Crítica | A Bruxa de Blair (1999): a origem da desgraça

Três estudantes de cinema embrenham-se nas matas do estado de Maryland para fazer um documentário sobre a lenda da bruxa de Blair e desaparecem misteriosamente. Um ano depois, uma sacola cheia de rolos de filmes e fitas de vídeo é encontrada na mata.

1999 foi um ano interessante para o cinema. Foi quando vieram ao mundo os incríveis O Sexto Sentido, Matrix e Clube da Luta. Estas obras foram um marco e possuem qualidade indiscutível. Outro filme que saiu em 1999 foi A Bruxa de Blair, que custou dois pastéis e um caldo de cana para cada ator e rendeu o equivalente à fortuna do Tio Patinhas.

Assim como o muito bom Operação Dragão é popularmente conhecido como o início do cinema de artes marciais e o horroroso O Massacre da Serra Elétrica é o pioneiro dos slashers, A Bruxa de Blair trouxe ao mundo um estilo de filme intimista e aparentemente amador: o found footage.

Convencionou-se chamar de found footage todos os filmes que usam câmera de mão, mesmo que eles não se tratem como um filme perdido. Esse subgênero do terror carrega, geralmente, dois defeitos: o uso de jumpscares (algo muito comum no século XXI) e a falta de motivo para que os personagens sigam com a câmera ligada.

Como ferrenho crítico do uso do found footage, eu fui assistir A Bruxa de Blair esperando por um filme ruim, como comumente taxo o uso do recurso da câmera de mão. Tive uma grata surpresa com este suposto pioneiro.

O início do filme o trata como uma filmagem perdida e diz que três jovens sumiram, o que já entrega que não haverá sobreviventes. Isto é detestável do ponto de vista da empatia, pois é difícil ligar para personagens cujo desfecho não é uma dúvida para mim. Por outro lado, A Bruxa de Blair deixa claro que seu propósito não é ser uma narrativa com começo, meio e fim, o que o salva de muitas críticas negativas.

A Bruxa de Blair é um filme muito arrastado e potencialmente chato, especialmente no começo, quando o documentário está coletando informações. As pessoas dizem coisas e eu não sei se essas falas são relevantes ou não. Mesmo sabendo que essa é a ideia, eu não pude deixar de querer que a história chegasse logo a um ponto e se desenvolvesse.

A chegada à floresta marca o início da história em si, mas ela é gradativa a ponto de ser chata. Os personagens seguem organicamente indo para cá e para lá e aos poucos a situação vai ficando estranha. Entre o “sabemos onde estamos” e o “estamos perdidos” há um período cinzento de desconfiança, no qual ficamos em dúvida sobre a Heather saber ou não onde estão.

Esse conjunto dos três momentos é muito bom porque permite que eu ache chato, não me desconecte do filme e veja a história avançar. Isso combina com o terror do filme, que é empregado via sugestão.

Não há monstros ou jumpscares, apenas símbolos, conjuntos de pedras, vozes de crianças e ruídos. O ponto positivo da câmera de mão é que ela nos aproxima dos personagens, fomentando uma perspectiva em primeira pessoa. O que eles sabem é o que nós sabemos: pouco e assustador. Assustaria mais se eu não soubesse que a filmagem é de jovens desaparecidos.

Estes aspectos levam a uma aparente falta de explicação. Não conhecemos com exatidão a natureza do sobrenatural nem quanto do que o povo diz é verdade. Neste cenário, o desfecho incompleto de A Bruxa de Blair é coerente, mesmo que eu não goste. Não é uma narrativa com começo, meio e fim (ainda que os tenha), é a jornada daquele trio de personagens. Acabou a jornada, acabou o filme. Simples assim.

O problema padrão do subgênero (por que filmar?) existe aqui, mas há uma ligeira justificativa. A Heather insistia em filmar porque se agarrava ao documentário como uma ilha de tranquilidade num mar de desespero. É uma justificativa meia boca, mas passável.

O desenrolar da interação dos personagens é bom, entre momentos tensos e momentos tranquilos, como pessoas normais. Grupos bons são os que têm atrito, pois se tornam orgânicos e tridimensionais (coisa que o Snyder Cut não tem e o Liga da Justiça tem de sobra).

Questões problemáticas de sobrevivência: o filme evitou demais explorar a fome, a sede e a redução da bateria das câmeras.

Em geral, é tudo satisfatório com toques de alta qualidade. O pior detalhe é o ato de se livrar do mapa, o qual não foi justificado e não era necessário para os personagens se manterem perdidos.

A Bruxa de Blair é um filme chato e pode frustrar quem assisti-lo, mas a incompletude não é um defeito, considerando sua natureza e o que objetivava. Há diferença entre o que é ruim e o que eu não gosto.

Por mais que eu deteste o subgênero found footage, A Bruxa de Blair é um bom filme.

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