Crítica | Sadako ­– Capítulo Final (2019): ruim de todo jeito

Sadoko, a estranha

Ficha técnica no IMDb

Uma garota com amnésia é deixada sob os cuidados da psicóloga Mayu (Elaiza Ikeda). De interesse da polícia, nem todos sabem o motivo da garota estar ali. Quando seu irmão, um aspirante a youtuber em busca da fama, decide revisitar um site derrubado que causou a morte de cinco pessoas, as peças começam a se juntar e uma antiga maldição ressurge.

Antes de mais nada, a dublagem de Sadako ­– Capítulo Final é curiosa. Ao longo do filme eu me perguntava como chamaria a menina superpoderosa, pois ela não tem um nome definido. Poderia ser Sadako 2 ou Sadakinha. A piada (ruim) já estava na minha mente, quando a dublagem simplesmente inventou que a menina se chama Sadoko.

Na cena em que a mulher do hospital conta a história da Sadako, ela chama por esse nome tanto a mãe quanto a filha, sendo que no original apenas o nome da filha é dito. A dublagem errou muito feio nisso também. Depois de conferir essa questão do nome duplicado eu ouvi o final no idioma original e li a legenda em português. Ambos apontam para uma invenção bisonha da dublagem. Mas já que eles chamaram a menina de Sadoko, chamarei também.

A cena inicial é assustadora, mas um pouco arrastada. Ela apresenta explicitamente a Sadako e o conceito de reencarnação da vilã, o que, já de cara, se desconecta da mitologia inicial e se propõe a mostrar algo novo não exatamente relacionado ao que conhecemos. Esse tipo de intenção é algo que critico nas versões americanas, Ringu e Ringu 2, mas em Sadako ­– Capítulo Final é especialmente ruim devido ao problema mitológico que comentarei no fim do texto.

Outra cena arrastada é a do Kazuma investigando a casa incendiada. Ela praticamente não acrescenta informação alguma, servindo apenas para que a Mayu saiba que a Sadoko era deixada no armário. Outro elemento negativo é o flashback didático para explicitar tal dedução, o que foi desnecessário devido àquilo não ser um segredo para o público, mas sim para a personagem.

O pior momento de Sadako ­– Capítulo Final é quando a trama é interrompida pelo diálogo ridiculamente expositivo da interna com a Mayu. É como se o roteirista surgisse em cena e dissesse: “um momento, amigo. É hora de a protagonista entender a origem da Sadako do modo mais didático e sem graça possível, afinal, você meio que já conhece essa história que nós, basicamente, repetimos sem criatividade alguma”. É ruim demais perder tempo com o que eu já sei apenas para cumprir o protocolo de a personagem principal compreender a origem da maldição.

Não satisfeito, o roteiro ainda inseriu o diálogo expositivo da velha que surge do nada para explicar que a Sadako se alimenta da alma de crianças que foram mortas pelos pais.

Apesar desses momentos expositivos ruins, Sadako ­– Capítulo Final consegue transcorrer de modo agradável. A forma que o filme usou para guiar separadamente a Mayu e o Kazuma deu muita força ao enredo, solidificando-o enquanto uma história real, não apenas a materialização do que um roteirista escreveu.

O que me incomodava era que, embora eu gostasse dos irmãos protagonistas, estava demorando demais para um deles ver o vídeo da Sadako e ser amaldiçoado. Ocorre que Sadako ­– Capítulo Final sequer usa o recurso do vídeo que amaldiçoa quem vê. Existe um trechinho do vídeo, mas é quase um easter egg. Por esse motivo, ele mal parece ser um filme da Sadako. O funcionamento da tal maldição não chega nem perto de ser explicado.

O filme altera a história da Sadako e diz que ela foi abandonada pela mãe ainda bebê, sobreviveu e, devido a isso, obteve os poderes. Além de uma coisa não implicar na outra, contradiz o que o próprio filme expôs: que ela foi morta sendo jogada no poço. Muita coisa em Sadako ­– Capítulo Final é estranha.

Partindo para o final do filme, eu gosto da ideia de a resolução do conflito da Sadako se dar através da consolidação de um laço afetivo, que era o desfecho perfeito para Ringu e O Chamado. O problema é que não faz o mínimo sentido a Sadoko estar sendo morta pelos espíritos dos quais ela deveria se alimentar, como a Sadako. Sem contar a estranheza de ela estar no hospital e, ao mesmo tempo, em uma forma mais ou menos física na caverna.

