Crítica | Naruto — O País das Ondas

Quando uma pessoa tem algo importante para proteger, é aí que ela pode se tornar realmente forte

Este é o segundo post da série de críticas do mangá de Naruto. O primeiro tratou do arco introdutório e o de hoje avalia o arco do País das Ondas.

O início mostra uma missão do time 7. Existe uma quebra de expectativa interessante, pois o leitor tem a impressão de ser um confronto ninja furtivo, quando, na verdade, é apenas a captura de um gato perdido.

Isso funciona muito bem como humor, sem precisar ser bobo ou escrachado, característica que me agradou. Destaco um quadro que tem o Sasuke de pé, aparentemente sem braços e ele está muito mal desenhado. Parece até um triângulo.

A demonstração prática do funcionamento do mundo ninja, com missões de diferentes níveis e pagamento pelo cumprimento delas, é bem eficiente, mas o Kishimoto tornou tudo pessimamente expositivo. O PowerPoint pode ser cortado sem prejuízo para a compreensão da hierarquia.

O Hokage pareceu reagir ao pedido do Naruto por missões mais avançadas, mas Tazuna, o construtor de pontes, já estava lá, então o Hokage pretendia desde o começo passar essa missão ao time 7? Soa estranho também porque eles só fizeram uma missão em tela, então isso parece afobação por parte do Hokage.

O Tazuna é um velho bebum, chato e burro, pois esculacha as pessoas que ele mesmo está pagando para protegê-lo. Pior que isso, ele escondeu que era alvo de ninjas. Isso que é autossabotagem.

Um detalhe curioso é que tem uma página entre os capítulos que explica a divisão do mundo e o nome dos kages. Pelo que me lembro, o anime incorporou isso ao episódio. Nessas páginas não há problema em usar os slides expositivos.

O quadro em que o ninja da névoa lança o outro ninja não parece anatomicamente correto. A arte do Kishimoto claramente melhorou com o tempo. A quadrinização da luta é meio estranha, embora ela seja bem legal. Achei um erro ele não mostrar a mão do Naruto sendo atingida pela garra. A troca de foco para o núcleo do vilão foi brusca e desnecessária também.

O Sasuke mostrou sua grande habilidade e a Sakura foi corajosa o suficiente para se colocar entre o ninja e o Tazuna. Por outro lado, o Naruto simplesmente congelou e ficou olhando enquanto tudo acontecia e tanto ele quanto Tazuna estavam em perigo.

Essa falha do nosso herói propiciou o grande momento em que o Sasuke o chama de medroso. Esse é o gancho para um dos melhores momentos de Naruto Clássico, o qual ocorre mais para frente.

É comum em animes os personagens explicarem o que não deviam explicar para que o leitor compreenda, mas aqui o Kakashi explica ao ninja da névoa que ele percebeu sua presença devido ao fato de uma poça d’água não ser natural naquele lugar. Aí passa dos limites, porque é como ajudar o inimigo a ser mais eficiente. É inaceitável.

A cena do Naruto enfiando a kunai na mão é bem legal. Além de resolver o interessante e pertinente problema do veneno, essa ação serviu como momento de virada para o Naruto. Ele não permitiria que aquela situação ocorresse novamente. E, de fato, não permitiu.

Outro elemento advindo da cena da kunai é o conceito da recuperação acelerada que o Naruto tem por causa do poder da Kyuubi.

Uma coisa que detesto é quando o autor usa um flashback para mostrar algo que poderia ser mostrado sem esse recurso. No fim de um capítulo o Tazuna diz ao Kakashi que precisam conversar, aí no começo do outro eles já estão chegando ao País das Ondas e a conversa é revelada ao público via flashback. Qual a necessidade disso?

Nesse flashback conhecemos o vilão Gatou, um magnata mafioso que monopolizou o comércio no País das Ondas. É o vilão mais ninja do mangá inteiro, junto com o inimigo que foi apresentado em seguida: Zabuza Momochi, o demônio do gás oculto. Tá certo que usar uma espada gigante não é bem ninja, mas sendo um mercenário, eu aceito.

Na luta dele com o Kakashi conhecemos também o Sharingan: uma habilidade ocular de observação e hipnose que aparece apenas em alguns membros do clã Uchiha. Bom seria se continuasse sendo apenas isso, em vez do olho que tudo vê, tudo pode e tudo sabe que ele se tornou.

