Crítica | Little Joe (2019): um apocalipse floral

Ficha técnica no IMDb

Little Joe é um título muito bom. Ele passa a impressão de ser uma história de mãe e filho e, até certo ponto, o é, no entanto, seu enredo vai além. Tudo gira em torno da planta Little Joe, o grande vilão do filme.

Alice (Emily Beecham) é uma jovem mãe solo e uma dedicada criadora de plantas em uma empresa focada em desenvolver novas espécies. Ela é responsável por criar uma flor que não só é bela, mas também tem incríveis habilidades terapêuticas. Se bem cuidada, a planta deixa seu dono feliz. Quando Alice desobedece regras da empresa e leva uma das flores para seu filho, ela começa a perceber que sua criação pode não ser tão benévola quanto parece.

Eu tive um problema com dois aspectos de Little Joe: a fotografia/edição e a trilha sonora. O enquadramento de câmera por várias vezes não mostra a ação, como se não estivesse acompanhando o desenrolar da cena. Há tantos efeitos de deslize lateral e zoom que parece que o editor teve a seguinte ordem: não deixar a imagem parada. Isto se repete o suficiente para afetar minha imersão na história.

Já a trilha sonora é pior. Ela destoa completamente do tipo de tensão provocada pelo roteiro e cria um ambiente de slasher (subgênero do terror no qual um assassino persegue os personagens), como se eu devesse esperar por um assassino sair das sombras e atacar alguém. A trilha é ruim e não funcionaria num slasher, quase conseguindo estragar Little Joe em vários momentos.

Ainda sobre a parte técnica, o elenco é competente, mas preciso destacar o Kit Connor e a Jessie Mae Alonzo, que interpretam o Joe e a Selma. Eles são extremamente assustadores e passam a impressão de serem entidades superpoderosas brincando com um humano ingênuo. Isto é o mal.

O roteiro de Little Joe é primoroso. Ele trabalha com a própria mitologia de forma espiralada. Conforme o filme avança, mais pessoas são afetadas pelo pólen e mais assustador o mundo fica, enquanto a Alice está de mãos atadas, afinal, o que ela poderia fazer?

Alice sabia que as pessoas estavam estranhas, mas elas não cometeriam crimes para serem legitimamente detidas pela força. Eles eram zumbis que não estavam mortos, então, legalmente, seria impossível detê-los. Isto justifica o fato de a Alice não ter um plano de ação. Sua medida mais enérgica acabou sendo impedida de um modo violento e sela seu arco de personagem.

Little Joe é um vilão excelente. Sua estrutura genética foi alterada para que não pudesse se reproduzir, evitando assim que ele se espalhasse pela natureza sem controle. Para possibilitar a sobrevivência da espécie, Little Joe encontrou uma maneira de, por meio de seu pólen, transformar seres vivos em guardiões.

Os guardiões são humanos vazios, meras cascas que fingem ser algo além do que são: aqueles que garantirão a sobrevivência do Little Joe. Gradativamente, o filme monta o tamanho do império da planta e apresenta o desafio como quase insuperável. Mesmo que todos os exemplares fossem destruídos, provavelmente algum dos cientistas o faria de novo, uma vez que estavam “enfeitiçados”.

Little Joe não é um filme com final feliz. Com o uso da força bruta, os enfeitiçados eliminaram os cientistas que eram um obstáculo. Pensei que a Alice estava fingindo, mas, felizmente, o roteiro de Little Joe foi coeso e não deu a ela uma saída mirabolante. Little Joe venceu.

Little Joe é um filme coerente e corajoso o suficiente para, ao final, pintar um mundo em que a protagonista perde e o caminho está livre para um apocalipse floral. Não é tão gráfico quanto um apocalipse zumbi, mas, extinguiria da humanidade o que os torna, de fato, humanos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s