Um detalhe que se destaca muito nas cenas finais é que o amigo do Kazuma é um imbecil. Primeiro ele ficou gritando com o Kazuma e jogando luz no rosto dele sendo que ele estava aparentemente em estado de confusão dentro de uma caverna, depois ele apenas olhou enquanto o amigo era levado pela Sadako e ainda teve a pachorra de tentar impedir a Mayu de ajudá-lo. Oras bolas, a Sadako estava bem ali, sem oferecer risco algum. O que custava tentar dar uma porrada nela, pegar o Kazuma e fugir? Detestáveis as atitudes dele.

O plot de Sadako ­– Capítulo Final se resume à busca pelo Kazuma e eles terminam desistindo de salvá-lo. Impressionantemente ruim.

Resumo da ópera: além de não impedir a Sadako de levar o Kazuma, a Mayu se colocou em posição de ser marcada pela vilã e foi morta, num jumpscare absurdamente tosco.

Sadako ­– Capítulo Final carrega diálogos expositivos toscos que movem a trama da Sadako sem levá-la a algum lugar concreto. Não parece que passamos do ponto A ao ponto B. Considerando o que já sabíamos sobre a Sadako, é como se andássemos em círculos com alguns detalhes novos, como a Sadako se alimentar da alma de crianças mortas pelos pais. Se o acréscimo é torto, então ele é pior do que apenas repetir tudo.

Em suma, o lado mais Sadako da história importa muito pouco e não convence em diversão, pois os marcadores da aventura (a Sadako no vídeo do Kazuma e os crânios) não são eficientes e o desfecho dela é irritantemente insatisfatório. O que parecia promissor, que é a história de Sadoko, foi deixado de lado.

O filme flertou com a possibilidade de desenvolvê-la sob uma atmosfera de rejeição, bullying e descoberta sobrenatural, mas preferiu colocá-la como uma mera princesa no alto da torre. A franquia Ring sempre toma decisões equivocadas em relação a qual caminho seguir. Digo isso, no caso de Sadako ­– Capítulo Final, principalmente como um apreciador da franquia Carrie, a Estranha.

Adendo mitológico: a Sadako que a mulher do hospital mencionou provavelmente não era a original, considerando que foi algo razoavelmente recente. Também não era a Sadoko, pois seria recente demais, então quem era? Por acaso a história da Sadako vai se repetindo com garotas cujo nome se parece com o dela?

Até a ideia de reencarnação não se aplica, pois a Sadako continuou existindo paralelamente à Sadoko. O filme só jogou as ideias e deixou por isso mesmo. Qual exatamente era a da Sadako? Os personagens falaram em maldição, mas nada foi esclarecido e não pareceu haver método. Uma vítima não tinha motivo para sê-lo e não há um conectivo forte entre o Kazuma e a Sadako. Em outras palavras, não vi justificativa razoável para ela caçar ele e, principalmente, para ele entrar naquela bendita caverna (onde ficou por tempo indefinido).

O terror da Sadako em si é bom, muito em função dos eficientes momentos de demonstração do poder da Sadoko. Pena que esses pequenos pontos positivos se perdem em um mar de coisas estranhas, coisas ruins e coisas insuficientemente explicadas.

Sadako ­– Capítulo Final é um filme ruim. Ele não é um capítulo final nem uma continuação da franquia. Nisso ele se assemelha ao O Chamado 3, o qual eu considero ruim. Pelo menos O Chamado 3 tem a decência de funcionar enquanto filme isolado – ou talvez nem tanto.

Observação: o Kazuma foi para a ilha de propósito? Por quê? A Sadako levou ele para lá? Por quê?

Um comentário

  1. Cara, esse é um dos piores filmes da franquia (talvez o pior).

    Mais lento do que o habitual, história bizarra e cheias de furos como você indicou no texto, ele acha que o espectador é burro, explicando coisas óbvias com imagens e tudo e nem sequer assusta.
    A única coisa boa é que a atriz principal é gata, kkkk.

    Curtido por 1 pessoa

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