Darryl começar a combater o crime: a vontade de fazer o certo.

Curiosamente, a sequência do banco quebrou o Darryl fundo ao ponto de ele só voltar a ativa por causa do desejo de vingança para com o mafioso. Esse momento de queda da motivação não se perpetuou e o Blankman seguiu manifestando o interesse em ajudar as pessoas. Este é o nascimento definitivo de um herói. Ou talvez de dois heróis.

O Kevin é como um cidadão comum. Naturalmente, ele considerou o Darryl um lunático por querer fazer o que fez, mas acabou sendo influenciado por seus ideais ao ponto de vestir uma fantasia e ir junto com o irmão para salvar a paixonite de ambos. Isso é o que ocorre quando existe um farol de moralidade.

Moralidade que faltou ao ganancioso da TV, que trocou a Kimberly e o Blankman por uma entrevista com o mafioso. Enquanto os heróis não vencerem esse tipo de gente em influência, pessoas inocentes, como a avó dos irmãos, irão sofrer.

A história de Blankman é uma trama muito bonita de heroísmo, com herói, vilão, boa origem, queda e retorno, incluindo uma mensagem esperançosa. Por essa qualidade, eu minimizo o romance fraco, as piadas ruins e a ação meia boca.

Blankman — Um super-herói muito atrapalhado é um bom filme. Muito, mas muito melhor do que eu pensava. Se ele se contivesse nas piadas, seria ótimo.

Observação: a cena inicial com os garotos querendo assistir à série do Batman é bem legal.

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