Crítica | Olhos Famintos (2001): burrice

Trish (Gina Phillips) e seu irmão Darryl (Justin Long) descobrem algo horrível no porão de uma igreja abandonada. Agora, em viagem de carro de volta para casa, eles são o alvo de uma força indescritível que deseja acabar com eles de qualquer maneira.

Olhos Famintos é um filme marcante pela extrema burrice dos personagens. São só dois personagens centrais, mas a burrice deles vale pela dos personagens do grupinho de jovens de O Massacre da Serra Elétrica condensada.

Comumente os protagonistas são um casal, mas neste filme são irmãos. Isso acaba não interferindo no decorrer do filme, que seria praticamente igual sendo irmãos ou amigos. O ponto positivo que mais ou menos decorre disso é que não há cenas inapropriadas sem propósito.

A dinâmica deles no começo do filme é legalzinha e crível. Curiosamente, é só isso o que tenho a dizer sobre a relação deles. Esses personagens descartáveis que só tem valor por conta da trama terrorífica sempre reduzem a qualidade do filme.

Esse fenômeno é recorrente no subgênero slasher e é o que torna oito O Massacre da Serra Elétrica menos interessantes que o pior dos Jogos Mortais ou inferiores a 1408, mesmo considerando a qualidade de todos somada.

Faço questão de frisar isso porque Olhos Famintos não tem uma trilha sonora ridícula, efeitos especiais toscos, uma montagem confusa ou uma estrutura narrativa problemática. Considerando estes pontos, naturalmente irei dizer que ele não é um filme ruim.

O princípio do terror, com o caminhão super-rápido, é bem eficiente. Fiquei com receio pelos personagens e a própria aparência do caminhão é assustadora. Essa sequência é coroada pela visão de um sujeito aparentemente jogando um corpo num cano para o subsolo.

É aí que começam as burrices. O Darryl quis voltar para verificar o cano, como se eles dois, sozinhos, pudessem fazer alguma coisa. Mesmo que simplesmente tivesse ouvido um grito vindo do cano, o pensamento dele devia ser primeiro chamar as autoridades.

É inconcebível que, depois de ver o sujeito estranho e o caminhão psicótico, o Darryl entre no cano para checar se há alguém lá embaixo. O comentário da Trish sobre aquilo ser uma burrice de personagem de filme de terror torna tudo pior.

Olhos Famintos não é um filme paródia, então por que inserir aquela fala? Se o roteirista tinha consciência de que aquela atitude do Darryl era estúpida, por que não usou outro motivo para ele entrar pelo cano (no sentido metafórico e no sentido literal)?

Surge um caminhão na estrada, a Trish olha para ele e espera um tempo, como se estivesse moscando, entra no carro e ele não funciona. Se a intenção era fugir, é conveniente que o carro não pegue. Se a intenção era chamar atenção para pedir ajuda, não faz sentido ela entrar no carro em vez de gritar ou ficar na frente do caminhão balançando os braços.

Rola um jumpscare idiota e tcharam: o Darryl saiu do porão da igreja sem que soubéssemos como. É assustadora a visão dos corpos e da costura, o que justifica bem o jeito catatônico do Darryl por um bom período de filme.

Em mais um momento de burrice, os irmãos param em uma lanchonete e a Trish grita para alguém chamar a polícia, sem especificar o que houve. Há um telefonema e o pessoal da lanchonete parece esperar que eles atendam, o que é no mínimo suspeito.

A pessoa na ligação sabe o nome dos protagonistas, diz que eles devem fugir, que há um monstro atrás deles e que algo ruim vai acontecer quando ouvirem uma determinada música. Apesar da bizarrice do porão da igreja e do caráter auxiliador da chamada, o Darryl manda um: “vai se ferrar”. A pessoa quer ajudar e ainda é humilhada.

