Crítica | Não Desligue (2016): competente, pero no mucho

Ficha técnica no IMDb

Bêbados, durante uma noite de festa, um grupo de amigos brinca de passar trotes. A brincadeira, porém, se torna um pesadelo, quando um estranho inverte o próprio jogo contra eles.

A sinopse não condiz exatamente com o que ocorre no filme, mas é mais ou menos isso. O início do longa capricha numa cena de suspense que funciona de forma excelente, caso o espectador não tenha lido a sinopse.

É excelente porque eu sinto o medo e a tensão da mulher. Quando ela está se desesperando, eu embarco junto e começo a torcer por ela. Já que, felizmente, Não Desligue não fez sua abertura ser óbvia, há um choque bem grande quando é revelado que foi um trote.

Esse trote nos faz detestar os personagens principais e sentir pena da mulher enganada. Pegou o fio do sentimento? Guarde-o com carinho, pois vai ser essencial no final. A cena já seria muito boa mesmo servindo apenas como virada de expectativa e essa seriedade na condução sempre me faz olhar para a obra de um jeito mais bondoso.

A parte introdutória do filme estabelece algumas características importantes dos personagens centrais: Sam e Brady. Sam se importa muito com a namorada, mas ela “pediu um tempo”. Brady é o arquétipo do babaca, mas projeta como futuro ir para a marinha e tem ciência de que seus pais ficarão chocados. Assimilou os “objetos de valor”? Guarde-os, pois serão essenciais para valorar as ações dos protagonistas.

Na sequência de trotes, além da raiva daqueles personagens, surge uma cena em que um entregador de pizza quase apanha por ter sido colocado como bandido pelos troteiros. Antes do homem aparecer com o taco de beisebol, temi que ele estivesse armado e atirasse no entregador. Este também é um detalhe importante para o final de Não Desligue.

O interessante início do filme, antes de meia hora, já emenda no ponto de virada. Se eles jogavam o jogo, agora o jogo joga eles. Essa sensação de “parece que o jogo virou, não é mesmo” é um grande ponto alto, mas daí em diante o filme decai muito.

Por mais que os protagonistas não sejam mal feitos, o fato de eles serem babacas dificulta muito a existência de uma conexão emocional com eles (diferente do caso da vítima inicial). Como eu não me importo com os personagens e já entendi a ideia-chave do filme, todo esse miolo é extremamente desinteressante. E é desinteressante mesmo quando é sabiamente bem estruturado.

A coisa mais importante para o Brady é os pais, e, para o Sam, é a namorada. Por isso as escolhas deles de não ceder têm peso. À primeira vista, pode parecer forçada essa equiparação, mas ela tem um eficiente propósito.

Já que o filme conseguiu equilibrar o amor pelos pais ao amor pela namorada, ou seja, colocou o segundo como muito, mas muito forte, a traição pôs em cheque a escolha do Sam. Quando ele vai até o Brady, fazer aquilo ou não fazer seriam opções igualmente aceitáveis.

Neste cenário, Não Desligue fundamenta melhor o laço entre os protagonistas, algo que, novamente, é essencial para o final do filme. Agora falemos sobre ele.

Depois de vários atritos, Sam percebe, de modo absurdamente forçado, que o relógio na parede do lugar em que os pais do Brady estão está marcando uma hora diferente da atual, o que prova que aquilo não é uma transmissão ao vivo. Seria uma bela sacada, se não fosse por esse meio tão forçado.

É interessante que o vilão diz que os protagonistas foram “trolados” e há um período de tempo razoável entre essa palavra e a revelação do estado dos reféns, o que me fez supor que poderia ser realmente uma brincadeira, como vi outros filmes fazerem. A escolha do vilão foi ser cruel com inocentes.

Perdoo a inexplicável manutenção da vida da Peyton, pois o conflito final foi empolgante. O Sam acabou espancando o Brady porque o vilão disfarçou o Brady de vilão. Esse recurso é bem usado em filmes como O Massacre, mas aqui não funcionou direito. O Brady teve tempo demais para fugir ou estabelecer contato antes do golpe fatal.

Sobrando apenas o protagonista e sua namoradinha traidora, o vilão revela sua identidade secreta. Antes, vou reforçar alguns elementos intrigantes ou chamativos de Não Desligue.

O revoltante e bem feito trote inicial; o pedido de amizade de uma garotinha que o protagonista recusou; a mesma garotinha ter aparecido na TV durante a noite.

A verdade sobre o vilão é que a mulher dele pegou uma arma para se defender do suposto invasor e, acidentalmente, matou a filha. Depois disso, ela se suicidou. Tudo por causa do trote inicial revoltante e bem feito.

Esse plot twist e essa motivação são muito bons e foram bem organizados dentro da estrutura do filme. Se tem uma coisa que Não Desligue faz bem é sua estrutura narrativa. Ele é realmente muito bom nisso, só que…

A execução se sai problemática. Eu mencionei antes que o miolo do filme é desinteressante e preciso acrescentar que a montagem/edição também fica devendo. Perto do final, tem uma cena de uns dois ou três minutos com dois cortes, tão bruscos e inorgânicos, que eu tive que rever para ter certeza de que era a mesma pessoa sendo mostrada o tempo todo.

Além disso, o vilão manipula a eletricidade da casa e várias vezes o cenário fica escuro. Deixar escuro é um jeito muito barato de criar suspense, além de dois jumpscares que o longa possui. O uso desse recurso contribui para que o filme pareça mais maçante, circular e ganhe contornos “trash”.

No geral, o controle tecnológico é forçado. Como o vilão redirecionou a chamada do fixo e do celular? Por que o Sam usou o mesmo celular que já havia sido contatado pelo vilão se ele havia modificado remotamente o fixo? Era óbvio que não adiantaria.

Um detalhe que achei bizarro foi a TV ter sido usada como telefone. De início pensei que fosse o telefone em viva-voz e fiquei confuso, até aceitar que o Sam estava gritando com a TV como se fosse uma linha direta, um meio de se comunicar com a namorada.

Essas forçadas de barra e o ar trash fazem Não Desligue parecer ruim, mas sua estrutura narrativa é boa demais para um veredito dessa natureza. Concluo, indeciso, que Não Desligue é um filme competente, mas nem tanto assim.

Observação: aquela cena do vilão disfarçado de morto se levantando foi uma cópia do plot twist de Jogos Mortais. Não a contabilizo como erro porque ela não significa nada. Nem imagino o motivo de ela existir.

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