Crítica | Ring — O Chamado (1998): a escolha errada

Ficha técnica no IMDb

Após a morte de Tomoko Oishi, uma repórter ouve histórias de um vídeo que mata quem o vê exatamente uma semana após assisti-lo e começa a investigar.

A cena inicial começa de um jeito meio bobo e, quando a garota conta sua experiência, a tensão cresce e há um suspense bom de verdade. Eu já estava animado, mas aí ela disse que foi apenas uma brincadeira.

Esse balde de água fria me irritou demais porque destruiu o que se desenhava como uma boa cena. Assim não posso deixar passar a dublagem ruim. A retomada do suspense depois já não tem o mesmo peso e acaba coroada com a ridícula imagem negativa, a qual me lembrou dos grandes finais de capítulo de Avenida Brasil.

Uma curiosidade é que, nessa cena, quando o telefone toca, eu pensei que fosse na minha casa. Foi uma sensação sinistra mais assustadora que muitos filmes famosos (cof cof Invocação do Mal cof cof).

A cena de abertura de Ring — O Chamado é uma boa síntese do que é o filme, o que não adiantarei para não dar spoiler da resenha. As cenas iniciais de filmes de terror costumam ser meras antecipações burras que tiram o peso do que ocorre de mais importante no longa, mas, em Ring — O Chamado, ela cumpre um papel deveras inteligente.

Uma necessidade comum em histórias fantasiosas é gastar um tempo introduzindo o universo fantástico ao personagem principal e, por tabela, ao público. Exemplos disso são os filmes de super-herói, Percy Jackson e o Ladrão de Raios e House of Night. Algumas vezes, tal trecho se torna chato e pouco relevante para a “verdadeira história” da obra (algo semelhante ao hospital de Massacre no Texas).

Na contramão destes exemplos, Ring — O Chamado usa a cena de abertura para introduzir o conceito místico e apresenta a Asakawa já investigando a lenda urbana da fita que em uma semana leva a morte que a assistir. Não gastar tempo com aleatoriedades prévias eleva o nível do filme e o torna mais agradável de assistir.

Por outro lado, Ring — O Chamado é, essencialmente, um filme de investigação, não de terror. Nele não há aqueles momentos espanta-tédio de criaturas atacando, assassinos em ação ou acidentes espetaculosos, os quais costumam servir para manter o interesse do público na obra. Por este motivo, Ring não é para qualquer um.

O ritmo lento do filme pode incomodar muito pessoas habituadas ao jeito mais frenético presente no cinema de terror. Um potencializador disso é a mania da internet de reduzir as obras a um determinado elemento muito chamativo (o que não necessariamente é culpa dos usuários).

Basta pesquisar “Ringu” e você é presenteado com o único take do rosto do vilão, o que possivelmente despertará uma expectativa incompatível com o teor do filme. Falo um pouco mais sobre isso na dobradinha artigo/vídeo Notas e o problema da crítica objetiva.

A lentidão, no entanto, me agradou muito. Fiquei tenso ao longo de todo o filme, o que também é mérito do hábil trabalho da trilha sonora, e me importei com o seu transcorrer.

O que poderia ser um ponto negativo é a conveniência das pistas sobrenaturais que vão esclarecendo a mitologia da trama, mas eu as vi positivamente, pois imaginei que o objetivo da Sadako (mencionada apenas com 1h de filme) fosse se libertar.

Se o fechamento de Ring — O Chamado acontecesse 10 minutos antes, este seria um ótimo filme de suspense. O problema é que, aos 45 do segundo tempo, o diretor decidiu jogar toda a investigação no lixo e revelar que, na verdade, tudo o que o casal fez foi irrelevante, pois a salvação da Asakawa foi mostrar o vídeo ao homem.

O problema central disso é quebrar a ótima estrutura temática que se desenvolvia, o que, por si só, devasta a qualidade da obra. É o motivo de eu ter muita raiva de Ring — O Chamado e O Chamado, seu irmão americano. Lamentavelmente, a escolha errada gera outros problemas.

O primeiro é a conveniência das pistas sobrenaturais que não levaram a lugar algum. O segundo é o bizarro método de resolução que se resume a copiar a fita e passar a outra pessoa. O último problema é o fato de ser uma fita.

Tal peculiaridade não foi explicada pela franquia O Chamado ou neste filme, ficando como um mero artifício de roteiro. Sem a reviravolta, a fita existiria como uma trilha de migalhas de pão deixada propositalmente pela Sadako.

Se a intenção do diretor era fazer um final trágico, ele podia ter dado uma intenção diferente para a Sadako. A procura por seu corpo, em vez de quebrar a maldição, a libertaria de amarras limitadoras de poder, o que não deixaria as pistas sobrenaturais despropositadas (O Chamado 3 fez isso, mas de um jeito meio errado).

Ademais, não vejo motivo para incluir o mecanismo da cópia da fita.

Apesar do caminho trágico que apontei, eu preferiria um final feliz, com a libertação da alma da Sadako e o consequente fim da maldição.

A história de Ring — O Chamado é bem interessante. Toda a dinâmica investigativa e o lado místico são envolventes, o que torna a experiência de acompanhar a trama bem gratificante. Por este motivo, apesar da escolha errada no final, considero Ring um bom filme, mas ele poderia ser ótimo.

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