Crítica | Não Olhe (2018): depressão, aparências e o espelho

A Maria do espelho se chama Airam?

Ficha técnica no IMDb

Maria é uma garota tímida e reclusa de 18 anos de idade, alienada de seus pais e conhecida como uma pária por seus colegas do ensino médio. O seu único confidente é o próprio reflexo no espelho, a partir do qual ela deriva conforto e um sentimento de posse.

Não Olhe tem um problema técnico parecido com jumpscare. Para elevar a tensão, o filme deixa uma trilha sonora de suspense muito alta por tempo demais, a ponto de incomodar o espectador. Esse tipo de recurso mais atrapalha do que ajuda na imersão, pois afasta do que seria uma observação da realidade.

Outros dois elementos não são erros, mas me incomodaram. Um é a existência de flashs de parto, os quais fundamentam o problema psicológico da Amy, mas tornam óbvio o plot twist (certo, não o twist em si, mas a direção que ele seguiria). O segundo é a aparência da Maria.

Entendo que a intenção era fazê-la parecer doente, mas ela é exageradamente branca. Em certa cena ela chega até a ser azul. Não é porque faz sentido ou é pertinente para a narrativa que é bom para a experiência. Novamente, atacou a minha imersão. Não Olhe não leva a estrelinha da perfeição.

A Maria do lado de cá do espelho foi mostrada como uma pessoa problemática. Além de ser depressiva e cair no papo ridículo da Airam (sobre a Lily não ser uma boa amiga), ela ainda foi grosseira com a mãe, que só queria ajudá-la a se comportar como gente.

Certo, “gente” pode ser uma palavra ofensiva para quem leva esse estilo de vida. Embora essa fosse a perspectiva dos pais da Maria, a mãe tentava observar por outro ângulo, tentava ser legal. O pai sim era um babaca que tratava a Maria como se ela não tivesse um problema, mas sim fosse o problema.

A relação da Maria com a Lily é bem desenvolvida. Não há um grande problema, a Lily apenas leva a própria vida e tem ciúmes do namorado com a Maria, pois sabe que ela gosta dele. Mesmo o ato de deixar a Maria caindo no gelo não foi tão grave. A cena da patinação da vingança é especialmente boa.

A Airam se esforça para estar no nível da Lily e esta se esforça para conseguir ser superior. O duelo é bem legal e a perseguição é boa, embora me incomode a transição, pois a Lily não tinha motivo para ter medo da Maria. O desfecho com o acidente me agradou por ser natural, mas gerou um problema.

Apesar de a história contada pela Airam ser verdadeira, a polícia quis falar com ela e ela a evitou, sendo que não tinha nada a temer. Por quê? Indo além, por que a polícia queria falar com o novo namoradinho dela?

O final dessa excessivamente longa sequência amorosa de ambos é o maior problema de Não Olhe. A Airam não tinha absolutamente nenhum motivo para atacar o rapaz. Desde o início ela não inventa sentimentos, apenas potencializa os da Maria.

Por outro lado, a resolução com o Dan já é bem coerente. Ele foi mostrado como um homem muito apegado às aparências, fato comprovado pelo momento em que pede para a Maria que se maquie e pelas cenas de cirurgião plástico.

Em uma delas, ele projeta uma cirurgia nos seios de uma mulher (nudez com propósito é outro nível) e, na outra, explica o presente de aniversário de Maria: um conjunto de cirurgias para torná-la mais bonita.

Um dos benefícios dessa construção do Dan é a demonstração do sofrimento da Maria diante da superficialidade do pai. O outro é bem mais pesado.

Com os flashs do parto eu imaginei que a Airam seria uma gêmea natimorta ou que desapareceu misteriosamente, mas Não Olhe escolheu aliar a natureza do Dan a essa origem da Airam e nos brindou com uma excelente e assustadora escolha.

Seguindo a ordem estabelecida pelo filme, temos o bom fim da Lily, o mau fim do Sean, o bom fim do Dan e o mau fim da Amy. Este último não é um desfecho trágico. Na verdade, ele é até emocionante, a certo modo: uma filha triste buscando reconforto na mãe.

Só que antes disso, misteriosamente, a Maria havia sumido e Não Olhe decidiu fazer um jogo fotográfico para brincar com a ideia de a Maria e a Airam estarem ao mesmo tempo sendo reconfortadas pela Amy. Essa representação não explica o sumiço e não quer dizer nada, pois eu já sabia que elas eram irmãs. É, basicamente, uma cena inútil, o que faz Não Olhe terminar para baixo.

Não Olhe é um filme interessante com pontos fracos e um final borocoxô. É até uma experiência válida.

Observação: já mencionei a nudez, mas cabe ressaltar que Não Olhe tem uma cena de masturbação feminina com propósito narrativo. Num mundo de cenas como essa despropositadas, acho importante destacar quando ela é útil.

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