Crítica | Cubo Zero (2004): bom, mas não tão Cubo

Não, não é o início de tudo

Um dos homens que monitora as salas do cubo em que prisioneiros desafiam uma série de armadilhas mortais, se sente culpado e decide ajudar uma mulher inocente que está presa no jogo.

Depois do fantasticamente bom Cubo e do fantasticamente ruim Hipercubo, Cubo Zero veio com a proposta de revelar mais sobre os bastidores da história, o lado de fora do cubo. Certamente essa tentativa não era necessária, pois a franquia estava funcionando sem problema com essa parte mais explicativa.

Ser desnecessário não torna um filme ruim, mas prejudica a experiência e uma experiência prejudicada é um ponto negativo. É interessante focar no filme individualmente, mas é fato que sequências podem ser boas individualmente e ruins considerando a franquia.

A cena inicial é assustadora e até bem pensada, pelo entendimento de que o ácido é água, mas achei o efeito especial meio tosco, talvez exagerado. Como de costume, esse terror de abertura mina a possibilidade de o terror ser uma surpresa, o que já torna o filme inferior ao que ele poderia ser.

Do lado de fora do cubo, nós temos a dupla Eric e Dodd. Eric é o gênio novato que joga xadrez sem olhar o tabuleiro, enquanto Dodd é o técnico sênior. A função deles é fazer o jogo do cubo girar. Só o que eles sabem é que os jogadores são condenados e não se lembram da vida antes de se tornarem vigias do cubo. Aparentemente eles têm razões para suspeitar que os outros vigiar desaparecidos foram mortos pelos superiores.

Faz sentido o Eric desgostar da participação da Cassandra, que não consentiu com o jogo. A evolução dessa preocupação dele é orgânica e eu aceitaria se ele sabotasse o cubo para ajudá-la. O problema é que ele decide entrar no cubo e ajudar os participantes pelo lado de dentro.

A experiência com o cubo e a inteligência sabiamente demonstrada com o xadrez criam as condições necessárias para que o grupo enfrente os enigmas e avance, mas não há uma ligação muito convincente entre a preocupação do Eric e a entrada no cubo. Até porque, se ele sabia que a sala de controle ativa armadilhas, sair dela tirava uma gigantesca vantagem dele.

Por outro lado, o filme conseguiu construir bem a relação do Dodd com o Eric e o nível baixo, porém existente, de sua sensibilidade, o que fez a interferência dele me importar mais e ter mais sentido. Lamentei também o destino que o acometeu.

Do lado de dentro do cubo, temos uma porção de personagens individualmente irrelevantes e a Cassandra. Ela é apresentada com o Eric observando os sonhos dela. Ou seriam memórias? Ambas as opções contêm o mesmo problema: por que a visão dela é em terceira pessoa e não em primeira pessoa? Não faz sentido.

A Cassandra é uma mulher pirada e desprezível. Ela chegou e cuspiu no homem apenas por ele provavelmente ser um soldado. Muito me admira ele não ter dado um belo soco no nariz dela. Mais tarde, ela zomba do posicionamento do Eric sobre “apenas cumprir ordens” e ainda ameaçou bater nele para descobrir onde estava a filha, sendo que ele não era um inimigo.

Sobre a Jellico, acho legal a ideia da decomposição lenta e associei à armadilha inicial de Cubo Zero, mas por que ela arranhou o Meyerhold? Mais que isso, por que o Meyerhold a deixou praticamente beijá-lo?

Acho questionável a reação do homem. O lógico seria ele querer sair rápido do cubo, antes do Meyerhold piorar, não supor que era um vírus contagioso e eliminar o possível contaminador. Esse personagem acabou sendo descartado para se tornar o clichê da vítima que vitima outras vítimas.

Inclusive, ele é controlado mentalmente, tem olhos verdes e dá um… super pulo? A tosquice foi longe demais.

Se o controle central conseguiu ativar armadilhas em todas as salas adjacentes, porque não o fez na sala em que os personagens estavam desde o momento em que encontraram o Eric? Mais que isso, qual a necessidade de matar o Eric se ele também é uma cobaia? Seria um teste altamente específico para o Dodd? Esse lado da trama é no mínimo confuso.

Depois do que o próprio filme construiu como (interessante) desafio final, o Eric encontrou uma saída alternativa sem perguntas. Não foi convincente. Daí a Cassandra se salva e não descobrimos o que aconteceu com a filha dela. Isso era uma informação importante para mim. O desfecho de um personagem principal (ou quase) não pode ser tão qualquer coisa.

Já o final do Eric foi surpreendentemente interessante. Ele sofreu um procedimento cerebral e foi devolvido ao cubo, se tornando o retardado do Cubo. É um link inteligente que transforma Cubo Zero, de fato, num filme conectado ao original. Eu não exigia isso, mas há o efeito colateral positivo de fortalecer o desfecho de Cubo (além de mais ou menos embasar a super inteligência do retardado).

Passado o transcorrer da trama, há a parte mitológica da franquia e do próprio filme. É dito que todos os envolvidos consentiram e eram condenados, mas o Eric não encontrou o consentimento da Cassandra.

Era uma farsa total ou apenas a Cassandra foi pega injustamente? É o tipo de informação necessária para compreender a história. Deixar isso em aberto está mais próximo de ser um erro do que de ser um acerto.

Por mais que o motivo para a escolha seja parte fundamental de filmes do subgênero “pessoas presas num lugar”, o fato de a relação ser feita por personagens de fora do grupo a enfraquece muito.

Diferente do resto da franquia, em Cubo Zero o grupo do cubo é bem pouco importante ou interessante, o que conta como ponto negativo.

Neste filme conhecemos o desafio final para sair do cubo. Depois de decifrar todo o enigma de coordenadas, é preciso responder duas perguntas: qual é o seu nome e se você acredita em Deus (é preciso acertar o nome e dizer sim). Achei isso bobo e reducionista. É muito pouco para um enigma anterior tão complexo.

Aí chegamos ao objetivo do cubo. Apesar de possivelmente usar condenados, ele não é uma prisão, então precisa ter alguma lógica para ele existir. Testar armas não faz sentido, pois não é um cenário que se encontraria no mundo real.

Seria um experimento social? Essa saída é a mais provável, mas é muito absurda. Saber a reação das pessoas a estar no cubo e vigiar o cubo levaria a concluir o quê? A ideia era testar a força da fé diante de adversidades?

Legal a intenção de justificar o cubo, mas essa explicação não fecha.

Cubo Zero é um filme bacaninha, passável. Não é bom como Cubo, mas não é ruim como Hipercubo. Ele vai bem na dupla de vigias, vai mal no grupo do cubo e é insatisfatório em suas explicações.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s