Crítica | Pesadelo nas Alturas (2020): boa situação, personagens não

Ficha técnica no IMDb

Dois ex-namorados se encontram antes de um casamento numa ilha tropical com seus amigos. Como os únicos passageiros de um avião monomotor, sobrevoando as águas azuis do Oceano Índico, eles precisam lidar com os problemas do passado e se superarem para sobreviverem.

Aparentemente, Pesadelo nas Alturas foi uma ideia de pessoas em perigo num avião que muita gente gostou sem se aprofundar no que um filme exige. Depois de ter trabalhado toda a dinâmica do filé mignon, o diretor deve ter percebido que filmes precisam ter começo meio e fim, mas ele só tinha o meio. Digo isso porque o começo de Pesadelo nas Alturas é muito ruim e o final é problemático, mas o meio, ainda que não seja perfeito, é muito bom.

O começo

Os primeiros vinte minutos de filme se concentram na absurdamente desinteressante vida da Sara. Ela tinha um namorado num lugar tranquilo e quis ir para a cidade grande para trabalhar, o que os levou a se separarem. Não há nada de significativo nisso, faz parte da vida.

Toda a parte dela pegando as caixas de bebida e falando com a amiga são chatas e eu sabia que seriam inúteis, porque no avião estariam ela e o Jackson. Eis os pontos negativos de se ler a sinopse de um filme antes de assisti-lo.

Prestei mais atenção no filme quando a Sara voltou a interagir com o Jackson, mas foi constrangedor o jeito que ela ficou se jogando para cima dele, sendo que ele claramente queria distância. O pior foi que ela brigou com ele por ele não ter viajado com ela para a cidade grande.

O Jackson só queria curtir uma vida tranquila, mas a Sara exigia que ele escolhesse viver com ela nos moldes dela. Depois dessa atitude babaca e de uma noite de amor, ela sugeriu para uma pessoa que ambos estavam namorando (ou algo assim). Estava completo o pacote da protagonista irritante que eu quero que se lasque. Simpatizei com o Jackson mais por raiva da Sara que por particularidades dele.

Por conta da noite com o Jackson, a Sara perdeu a balsa para a ilha onde ocorreria o casamento. Aí ela saiu sem se despedir dele (de novo), foi pegar um avião e, coincidentemente, o Jackson pretendia pegar o mesmo avião. Esse jeito de colocar os dois no avião foi muito preguiçoso e ainda faz o espectador perder vinte minutos com uma bobagem inútil para o meio do filme.

Seria muito melhor se Pesadelo nas Alturas começasse direto com ambos entrando no avião. Se for para construir mal os personagens, é melhor nem construir.

O meio

O filme melhora muito, mas muito mesmo, nas cenas do avião. A situação em si é extremamente assustadora e me deixou muito tenso enquanto os protagonistas lidavam com as adversidades. É interessante nessa parte como as coisas passam perto do limite, como os dois problemas do combustível.

O suspense aqui empregado tem muita qualidade, a estética é bela e a execução, no geral, empolga. Só que, nem em seu melhor momento, Pesadelo nas Alturas é perfeito. A preparação que o filme faz da habilidade da Sara como pilota é boba. Acabou com a minha imersão o jeito que o Freddy insistiu na tentativa de fazer a Sara pilotar.

Além de a Sara ter alguma experiência com pilotagem, o Jackson a orientou de modo perspicaz várias vezes. Esse nível de conhecimento deles distanciou-os de mim, porque eu sinto medo pela situação, mas não sinto medo por eles, já que está claro que eles entendem mais daquilo do que eu.

Há uma forçação de barra tremenda nas cenas em que o Jackson e a Sara saem do avião. Entendo que a situação exigia, mas foi surreal. Pior no caso da Sara, porque ela não tinha nenhuma medida de segurança e segurava na asa com uma mão enquanto a outra despejava bebida no tanque de combustível (não sei se isso faz sentido científico, mas foi bem conveniente).

Ironicamente, o que mais me irritou foi a burrice da Sara. Ela, que tinha experiência com pilotagem, entrou em pânico e foi contra as recomendações do controlador de tráfego aéreo. Sua estupidez provavelmente causou o problema do combustível e ainda os fez ficarem mais perdidos que antes.

Questiono também a decisão de pousar na ilhota. O Jackson pensou que eles conseguiriam sobreviver naquele pedacinho de terra? Achou que seriam magicamente resgatados? Ele leu o roteiro do filme? Uma vez que estavam na direção correta, o mais lógico seria seguir sempre em frente e seja o que Deus quiser.

Pesadelo nas Alturas faz algumas preparações, como a inserção da sugestão do problema de saúde do piloto e o uso da boia, mas elas são bem pouco relevantes. Vale mencioná-las para destacar que o filme não foi feito de qualquer jeito.

O final

Quando a dupla do barulho chegou à ilhota, imaginei duas possibilidades de final: ou eles morrem à míngua ou surge um Deus ex Machina. Curiosamente, primeiro veio um Diabolus ex Machina inútil: a maré subir.

Sério, eles já estão presos e sem chance de sobreviver, qual a necessidade de deixá-los na água e mostrar um tubarão? Esse artifício de roteiro só piorou a chegada do barco ex Machina. Não faz sentido inserir um desafio gigante do nada para, em seguida, resolvê-lo de forma preguiçosa.

Esse desfecho me decepcionou e ver a conclusão dos protagonistas de que ambos foram egoístas me encheu de raiva. O Jackson não foi egoísta, ele só quis ficar na dele. Foi a Sara que exigiu que ele vivesse a vida que ela queria viver, o seduziu e foi embora sem se despedir.

Pesadelo nas Alturas é um filme com um começo ruim, um final preguiçoso, um meio empolgante e uma protagonista detestável.

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