Crítica | A Maldição da Floresta (2016): a personificação da ruindade

Amigas do tempo de escola resolvem se reunir para um final de semana cheio de emoções. Durante uma trilha nas montanhas elas se perdem, e é aí que a aventura realmente começa.

É recorrente em filmes de terror haver uma cena inicial que demonstra o tipo de terror utilizado pela obra. Essa mania pode servir para evitar que o público-alvo desista do filme, mas a entrega prévia do que deveria ser o elemento mais valioso da trama geralmente reduz o valor do ponto alto da história, que é quando aquilo se torna relevante.

É como se um humorista fizesse o punch line antes de preparar a piada. Ela pode até fazer sentido, mas o elemento surpresa contribui com boa parte do impacto, então a piada fica sem graça.

Em A Moça da Limpeza, a cena inicial aparentemente genérica é essencial para a construção da história por detrás dos fatos apresentados pelo filme. Em A Maldição da Floresta, a cena é de fato genérica e praticamente anula o que precisava ser forte.

Dou um peso maior para esse aspecto porque a parte técnica do filme é ruim. As atuações são meia boca, a fotografia é pobre, uma certa cena de sangue é ridícula e é tudo meio amador. O aparente amadorismo pode advir de falta de orçamento, mas orçamento enxuto não é desculpa para falhas estruturais e problemas de roteiro.

A Maldição da Floresta usa alguns velhos artifícios roteirísticos. Um folheto em algum lugar que explica toda a mitologia que rege a trama, um grupo de amigas que não são tão amigas assim, uma bizarra caminhada no meio da floresta, uma bizarra entrada numa casa abandonada e um foreshadowing que não justifica direito o que ele deveria justificar.

Nas amigas não tão amigas cabem alguns destaques. Embora a babaca seja a personagem mais lúcida do filme, e, portanto, minha preferida, ela levar uma amiga de fora para o encontro “das amigas” foi muito estranho. Um término de relacionamento não justifica tal atitude, a qual é bem próxima de um convidado convidar alguém sem que o anfitrião saiba. Pessoas podem ser sem noção, mas creio que faltou mais consistência nisso.

Uma cena marcada pela artificialidade foi quando a Annie tropeçou em nada e caiu convenientemente sobre um galho duro. O jeito que as moças começaram a rir foi muito estranho e deslocado, como um sitcom sem as detestáveis risadas de fundo.

A caminhada no meio da floresta foi estranha por ser abrupta e provavelmente fruto de um roteiro preguiçoso, mas acabou sendo cômico quando elas encontraram o tal lugar da “bela vista” e a paisagem era só uma vista panorâmica das mesmas árvores de sempre.

O foreshadowing que eu mencionei é quando uma personagem deixa a mão na água por motivo nenhum e a luva dela escapa. Era raso e o fluxo não estava veloz, então ela conseguiria facilmente retomar a luva. Ela não o fez e os dedos dela gangrenaram por causa do frio. Se estava tão frio assim, não faz sentido ela deixar a luva ir embora. Todavia, a cena da cirurgia é bem impactante, o que é um ponto positivo.

A resposta para alguns problemas que apontei é o plot twist do filme. A personagem que levou as moças para a floresta o fez como uma oferta de sangue, a fim de se livrar da maldição da floresta. Ela acreditava que apenas sair de lá não seria sangue o suficiente, por isso voltou, depois de testemunhar a morte de seus amigos.

Se por um lado isso justifica algumas conveniências, pelo outro cria um grande problema central. Se o objetivo da personagem era matar pessoas para a floresta, porque ela escolheu justamente suas chegadas? Vingança pura e simples? Mais que isso: se a intenção era matar, porque ela não preparou uma armadilha e agiu como se a maldição da floresta fosse uma surpresa para ela?

O plot twist não foi devidamente preparado e sequer foi potencializado pela cena inicial. Isso deixa A Maldição da Floresta com um saldo negativo, ainda que algumas de suas falhas sejam justificadas.

Além do que já fora citado, A Maldição da Floresta peca por não aproveitar as condições de sobrevivência para caprichar no drama. Entre os elementos subaproveitados estão a busca por água, comida e fogo.

Agora sobre algumas cenas estranhas:

A Stephanie foi soterrada por folhas magicamente, como se fosse incapaz de se mover, e sufocou? Como assim?

Se estando enlaçada na personagem a floresta conseguiu desmembrá-la, quer dizer que o tempo todo ela poderia usar esse tipo de força física? Como exatamente essa floresta age?

Sério que a babaca matou um urso? E aquela cena do urso correndo, claramente não emitindo aquele grunhido, foi patética. A cereja do bolo foi ela dizer que voltaria para pegar a desmembrada (ou talvez falasse de outra pessoa, o que ainda não faria sentido, já que todas morreram).

A Maldição da Floresta é um filme ruim em quase todos os sentidos, mas não é uma experiência de todo descartável. Se você estiver numa noite fria sem ter o que fazer, dá para assisti-lo sem ter vontade de bater a cabeça na parede depois.

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