Crítica | Cubo 2 — Hipercubo (2003): a burrice no final

Oito pessoas comuns acordam em uma sala aparentemente normal com quatro saídas que, a princípio, parecem idênticas. À medida que vão circulando por este cubo quadridimensional, eles descobrem salas com diferentes tempos e velocidades, e outras com armadilhas mortais. O que eles não sabem é que apenas uma pessoa poderá escapar com vida e descobrir as respostas do hipercubo.

Na resenha do Cubo Zero eu disse que Hipercubo é fantasticamente ruim, e isso se deve ao fato de eu tê-lo assistido após ver o original. Esse sabor amargo da experiência foi revertido, pois, desta vez, assisti na ordem contrária. O resultado foi que achei Hipercubo um filme bem competente (até certo ponto).

As cenas iniciais, antes de a protagonista ser introduzida, dão a entender que há o envolvimento de militares ou cientistas no enredo do filme. Isto já é sensivelmente diferente de Cubo, pois lá imperava o desconhecimento acerca do propósito do cubo.

Escrevi esta crítica antes de rever Cubo e digo isto acreditando que parte da má impressão da sequência se deve a essas diferenças essenciais na construção da narrativa de Hipercubo em relação a seu antecessor.

Li comentários mais pesados em relação à computação gráfica, mas o uso dos efeitos visuais encaixa na proposta supertecnológica de Hipercubo. O erro foi usar esse recurso em uma cena de morte, a qual ficou deveras artificial.

O cenário branco fortalece a qualidade dos efeitos tecnológicos e é bem incômodo, então constitui um acerto, apesar de diferir radicalmente da ambientação de Cubo.

Sobre a fotografia, existe um inteligente uso de quadrados e retângulos em tela para mostrar diferentes informações, como vários flashs de flashbacks ao mesmo tempo ou apenas situações diferentes. Esse uso de particularidades da imagem para apresentar informações é interessante e achei pertinente.

O mesmo não posso dizer do excesso de ângulos diferenciados. Há momentos em que os personagens ficam de pé na horizontal, do ponto de vista do espectador. Nessas horas eu acabava perdendo a imersão na história e reparando no exagero.

A progressão narrativa de Hipercubo é muito boa. O jeito que os personagens vão se conhecendo, interagindo e superando os conflitos é muito interessante. Um dos motivos para ser tão positiva é que os personagens são bem diferentes entre si, embora quase todos carreguem um traço semelhante: inteligência e/ou envolvimento com certa empresa de armas.

Essa progressão conta com momentos em que os personagens descobrem mais sobre o cubo. Eles advêm do Jerry, que construiu as portas do cubo, do Max e da Paley. Essa caminhada rumo ao conhecimento leva à demonstração do quanto o Simon é babaca e burro.

Quando salva o coronel, em vez de deixá-lo tranquilo para extrair informações, o Simon fica gritando e o interrompendo. Esse deve ser o pior interrogador do mundo. Ele também se voltou bizarramente contra o Jerry, mas o pior ainda estava por vir.

Achei muito interessante o jeito que a Paley revelou informações junto aos seus delírios. É meio que uma repetição da ideia do retardado genial do primeiro filme, mas continua sendo uma quebra de expectativa satisfatória.

Me incomodou os personagens se encontrarem tão rapidamente e se reencontrarem rápido demais após se separarem, dado que o hipercubo é o suprassumo dos cubos, todavia, o Jerry ter dito que passou muito tempo entrando e saindo das mesmas três salas serve para justificar isso.

Hipercubo vai fazendo tudo do jeito certo, de modo surpreendentemente bom, até o losango quadridimensional matar o Jerry com uma computação gráfica sofrível. Essa morte marca a guinada do filme para uma perda constante de qualidade em função de escolhas obviamente ruins.

Pontuando as boas, o Max ter feito um jogo com o conceito das salas com velocidades de tempo diferentes é legal e as cenas desse jogo dimensional funcionam muito bem. Incluo aqui a Paley e a Kate vendo elas mesmas.

