Crítica | Falsidade (2019): o título mais fiel da história deste país

Ficha técnica no IMDb

Um grupo de amigas viaja para passar um tempo juntas antes das provas da escola. O destino escolhido é uma propriedade do namorado de uma delas, a qual fica no meio do nada. Farra vai, farra vem, as coisas começam a esquentar e os laços são testados pelo medo, pela falsidade e por uma ameaça física.

“Falsidade” é um título muito fiel porque as três personagens mais relevantes do filme agem de modo pouco amistoso. Acrescento a isso os adjetivos “burro” e “inacreditável”. Enquanto o filme rolava eu só ficava estupefato com suas bizarrices.

A atitude da Pippa de falar sobre vida sexual claramente foi pensada como uma forma de atacar a Kim e fazê-la se sentir mal. Em dez minutos o filme já estabeleceu a Pippa como uma babaca, a Kim como o Patinho Feio e deixou claro que as quatro amigas não são tão amigas assim.

Uma parte das burrices de Falsidade advém do modo como as moças se tratam. A Abby praticamente ridicularizou a reação da Kim diante da crença de que havia alguém do lado de fora da casa. Além disso, ela ainda ignorou a informação da Kim de que a Pippa usava nome falso. Nem acreditei no jeito que ela tratou aquilo como se fosse uma acusação vazia, não um fato. A Abby também ficou confortavelmente num cômodo ao invés de dar apoio numérico à Kim e foi atrás da maluca dentro de casa sem motivo algum.

Os atritos, no geral, foram estranhos. A Pippa trancou a Kim no banheiro a troco de nada, a chamou de psicopata baseada em nada e desligou a energia da casa por motivo nenhum. Aliás, acho que o diretor queria um motivo para fazer as cenas de ação no escuro. Detesto esse recurso, ainda mais quando decorre de uma ação não-malévola.

A Kim ficou xeretando os pertences alheios, se lançou contra uma possível maníaca sozinha e atirou uma faca na Pippa sem ter uma evidência de que ela era uma maníaca. Tudo bem ter suspeitas, mas não havia motivo para ela atacar.

Como esse primeiro ataque não tinha motivo e a Pippa desligou a energia da casa igualmente, toda aquela batalha que culminou na queda de ambas do primeiro andar foi um grande mal-entendido. É tão patético que chega a ser engraçado.

Na leva de atitudes sem sentido, a Abby destratou a Kim sem sequer ouvir o que esta tinha a dizer e ainda teve a canalhice de trair o namorado na propriedade do namorado. Ele ser infiel apenas comprova que ninguém em Falsidade é uma boa pessoa (daí a fidelidade do título).

Vale destacar a burrice do Casper de forçar a entrada no cômodo trancado sem falar nada. Mais adiante, ele destrata a Kim como se soubesse a verdade, sendo que ela não se revelou e as outras duas não disseram nada inteligível. Que filme estranho.

Falsidade contém uma atitude especialmente burra e detestável. A Pippa convidou três rapazes desconhecidos para ir à casa do namorado da Abby. Na casa — que fica no meio do nada —, elas se embebedaram junto com os desconhecidos.

Em dado momento, a Pippa joga a Kim em direção a um dos rapazes e esta está praticamente desacordada. O rapaz deita sobre ela, a beija e a acaricia, enquanto a reação do outro rapaz e da Pippa é algo como: “bem, vamos dar privacidade a eles”. Isso me incomodou demais. Não é ruim, pois pessoas podem ser babacas, mas foi deveras irritante.

Os defeitos estão presentes na estrutura do filme. O embasamento para o plot twist só surge quando o próprio plot twist acontece. É extremamente conveniente e raso. De uma vez, o filme estraga a tensão mostrando as sumidas vivas, joga uma informação crucial de última hora e não estabelece uma relação lógica entre o background e a ação da maluca.

Certo, a Kim desenvolveu um transtorno de dupla personalidade por causa da pegadinha. E daí? Qual era o objetivo dela? Simplesmente prender pessoas num lugar? Gostei da revelação como justificativa para a claustrofobia, mas não senti que ela fortaleceu a vilã, apenas trouxe mais problemas.

Já que a Kim era uma vilã inconsciente, todas as palhaçadas dela e da Pippa foram só reflexo de suas personalidades errantes. Mas que belo grupinho de amigas, não? E ainda teve final feliz. Só não para o cachorro.

No fim, a identidade secreta da Pippa não serviu para nada e sua expulsão por bullying apenas ameaçou ser parte da justificativa do plot twist. E tem mais coisas estranhas em Falsidade.

Se a intenção era passar dois dias no lugar, por que levaram o cachorro? As quatro estavam juntas, então qual o sentido do conflito adolescente de “quem vai ficar no quarto de quem”?

O homem do posto de gasolina trabalhava lá e morava em casas desocupadas ou apenas deu um migué para pegar o dinheiro das trouxas? A Kim se baseou em absolutamente nada para concluir que ele matou a Feline e o cachorro. Impressionante.

Banheiro e sauna com tranca do lado de fora? Isso faz algum sentido em alguma parte do mundo?

A Kim realmente concluiu que a Pippa mentiu sobre a Feline baseada em “acho que ela viu essas fotos que estavam praticamente escondidas na cama da Feline”?

A Kim não viu a Feline na cama e a primeira reação que teve foi perguntar para as duas dorminhocas. Por que ela não deu uma olhada na casa e nos arredores primeiro?

Levando em conta que estavam no meio do nada e nevando, como a Abby e a Pippa acharam uma boa ideia saírem da sauna e irem correr seminuas no “quintal” da casa? No mesmo sentido, a Feline foi lá fora, no meio da noite, só para fumar? Havia mesmo essa necessidade?

Além das atitudes estranhas, Falsidade usa alguns recursos baixos para gerar tensão e atender aos seus propósitos. São eles o personagem macabro caricato que parece querer assustar, a Kim que atacou a Feline num lapso temporal impossível de ser percebido antes da revelação e a câmera em primeira pessoa no armário que dava a impressão de ser alguém lá dentro, mas não era nada.

Tudo isso é bobo e desprezível. A história de Falsidade é uma bagunça, as supostas amigas parecem se odiar, alguns elementos não são usados de modo relevante (o mistério da Pippa) e outros são importantes demais para serem explorados tão superficialmente (a verdade sobre a Kim).

Falsidade é um filme ruim, mas acaba sendo divertido por ser uma bagunça total. É a típica obra que de tão ruim chega a ser boa.

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