Crítica | Crimes Temporais (2007): era só não fazer nada

Ficha técnica no IMDb

Se você não entendeu o filme, leia a explicação no final deste texto.

Héctor (Karra Elejalde) um homem de meia idade, entra acidentalmente em um dispositivo que o faz viajar no tempo e retornar uma hora antes. Isso o faz encontrar a si mesmo, desencadeando situações e gerando consequências incontroláveis.

Crimes Temporais é um filme de viagem no tempo com ênfase no entrelaçamento dos eventos por ele demonstrados. Não é como um desenvolvimento de personagem, mas sim a observação das peripécias traquinas e serelepes de Héctor, um homem de questionáveis valores morais.

O começo do filme parte de uma inocente interação de um casal. Tudo parece tranquilo, ganhando um ar mais sensual quando o Héctor vê uma mulher aleatória se despindo. A nudez ganha uma conotação mais trágica no encontro deles na floresta e, mais para o final, há um acréscimo ainda pior.

A palavra-chave desse primeiro ciclo é “confusão”. Um mascarado ataca o protagonista e o persegue sem razão aparente, após provavelmente atacar uma mulher na floresta. Na fuga, Héctor invade uma casa e é ajudado por um sujeito que o engana, convencendo-o a entrar numa maquina estranha. Aí entra a viagem temporal.

A partir daí, a história deixa de ser um suspense misterioso e vira um quebra-cabeça em construção. Por motivo nenhum, Héctor liga para a própria casa e quase fala com ele mesmo, recebendo assim o alerta do cientista de que alterações nos eventos poderiam gerar uma realidade com dois Héctor.

Essa base meio forçada justifica a cruzada de Héctor para garantir que nada saia diferente do que ocorreu no primeiro ciclo. E nesse ponto entra a magia de Crimes Temporais. Aos poucos vamos descobrindo que a maioria dos eventos mostrados pelo filme foi causada pelo próprio Héctor.

O caráter egoísta e desprovido de bom senso do Héctor o fez levar a mulher que tentou ajudá-lo para o meio do mato e deixá-la nua. Ele fez isso sem se importar com a necessidade daquilo e, o pior, sem ligar para o ponto de vista daquela que provavelmente imaginou que seria estuprada.

O Héctor não explicar para a mulher a situação tem algum sentido, dadas as circunstâncias emocionais. O erro de Crimes Temporais foi esticar esse raciocínio para a cena em que o Héctor “invade” a própria casa.

Não havia nenhum motivo para ele fazer aquilo, perseguir a Clara, arrombar a porta do quarto e puxar o pé dela. Não tem como aquela atitude de maníaco homicida ser acidental. O filme poderia encerrar com esse final trágico, mas preferiu dar um novo loop. Agora Héctor tentaria evitar a morte de Clara.

Há, inclusive, um momento no qual Héctor “entrega os pontos” sem que haja um motivo, o qual me incomodou. O que ele fez com a mulher nesse ciclo aumentou ainda mais a minha raiva dele. Além de não explicar a ela que não havia um perseguidor, ele a deixou nas condições necessárias para que morresse como ele viu e julgou ser a Clara, no ciclo anterior.

Héctor fez isso porque sabia que a única forma de resolver o problema da duplicata era matar seu outro “eu” ou fazê-lo voltar no tempo. O detalhe é que ele só voltou no tempo porque achou que a Clara havia morrido.

Héctor podia facilmente entrar num acordo com sua contraparte, de modo que pudessem viver em paz, mas preferiu manipular e matar uma inocente para que o ciclo se mantivesse fechado. Meu consolo é que esse odioso ser esqueceu que o outro Héctor devia ter a mesma composição física, logo, seus rastros levariam ao original.

Crimes Temporais é uma história cuja qualidade está centrada em seu argumento, que é muito interessante. É válido enquanto entretenimento, porém, sua história é uma contradição lógica, já que o motivo para o loop acontecer é uma condição que só existiu em decorrência do loop. Além disso, Héctor toma atitudes que parecem inexplicáveis, mesmo considerando que ele é um maníaco homicida.

Entendendo Crimes Temporais

O filme é o retrato de um loop temporal com duas voltas e uma saída, mas sem entrada. A existência dele é condicionada ao fato de ele já existir, pois o Héctor entrou na máquina para fugir dele mesmo. Existem, simultaneamente, sempre, três Héctor. O primeiro é o que foge do mascarado e viaja no tempo sem querer. O segundo é o mascarado que faz tudo acontecer como o primeiro viu, para garantir que o primeiro viaje no tempo e haja apenas um Héctor. O terceiro é o que quer impedir a morte da esposa.

O primeiro Héctor só volta no tempo porque foi perseguido pelo segundo Héctor. O segundo o persegue porque sabia que se os eventos fossem alterados poderiam haver dois dele naquela linha temporal (fato evidenciado pela intenção dele de acabar com os outros Héctor, quando ocupa a posição do terceiro). O mais importante a se ressaltar é que a única coisa que o Héctor quis corrigir foi a morte da esposa e sua intenção sempre foi evitar que sobrasse mais de um Héctor.

Digo isso porque vi muitas pessoas acharem que o Héctor tentou corrigir suas ações e percebeu que não adiantava, o que está errado. Mais que isso: a esposa dele não tinha morrido. Reparem que, na cena da morte da esposa, a escada está encostada no teto. A mesma escada que o terceiro colocou ali. Em todos os loop o Héctor volta no tempo, se persegue, acha que a esposa morreu, volta no tempo, disfarça a mulher, esconde a esposa e relaxa na cadeira. Em todos os loop há três Héctor e ele causa a própria viagem no tempo. Em todos os loop ele termina bem com a esposa, pois todos os Héctor passam pelas três fases e saem do loop numa nova linha do tempo.

É possível teorizar que em algum momento ele viajou no tempo pela primeira vez de outro modo, mas é só teoria. O filme não mostrou diferenças gritantes o suficiente para provar que o Héctor altera muito as coisas a cada loop. A maior evidência disso é a escada que ele usou enquanto terceiro que estava lá quando ele era segundo, o que prova que a esposa nunca morreu, mas sempre a mulher inocente.

Observação: o que o protagonista viu no mato no começo com certeza não parecia o mascarado. Erro da direção do filme.

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