Crítica | Os Outros (2001): para que os empregados?

Ficha técnica no IMDb

Durante a 2ª Guerra Mundial, Grace (Nicole Kidman) decide por se mudar, juntamente com seus dois filhos, para uma mansão isolada na ilha de Jersey, a fim de esperar que seu marido retorne da guerra. Como seus filhos possuem uma estranha doença que os impedem de receber diretamente a luz do sol, a casa onde vivem está sempre em total escuridão.

Primeiramente, é importante pontuar o único erro grosseiro de Os Outros, que é a utilização de um jumpscare. Ele até faz algum sentido, mas não o suficiente para se fazer necessário. Um filme tão redondinho não precisava usar tal recurso. Aqui, o susto bobo tem um efeito parecido com o que há em 1408 (sem comparar a qualidade de ambos os filmes).

Mais um pequeno erro é que, pelo que supus, originalmente o título do filme designava os “fantasmas”, mas a adaptação usou “intrusos” para nomeá-los em vez de “outros”. A perda desse tipo de jogo de palavras reduz o brilho de uma obra, mas tem mais a ver com a minha impressão do que com a qualidade real do filme.

O filme parte da perspectiva do trio de empregados que conhece a família da Grace. O mundo é construído de modo que nós nos coloquemos em seus sapatos e tenhamos a percepção de que o pessoal daquela casa é estranho.

A regra das portas que devem ser abertas apenas após a anterior ter sido fechada e a fotossensibilidade das crianças constituem uma ambientação mais voltada ao fantasmagórico, de modo que pensemos que os protagonistas, e as vítimas, são os novos empregados, não a família.

Com o transcorrer do filme, os papéis vão se invertendo e os empregados viram os “amigos do terror” e a família se torna a vítima. Essa dinâmica, por si só, é positiva, mas é lamentável que ela exista, bem como os empregados. O motivo de eles serem um erro é o plot twist.

A ideia do plot twist é sensacional, mas o jeito que ela foi administrada tirou muito de sua qualidade, pois ele se torna óbvio no momento em que o velho cobre uma lápide. São um desserviço também os inúmeros diálogos misteriosos dos empregados que levantam suspeitas e até indicam claramente a verdade sobre a família da Grace.

Além de eles enfraquecerem a virada, são presenças injustificadas. Os Outros não dá um motivo sequer para justificar a intenção dos empregados de conduzir o modo com que a família descobrirá a verdade. Além disso, eles agregam pouco ao todo, observando o que poderia ter sido.

Por mais que os empregados façam parte de uma boa construção assustadora, o filme seria excepcional se eles não existissem. A excepcionalidade estaria na total surpresa do espectador com a verdade, do mesmo modo que a família se surpreendeu.

A cena do encontro com os outros (na hora da verdade) teria sido milhões de vezes mais impactante e derrubaria o espectador da cadeira instantaneamente. Considerando tudo isto, minha dúvida é: para que os empregados?

O plot twist principal é enfraquecido pela existência deles e não há justificativa para o interesse deles no conhecimento da família acerca da verdade. O que sobra é ter algo mais voltado ao terror para entreter o público e essa alternativa é lamentável. Entendo, mas senti que o laço dos personagens era bem trabalhado o suficiente para sustentar Os Outros sem precisar desse marcador antitédio.

E não é só de plot twist e empregados que é composto Os Outros. Vale destacar o trabalho de iluminação propiciado pela fotossensibilidade das crianças. Ele leva muitas cenas a se passarem no escuro, à noite ou à luz de velas.

Diferente de muitos filmes que possuem cenas escuras irritantes, as de Os Outros contribuem para o clima assustador sem parecerem sem sentido, pois há a justificativa da doença. Mais que isso, ter essa noção das regras da casa cria cenas de impacto.

A Grace é mostrada indo apressadamente em direção a um cômodo e faz questão de fechar a porta anterior antes de abrir a seguinte. Noutra cena, ela corre e vai direto abrir a porta seguinte, mostrando que está mais preocupada.

O momento em que as cortinas somem transmite um desespero genuíno, pois o espectador se habituou à regra e consegue captar a preocupação tanto da Grace quanto das crianças.

A Anne e seus questionamentos ousados são interessantes. É um comportamento infantil e torna as interações orgânicas, bem como os atritos, tornando assim o laço dela com o Nicholas e com a Grace bem legal. Eu realmente gostei da retratação familiar e de sua condução. Sua qualidade é mais notória em comparação com a dificuldade de tantos outros filmes no trato com os laços familiares.

Ao longo de Os Outros é perceptível que os fantasmas conseguem interagir com o físico em alguns momentos e é deixado claro que um dos fantasmas não vê a família, mas outros conseguem. Esses pontos indicam que devem ser realidades que se sobrepõem em alguns momentos, permitindo uma constatação errônea ao longo da experiência e a correta ao final. Neste sentido, Os Outros deixaria O Sexto Sentido orgulhoso.

É assustador e até dá para interpretar como a ação de fantasmas, mas se olhar pensando no plot twist, é evidente que os outros falam como pessoas em um lugar assombrado, não assombrações. Esse fenômeno está presente nas interações da Anne com o menino fantasma também.

A verdade sobre a família provavelmente é que a Grace matou os filhos e se suicidou depois de descobrir que o marido morreu na guerra. A presença dos empregados e o que exatamente é aquele plano dimensional são perguntas sem resposta. No caso de Os Outros, a falta de respostas não é uma falha, pois elas não interferem no peso da trama.

Os Outros é diferente de Pânico no Deserto.

Apesar de todas as críticas que fiz, Os Outros é um filme muito bom. Muito acima da média dos resenhados no Blog do Kira. Pena que eu só o assisti após conhecer o plot twist.

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