Crítica | O Mentiroso (1997): humor que funciona, humor que não funciona

Ficha técnica no IMDb

Fletcher Reede (Jim Carrey), um advogado, se vê em uma situação delicada quando Max Reede (Justin Cooper), seu filho, ao soprar as velas do bolo pede que seu pai não minta por um dia.

Na Netflix, O Mentiroso consta como livre para todos os públicos. Me parece uma classificação indicativa inadequada, uma vez que o filme faz piadas com conotação sexual, traz insinuação sexual e esboça um humor apelativo que tende a objetificar o corpo feminino. Não é minha intenção discutir a validade desse humor, mas ele certamente não é livre para todos os públicos.

O humor provavelmente é o que mais salta aos olhos em O Mentiroso. Por bons e maus motivos. Nele vemos Jim Carrey sendo… Jim Carrey. O protagonista fica fazendo caretas e mais caretas e barulhos estranhos em decorrência da tentativa de mentir e do freio imperfeito para as verdades que dizia. Isso faz sentido? Faz. É bom? Difícil dizer.

Muita gente gosta desse humor corporal, de trejeitos e caras e bocas, mas eu desgosto. O exagero nesse tipo de atuação me passa a impressão de ser forçado e um indicador de que o cérebro que idealizou aquilo não era capaz de fazer um humor decente. Exageros são recorrentes em O Mentiroso. No geral, quanto mais o Jim Carrey arrastava a cena, pior ela ficava.

Nos créditos finais são exibidas algumas cenas que julgo serem momentos da gravação, como tão bem fizeram os filmes de A Hora do Rush. O jeitão delas, com as palhaçadas do Jim Carrey, apontam na direção do improviso, como se o diretor dissesse ao ator principal para ir e se divertir. Dito isto, o humor que não funciona pode ser, em boa parte, creditado ao estilo do Jim Carrey.

Pegando o gancho de uma das cenas de gravação, o Jim Carrey é canastrão, mas a gente gosta dele mesmo assim.

Outro filme que, aparentemente, sofre desse mal é O Candidato Honesto. A sacada legal de não conseguir mentir deságua em falas longas, pouco justificáveis e cansativas, talvez em decorrência dos improvisos de Leandro Hassum. Pelo menos ele não fez tantas caretas quanto o Jim Carrey. Aliás, há um momento em que o protagonista de O Mentiroso diz que tem gente que ganha dinheiro fazendo careta. Boa piada.

E isso me leva ao humor que funciona, que é o textual. Mesmo havendo a possibilidade de falas que gostei terem sido improvisadas, considero necessário elogiar o roteiro. As sacadas que a atuação estraga são muito boas em essência, além de, em vários momentos, funcionarem plenamente.

O Mentiroso não é um filme muito engraçado, sendo predominantemente vergonhoso. Dá vontade de cavar um buraco e enfiar a cabeça a cada cena. Por outro lado, vale destacar a sensacionalmente louca cena do conselho executivo. O mais incrível é rir e não saber se o pessoal acredita que é piada ou se só entrou numa loucura irônica.

Além do humor, obviamente, O Mentiroso reserva uma espécie de lição de moral. Lendo a premissa, é automático supor que o Fletcher terminará a história entendendo o valor de dizer a verdade. Não é bem esse o caso. Falar a verdade apoiou a evolução do protagonista, mas o simples fato de a Audrey casar e ele perder o Max seria o suficiente para a transformação ocorrer.

A virada do Fletcher é perceber que a vida dele era se agarrar ao supérfluo e não dar o devido valor ao que era sólido. Ele provavelmente se via apenas como falso e por isso fazia questão de mentir descaradamente, o que causou sua surpresa e alegria ao dizer que amava o filho. Essa falta de apego ao sólido certamente foi o que o fez trair a esposa, mas podemos supor também que ele simplesmente não a amava.

Francamente, a Audrey me parece ter se tornado o troféu do Fletcher, pois em momento algum é desenvolvido o sentimento dele por ela. Ela por ele, num sentido amoroso, também não. O que salva o desfecho é o desconforto dela em estar no avião, o que demonstra que ela já não estava interessada naquilo.

Dito isto, coitado do noivo dela. Ele era um cara legal, tentou ser o pai que o Max queria ter e em momento algum implicou com as ações dos demais personagens. Lamento pelo desfecho dele.

Gosto da ideia de o Fletcher ganhar a causa falando a verdade, mas seria bem melhor se o argumento dele fosse embasado pelo que nós vimos no filme, não uma informação nova.

No todo, O Mentiroso é um filme interessante e vergonhoso que passa uma lição de moral meia boca em meio a um mar de caretas. Se você gosta desse tipo de humor, vá fundo.

Observação: aquela maluquice no aeroporto passou demais do ponto.

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