A pressão espiritual do Zabuza e do Kakashi é tão forte que o Sasuke prefere morrer do que continuar com aquela sensação de impotência. Esse mecanismo do poder que intimida só aparece de novo com o Orochimaru na Floresta da Morte e no encontro do Kakashi com o Orochimaru, mas é interessante por explicitar a escala de poder.

A luta tem todo um belo jogo de enganação e armadilhas que culmina na captura do Kakashi. Então, o Naruto decidiu não fugir. Acho que o Kishimoto exagerou na quantidade de flashbacks, mas a cena é emocionante e é impagável ver o Naruto dizer para o Sasuke ouvir o plano dele. A reação do Sasuke foi um certo desdém e a Sakura pareceu ter uma quedinha pelo Naruto.

Gosto da história do exame final da névoa sangrenta. Enquanto na Folha era necessário apenas fazer um clone, na Névoa era necessário vencer batalhas até a morte. É um dos momentos que nos lembra de que, apesar do bom humor observado na vida do Naruto, o mundo ninja é um lugar ruim. O problema é a forçação de barra de o Kakashi e o Zabuza começarem a contar história feito dois caras numa mesa de bar. Esse recurso de parar para conversar se tornaria uma constante no mangá.

O plano do Naruto e do Sasuke contra o Zabuza é um espetáculo. É o plano do Naruto transformado dentro do plano da segunda shuriken na sombra da primeira. É inteligente, é legal e é ninja, pois trabalha a enganação. O que me incomoda é que o Naruto passa tempo demais no ar entre o lançamento da kunai e o giro do Zabuza com a shuriken. O diálogo expositivo do Naruto sobre o plano foi ridículo demais.

Aí o Kakashi mostrou o motivo de ser chamado de ninja copiador. Ele imitou o Zabuza e usou o jutsu do Zabuza antes dele mesmo. Foi uma boa demonstração de poder e fez ele parecer muito superior ao adversário.

Considerando a hábil construção de mundo do Kishimoto, o surgimento do caçador ninja da Névoa foi aceitável e dava para engolir sem problemas a perspectiva de que ele queria dar um fim ao Zabuza.

Quando o Haku vai tratar o corpo do Zabuza, existe uma expectativa de que ele seja quem diz ser, aí o Zabuza pega o pulso dele fazendo cara de demônio, como num jumpscare. Entendo, mas desgosto. Acho particularmente interessante o método de batalha com agulhas usado pelo Haku. Adiciona complexidade à percepção das lutas do mundo ninja.

Enquanto o Konohamaru era o moleque otimista, o Inari é o moleque pessimista. Por rapidamente vermos o choro dele no quarto, não há tempo para o público interpretá-lo como um arquétipo de criança irritante. Assim, o Inari se torna surpreendentemente interessante.

Gosto de arcos de treino porque é bom ver como os personagens evoluem, ficam mais fortes. Pena que o Kishimoto fez o inaceitável: o Naruto disse que não sabia o que era chakra e rolou um diálogo expositivo com PowerPoint didático. Duplamente ruim.

O conceito do treino é ótimo. Subir em árvores exige habilidade com o controle do chakra e controlar bem o chakra maximiza o desempenho do ninja em batalha. Não basta ter muito poder, é preciso saber usá-lo. O Naruto usou chakra de menos, o Sasuke usou chakra demais e a nossa inútil número 1 conseguiu subir bem na árvore de primeira.

Depois de vermos apenas Naruto e Sasuke se destacarem por suas habilidades, enfim a Sakura mostra algo de relevante. O que podemos esperar a partir disso é que ela use jutsus com grande eficiência e seja peça fundamental nas batalhas, pois, aparentemente, ela domina fundamentos teóricos e práticos, faltando apenas um espírito mais aguerrido e maduro. Tudo isso, infelizmente, acabou nas preliminares do Exame Chunin, mas isso é papo para outro dia.

A cena em que o Haku humilha os guarda-costas do Gatou com sua velocidade é empolgante e a expressão assustadora dele coroa tudo, mas eu gostaria de destacar as relações de velocidade na obra. O Haku que os humilhou foi acompanhado pelo Sasuke que foi incapaz de reagir à velocidade do Rock Lee com os pesos.

Se o Sasuke em 1 mês de treino conseguiu alcançar a velocidade do Lee, então esse nível não deve ser grande coisa. Logo, o Haku era um ninja meia boca. Minha dúvida é: o Gatou era um dos homens mais ricos do mundo e não contratou guarda-costas do nível de um chunin para cima?