Nessa cena a Trish age como uma criança. Fica querendo encostar a orelha no telefone e ouvir a conversa, o que obviamente não daria certo. O Darryl fica afastando ela, indicando que ela o incomoda, mas ela segue tentando. Que porcaria é essa? Eu estou assistindo Chaves? Em certo momento ela ainda pergunta: “o que ela está dizendo?”. Ora, espere a ligação terminar e o seu irmão te conta.

Gosto do bizarro momento em que descobrimos que o monstro cheirou as roupas sujas do Darryl. Isso leva a polícia a dar mais crédito aos protagonistas e eles ganham uma escolta. Seria legal se policiais em filmes de terror fossem mais do que aperitivo de vilão.

O monstro liquida os policiais, os dois carros param e, ante a situação estranha, a Trish vai lentamente verificar a viatura. Mais que isso, ela e o Darryl ficam parados no carro até o monstro sair do banco da frente. Por que ficam tanto tempo olhando?

Esse é o principal problema de Olhos Famintos. Depois que eles param para pedir um telefone e chamar a polícia, mostrando que são incapazes de seguir em frente para fazer a chamada quando chegarem a um lugar seguro, eles ficam olhando o monstro se fingindo de espantalho e enfrentando a velha dos gatos.

Depois eles ficam olhando para o monstro de dentro do carro por tempo demais e, em vez de fugir, a Trish escolhe ficar tentando atropelar o monstro. Na primeira e na segunda tentativa o monstro pula sobre eles, então é óbvio que essa não é uma boa estratégia, mas ela insiste.

O ridículo é que o monstro se deixa ser atingido e arrebentado. É um pior que o outro nesse filme. Destaque para a assustadora saída da asa do corpo do monstro.

Na delegacia acontece a mais impressionante estupidez da Trish, e olha que ela é bem estúpida durante Olhos Famintos. A mulher que fez a ligação para a lanchonete surge e explica a eles o que está acontecendo, a natureza do monstro, seu desejo e conta que os viu serem pegos em sonho, por isso foi atrás deles.

Em vez de ouvir atentamente e agradecer, a Trish destrata a mulher e fala como se o que ela diz fosse loucura. Ela diz, com todas as letras, que não acredita na mulher. Os irmãos viram centenas de corpos costurados, um caminhão superbizarro, um monstro comedor de bocas que salta e começa a se transformar em algo que tem asa de morcego e receberam uma ligação de alguém que sabia o nome deles e os alertou para que fugisse, pois o monstro estaria à espreita.

Apesar de tudo isso, a Trish desdenha da mulher e o Darryl não nos faz o favor de dar uma bofetada nela para ela calar a boca e parar de ofender a louvável intenção da mulher: ajudá-los a sobreviver.

Todos os momentos de espera sem sentido dos irmãos e suas burrices são irritantes, mas nada me deixou tão furioso quanto esse jeito que a Trish tratou a médium.

O policial que os recepciona também trata a médium como louca, embora o depoimento dos irmãos corrobore o que ela diz. Esse pessoal tem Q.I negativo.

A sequência do monstro contra os policiais é qualquer coisa, mas se torna interessante por mudar o ponto de vista. No fim, o que realmente importa é que o monstro cheirou a médium e não ficou com água na boca (visto que ele comeu o policial aleatório, mas não ela) e foi atrás do que realmente queria.

É inusitado e até agradável que o monstro tenha vencido. Apesar da sem sentido aproximação da Trish, ele pegou seu prêmio e foi para casa. É assustador e é crível, pois não foi estabelecida uma forma de vencê-lo.

A cena final é a cereja do bolo desse terror, com uma rima legal com o pôster de Olhos Famintos. A sensação final é que Olhos Famintos não é um filme ruim.

O problema é que o slasher que não é um filme ruim ainda é um filme muito abaixo do nível de outros filmes que são competentes, embora não impecáveis. A régua que mede o cinema de terror é mais baixa que o normal e a régua do slasher é ainda mais baixa.

Dito isto, Olhos Famintos é um filme passável com personagens ridículos e um roteiro burro.

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