Crítica | Amizade Desfeita 2 (2018): era só devolver o notebook

Ficha técnica no IMDb

Um jovem de 20 anos encontra arquivos ocultos na memória do seu novo laptop e, sem perceber, ele se vê preso na tela do computador e dentro da parte mais profunda e obscura da web.

Criatividade e execução técnica

Amizade Desfeita 2 usa o mesmo mecanismo narrativo do primeiro filme, o qual contava sua história a partir da perspectiva do computador, como se fosse uma gravação da tela. Essa opção técnica gera alguns pontos positivos e negativos.

O principal benefício do recurso é que, durante boa parte do filme, Amizade Desfeita 2 mostra a história em vez de contar. Eu senti como se observasse algo real, não um roteiro. Tudo na tela podia ser relevante e em vários momentos havia a audioconferência e mensagens no chat. Se eu me desconcentrasse, podia perder algo relevante. Aí está o poder de prender a atenção do espectador.

Eu conheço nada sobre o protagonista e tanto quanto ele sobre o vilão do filme. É particularmente satisfatório ver o quebra-cabeça ser montado com as revelações acerca do notebook e de seu proprietário original.

Outro ponto positivo é que, ao mesmo tempo, o filme apresenta o lado bom e o ruim do protagonista. Por mais que ele esteja usando um notebook de outra pessoa e o bisbilhotando, ele se esforçou para criar um meio de conseguir se comunicar com a namorada. A fuga do maniqueísmo costuma ser interessante.

Mais que isso, a namorada entrega um contra-argumento muito pertinente, apontando que o protagonista não quis fazer aulas de linguagem de sinais, pois ele não quer se esforçar para entendê-la, mas quer que ela o entenda. O tradutor de sinais foi usado como foreshadowing para uma certa atitude da namorada, mas a sequência dela no metrô não deixou de ser difícil de aceitar.

O mecanismo da tela do notebook é satisfatoriamente criativo e possui, entre as outras qualidades, momentos em que a trilha sonora é o que o protagonista está ouvindo no notebook. O problema é que algumas transições sonoras não fazem sentido. Há momentos em que o volume da audioconferência abaixa e aumenta sem razão aparente, além da conveniência.

Sem sentido também é o uso de alguns jumpscares. Na mesma pegada do terror, Amizade Desfeita 2 faz algumas cenas terem a imagem granulada ou borrada. Sim, interferência e falha de internet existem, mas não deixam de tornar tais cenas incômodas. Elas o são principalmente por parecerem servir exclusivamente à pretensa ambientação realista e à valorização do terror.

Ao melhor estilo creepypasta de tema “deep web”, Amizade Desfeita 2 aposta em alguns elementos de controle tecnológico, como que para denotar a elevada habilidade hacker dos vilões.

Para isso utilizou como meio de comunicação entre o protagonista e o vilão mensagens pretas no chat da Amaya no Facebook, as quais eram apagadas depois de algum tempo. As mensagens autodestrutivas no chat já eram um grande exagero, mas o recurso ficou patético com a cor preta. São “mensagens do mal”? Muito tosco.

Mais ou menos do mesmo jeito, os vídeos explicando como os vilões chegaram aos amigos foram interessantes, a princípio, mas o estilo remix acabou ficando forçado. Na ótima sacada da ligação para a emergência até funcionou, mas o uso seguinte foi demoradamente chato e sequer fez sentido.

O clichê das creepypastas de os vilões conseguirem fazer tudo de forma sorrateira e praticamente mágica é passável ao longo da experiência de assistir ao filme, ainda que seja um defeito. O problema foi uma limitação que colocaram na capacidade do vilão de ouvir os amigos.

O vilão captava o áudio da audioconferência a partir da conexão com a internet do celular da Amaya. Como ela estava no metrô, de tempos em tempos a conexão caía e o vilão não podia ouvi-los. O ponto é que pensar isso é ilógico, afinal, diante de tudo o que os vilões fizeram, era provável que eles pudessem captar o áudio diretamente do notebook.

Nessa sequência do metrô há um teatrinho que me leva ao próximo tópico.