Aliás, toda essa ambientação multidimensional é muito eficiente e fisga a atenção do espectador. Aos trancos e barrancos, ela converge no ótimo momento em que a Kate vê na sala todas as anotações e o corpo do coronel, o sinal de que as dimensões estavam se sobrepondo.

Só que a ambientação multidimensional permitiu ao roteiro fazer as escolhas ruins.

Tudo bem o Simon ter fome e isso alterar suas ações, mas é inconcebível a transformação dele num maluco que quer comer todo mundo que vê. O Jerry ele conhecia há pouco tempo para ter ligação emocional, mas ele comeu a moça que foi contratado para encontrar sem pensar duas vezes.

Fora que comer uma pessoa devia saciá-lo por muito tempo, então ele pareceu matar sem necessidade. A explicação pode ser que o tempo passa diferente no cubo e ele ficou muitos dias lá dentro.

Aí eu te pergunto: por que com o Simon a passagem de tempo é tão especificamente diferente? Por que ele só encontrava a desaparecida e o Jerry? Por que ele não manteve as pessoas vivas para encontrar uma forma de sair de lá? Por que em nenhum momento os outros personagens interagiram com suas versões alternativas, apenas o Simon?

A advogada e o Max ficaram sozinhos, por motivo nenhum começaram a se beijar, rolou uma nudez gratuita, eles começaram a levitar com um vento bizarro na sala e morreram agarrados. Só uma pergunta: o quê? Isso é o que acontece quando um roteirista viaja na maionese.

E tem o primeiro plot twist. Depois de o Max insistir tanto na história do Alex, o superhacker que o Jerry diz que não existe, fica óbvio que a identidade dele é relevante. O detentor de tal identidade é ninguém mais ninguém menos que a adolescente cega.

A cega, que criou o hipercubo, foi caçada e fugiu para o único lugar em que não entrariam para pegá-la: o hipercubo. Pergunta: qual era o plano dela? Ela não sabia sair e eu imagino que a saída seja em alguma extremidade do hipercubo, não em qualquer parte do mundo.

Quando a cega entrou no cubo, assinou sua sentença. Ficaria lá para sempre, morreria lá ou seria pega assim que escapasse de seu invento. Não faz nenhum sentido ela se jogar lá dentro, ter chegado ao hipercubo e entrado nele antes de ser pega.

Outra dúvida sobre a cega: por que ela se fingiu de retardada? O que ela ganhava bancando a criança assustada? Se ela não pretendia colaborar com o grupo, a intenção era morrer sem tentar escapar? Em todo caso, não faz sentido ela ficar pedindo ajuda e demonstrando medo.

Depois de Hipercubo trazer a solução mais imbecil que poderia para seu enigma numérico (é só o horário em que o cubo reseta, que é quando a porta para a saída surge), ele nos brinda com o segundo plot twist.

Ao longo do filme, os personagens têm sua conexão com a empresa de armas revelada. Após o twist da cega, apenas a Kate não possui essa conexão. A verdade é que ela foi plantada no cubo pela empresa para descobrir como sair e pegar um dispositivo da cega.

O curioso é que ela não conta como sair, então isso não era importante. O objetivo da empresa era verificar se havia algo gravado no dispositivo da cega. O problema é que não vejo motivo algum para todo esse rolê.

Uma vez que a cega entregou o projeto do hipercubo para eles, não deve haver nada que ela deixou de contar sobre a construção. Se a ideia era impedir o vazamento de informações, o lógico seria que o projeto contivesse o mapeamento das possíveis entradas e saídas, o que tornaria desnecessária a atuação da Kate.

Vale ressaltar o absurdo que é a cega projetar o hipercubo e não saber como sair.

Aparentemente o cubo é uma prisão para pessoas envolvidas com a empresa. Por quê? Nunca saberemos.

Hipercubo é um filme legal, interessante e engraçadinho que se destrói com suas escolhas finais e seus dois plot twists.

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