Crítica | Lenda Urbana (1998): slasher bom? Isso existe?

Freddy Krueger e Lex Luthor no mesmo rolê

Ficha técnica no IMDb

Uma série de crimes inspirados em lendas urbanas assola uma localidade. Quando a estudante Natalie (Alicia Witt) investiga um antigo massacre, ela se vê no meio de um novo morticínio e identifica um peculiar padrão.

A cena inicial de Lenda Urbana mostra uma mulher parando num posto de gasolina e sendo atendida por um sujeito estranho. Há apreensão e, quando ele a chama para dentro, é perceptível que tem algo por trás daquele chamado. Imaginamos que ele é o assassino, como em tantos outros filmes. Na verdade, por seu problema de fala ele não conseguiu explicar, mas no banco de trás do carro da mulher estava o assassino. Esse começo tem um certo jumpscare ruim, mas é coerente e competente. Isso sintetiza bem Lenda Urbana.

O filme peca por seus jumpscares idiotas, mas acerta demais na preparação e na coerência de suas cenas. O problema é que nem sempre ser coerente significa ser bom, além de o final conter uma extrema forçada de barra.

A execução de Lenda Urbana é eficiente em termos de ritmo, efeitos visuais e cenas vilanescas. Existem alguns exageros, mas a premissa do filme torna as cenas individualmente valiosas, não apenas um jeito qualquer de fazer vítimas.

Um assassino que mata de acordo com o que dizem lendas urbanas. Isso o torna especial e um mecanismo de roteiro que dispensa profundidade e maiores explicações, já que sua lógica é extremamente interessante.

O conceito de lenda urbana explicado pelo professor Wexler (interpretado por Robert Englund, o Freddy Krueger) funcionou muito bem e rendeu uma das suspeitas de quem seria o vilão. O machado e o casaco não são anormais, mas faz sentido os personagens principais suspeitarem. Do mesmo modo, fazia sentido a Natalie suspeitar do esquisito motorista.

Gostei dessas duas, mas a melhor suspeita foi a que o Luthor cabeludo suscitou. O jornalista já tinha se mostrado um inescrupuloso arrombador de portas, indiferente à ética jornalística e ao bom senso, além de ser um chato de galocha. Eu acreditaria se fosse revelado que ele arquitetou tudo para trazer sucesso a uma reportagem escrita por ele. Na verdade, eu preferia que essa fosse a revelação.

O verdadeiro assassino tem uma excelente motivação e justifica bem a história girar em torno da Natalie, mas é coerente, não a melhor das possibilidades. Depois da suspeita erguida acerca do jornalista, a revelação acabou sendo uma ideia inferior. Impactante, porém não tão legal.

Detestei o jeito que certa personagem ficou um tempão viajando para lá e para cá para no fim cair como uma tonta. Outro problema, este o principal, foi aquele personagem ser golpeado, cair e aparecer depois como se nada tivesse acontecido. Foi muito forçado. Esse final policial foi complicado.

O desfecho teve um conceito interessante, outros universitários mantendo a lenda viva, mas o uso daqueles atores me incomodou demais. Foram o grupo de jovens mais bizarro que já vi num filme.

Considerando superficialmente a parte narrativa e temática, Lenda Urbana funciona muito bem, entretém e chega fácil à nota 7. Todavia, ele faz mais que isso. Lenda Urbana trabalha tão bem seus personagens que eu me importei com a maioria deles.

A humanidade neles me agradou. Gostei muito da aula sobre lendas urbanas, do desenrolar dos laços do babaca, do Luthor cabeludo e do professor Wexler. Há um detalhe chocante sobre um laço afetivo do Luthor cabeludo e o babaca se mostrou muito bom de papo, não apenas um idiota.

O reitor agiu de forma muito consistente. Como não queria prejudicar a imagem da universidade, abafou o caso do massacre, restringiu a possibilidade de ação da policial e fez pressão para que o jornal da universidade demitisse o jornalista. Gostei do realismo e da consistência desse conflito.

A introdução e transição do jornalista de figurante para personagem relevante também foi boa, entre a chatice corretora de informações e o muito bom triângulo amoroso. Desgostei de sua aparição no final, mas o plano dele foi bem legal.

E tem também a gótica colega de quarto da Natalie. Suas aparições como colega chata foram engraçadinhas e funcionais. No início me incomodou uma cena em que ela faz sexo e geme. É um problema meio que padrão em filmes de terror, mas aqui ela tem uma função importantíssima. Em outro momento, a Natalie entra no quarto e não acende a luz para não atrapalhar a gótica, que está gemendo novamente. A diferença é que desta vez ela está sendo assassinada. É pesado, é tenso e satisfatoriamente coerente.

Lenda Urbana tem bons personagens, bom roteiro, boa história e suas derrapadas não estragam a ótima experiência de assisti-lo. É um filme muito bom, a dois passos de ser ótimo. Para o nível do cinema slasher, é excepcional, ou, pelo menos, está no mesmo patamar de O Massacre.

Observação: a explicação com slides foi impagável e justificável pela maluquice do vilão.

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