Protagonista burro e tempo perdido

Quando o protagonista chegou muito longe em sua empreitada, o vilão disse que se alguém desconectasse da chamada ou chamasse a polícia as coisas iriam azedar. Em vez de explicar isso aos amigos, o protagonista começou a fingir que toda aquela história macabra era um jogo de realidade alternativa criado por ele.

O fingimento dele é constrangedor e não faz o mínimo sentido, até porque seria mais fácil contar com a colaboração dos amigos deixando claro as circunstâncias em que eles se encontram. Como o vilão não pediu para ele fingir que era um jogo, todo o trecho de Amizade Desfeita 2 que compreende esse teatrinho é uma grande perda de tempo.

Mais ao final, a sequência do metrô usa esse teatrinho desnecessário para criar a tensão de o vilão descobrir que eles sabem. Usar a tensão de o vilão descobrir o plano deles, por si só, já era o suficiente. Além disso, a premissa de que a Amaya aceitou ficar conectada o tempo todo no caminho é muito forçada, pois não há nada que justifique tal estranho pedido.

A desconfiança do teatrinho tem um momento particularmente furado. A personagem diz que encontrou a mulher de um dos vídeos estranhos e questiona como o protagonista teve acesso àquele vídeo. O problema é que não tinha como ela encontrar a mulher sem ter o endereço e, a não ser que ela tenha memória fotográfica, ela não teve tempo ou motivo para registrar aquele endereço específico.

Essa mesma personagem chama um policial próximo a ela usando o celular. O estranho é que, em vez de usar sutis mensagens de texto, ela liga, levanta e some do alcance da câmera, sem se importar com a desconfiança do vilão.

Um detalhe que me incomodou ao longo de todo o filme foi a burrice do protagonista. Para ele resolver a situação, bastava devolver o notebook ao vilão. Apenas isso. A princípio, ele ficou xeretando o Charon IV e até interagiu com pessoas no Facebook dele, algo completamente inaceitável.

Quando começou a descobrir as coisas estranhas, o Charon IV se dispôs a ir buscar o notebook no lugar onde o deixou, mas o protagonista não fez o menor esforço para devolver logo e evitar mais problemas.

Aí eu te pergunto: se o Charon IV sabia que o notebook estava no café, por que não foi lá buscar antes? Há um motivo. Um ótimo motivo.

Mais adiante, com a vida da Amaya nas mãos do vilão, o protagonista teve a estúpida ideia de sequestrar o dinheiro do vilão e exigir que ele libertasse também outra sequestrada. Por mais nobre que fosse sua intenção, a partir dali, era óbvio que ele não seria deixado vivo. Não era mais fácil ligar para a polícia?

Foi essa ação mal pensada do protagonista que alertou o bonde dos Charon e assinou a sentença de morte de todos os envolvidos, dos amigos ao próprio Charon IV. Ou será que não?

História boa e experiência ruim

A reviravolta de que tudo era apenas um teatro e que o objetivo do bonde dos Charon era colocar os crimes do Charon IV na conta do protagonista e de seus amigos é muito, muito boa. Toda essa história do vilão é bem interessante e o montar do quebra-cabeça é bem legal.

Só que essa história boa é estragada pelos defeitos de execução, pelas conveniências e pela burrice do protagonista, detalhes que acabam sabotando o ritmo e tornando Amizade Desfeita 2 uma experiência cinematográfica meia boca, na melhor das hipóteses.

Vale mencionar que os personagens além do protagonista e da Amaya são individualmente irrelevantes.

Por esses motivos, Amizade Desfeita 2: Dark Web é um filme interessante por seu método narrativo peculiar. Apenas isso.

Observação: o jogo dos Charon seria escolher se os amigos morreriam ou não? Acho estranho ter essa escolha, mas não havia mais o que pudesse ser encaixado na condição de “jogo”. Suponho que eles não planejaram tudo e foram tendo ideias conforme os personagens iam reagindo à situação. Me parece mais um filme interativo que um jogo (ou talvez uma creepypasta?).

Observação 2: se os Charon realmente deixaram de propósito o notebook para que o protagonista o pegasse e o usasse na noite de jogos, Amizade Desfeita 2 é muito pior do que eu pensava.

Observação 3: bem que podia ter uma legenda para a linguagem de sinais.

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