Me incomoda demais essa reflexão, devido à constatação de que o Haku não era tão forte quanto parecia.

O País das Ondas é um arco marcado pelo sofrimento daquele povo. A sequência da Sakura visitando o mercado, vendo a miséria e sofrendo uma tentativa de furto exemplificam isso. O flashback do pai do Inari também. Ele foi um herói que trouxe esperança a todos e foi morto pelo Gatou, enterrando o mesmo sentimento que evocou. É triste e é muito bom.

Bom também é o discurso do Kakashi para o Inari, sobre o Naruto ser um pouco duro às vezes. Ele é uma lição sobre encarar as adversidades da vida sem sucumbir diante delas, mas escalando-as rumo ao objetivo que se almeja.

No treino de subir em árvores o desprezo do Sasuke pelo Naruto se transformou em uma rivalidade mais saudável. Claro que existe o desejo dele de reafirmar sua superioridade, mas é algo construtivo para ambos.

Detalhe irrelevante nunca mais referenciado: o Haku faz selos de mão com uma única mão. A luta dele com o Sasuke demonstra os benefícios do treino e funciona bem, mas o jogo vira quando o Haku faz o jutsu dos espelhos.

É automático endossar a afirmação do Sasuke sobre o Naruto ser burro de entrar na área dos espelhos, mas é preciso levar em conta que ele não sabia a natureza do jutsu. Por outro lado, o tapado do Sasuke ficou parado lá dentro enquanto o Naruto distraía o Haku. Por que raios ele não saiu, aproveitou a brecha e atacou o inimigo sabidamente equivalente a ele em velocidade?

Ele lutou bravamente, mas caiu voluntariamente na armadilha do Haku e foi derrotado. Ele se sacrificou para salvar o Naruto, num momento emocionante. O resultado foi que a tristeza e a fúria do Naruto despertaram o chakra vermelho. O que veio depois foi uma senhora surra do Naruto no Haku, que é uma sequência muito boa.

O papo dos dois também é muito bom. O Haku é um Naruto que deu errado. Aquele que o salvou da dor foi um mercenário que queria seu poder, não um professor amoroso que entendia seu sofrimento. Viver sem um propósito é a mesma coisa que estar morto.

Olhando agora, percebo que o Gaara já foi uma repetição da ideia de um vilão que é ‘o Naruto que deu errado’. No País das Ondas é excelente, mas a cada requentada o sabor piorava.

Zabuza anulou a visão e a audição, então Kakashi usou o olfato de seus cães para conseguir golpear o adversário. Bem legal, interessante e criativo, além de evidenciar que o ninja copiador se deixou ser atingido para impregnar o Zabuza com seu sangue e, consequentemente, com seu cheiro. O desfecho com a morte do Haku é muito bom e pesado, pois eu aprendi a gostar do personagem.

Com isso, a sequência da chegada do Gatou e o fim do arco têm um jeitão de epílogo. É lindo ver que o Naruto devolveu esperança ao Inari, que restaurou a esperança do povo. A morte de um herói os devastou, mas o nascimento de dois novos heróis os reviveu.

Um ponto muito positivo do País das Ondas é que ele consegue ser épico sem ser excessivamente grandioso. A luta do Naruto contra o Haku, o desfecho do Kakashi com o Zabuza e a aparição do Gatou têm todo um clima de fim de história empolgante e satisfatório. Ler esse arco dá uma sensação muito agradável.

O arco do País das Ondas é muito bom. Ele é consistente, tem uma história muito boa, um drama comovente, personagens cativantes, um vilão significativo para o herói, boas lutas e uma ambientação extremamente ninja, como nunca mais Naruto seria.

Mais que isso, nesse arco o Naruto e o Sasuke se tratam de forma mais próxima, apesar das rusgas, e vivem o único momento de amizade da obra inteira. Fica claro que a tal amizade que eles mencionam ao longo do mangá praticamente não existiu.

Tudo no País das Ondas foi bem dosado e ele apresentou ao público o conceito do chakra vermelho. Considerando seus numerosos acertos, sua estupenda estrutura temática e a eficiente estrutura narrativa, é justo dizer que esse arco é excelente.

Geralmente eu digo por brincadeira que ele é o melhor arco de Naruto, mas, depois desta análise, me parece bem provável que de fato ele o seja.

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