Crítica | Apartamento 212 (2019): trocando o regular pelo ridículo

Ficha técnica no IMDb

Depois de se mudar, Jennifer faz amizade com um vizinho um tanto intrometido, mas bem intencionado, e percebe que os buracos na parede de seu novo apartamento permitem que ela ouça o que seu vizinho faz. Quando ela decide investigar, no mesmo dia ele se mata. Jennifer começa a encontrar pequenos vergões em seu corpo. Com o passar do tempo, os machucados aumentam. O que estará acontecendo?

A cena inicial mostra um homem machucado, o que já entrega o que irá acontecer. Claro que é algo óbvio, uma vez que está presente na sinopse, mas ainda serve para tirar o peso do que acontece mais tarde. Há também um jeitão de abertura de série com pausas com destaque para os nomes dos envolvidos. É um tom meio amador que combina bem com Apartamento 212, o que, infelizmente, só fui descobrir tarde demais.

A música alegre e o clima leve contrastam com a visão do que provavelmente é um casal envolvido em violência doméstica. Incompetência na ambientação ou uma inteligente contraposição de tons? Primeira opção, suponho.

A Jennifer é uma protagonista burra que possui atitudes estranhas e inexplicáveis. Ela encontra um desconhecido no apartamento e não pergunta o que ele faz lá; vai à entrevista de emprego mascando chiclete e ainda omite uma referência. Haja desespero para fazer isso. É naquela levada do “não me preparei, mas vou fazer, né. Vai que dá.”

Eu estava levando o filme bem a sério até a Brenda convidar a Jennifer para ocupar a vaga antiga dela, sendo que tinha acabado de revê-la após vários anos. Mais que isso, a Jennifer não apresentou nenhuma experiência profissional para merecer tal oportunidade. Tudo bem que existem contratações advindas de indicação, mas não dá para aceitar essa atitude.

Quando o princípio do elemento terror surge, ele é uma surpresa chocante, só que a falta de aparições daquela mulher tira o peso da cena. O momento parece promissor especialmente porque, a esta altura, Apartamento 212 não havia revelado em que consistia seu enredo.

Em mais uma atitude estranha, a Jennifer vê os itens da falecida sendo removidos e resolve ficar com uma caixa bizarra. É estranho ela querer e conseguir. Se os quartos vizinhos precisaram ser esvaziados por risco biológico, os itens não deviam ser removidos com todo o cuidado? De um jeito ou de outro, custo a crer que ela simplesmente pegou a caixa e ficou por isso mesmo.

Quando o policial surgiu no apartamento da Jennifer, fiquei pensando em quem ele seria. Vi dublado e a voz dele era muito jovem para ser pai, só que a mudança de nome, a menção à mãe e a dinâmica de passar pano para os erros combinam mais com um laço de pai e filha. Dito isto, fiquei chocado quando ele apalpou os seios dela. Na verdade o laço deles era matrimonial. Minha sanidade agradece.

A piada com a Jennifer fechando a porta na cara do amigão é boa e melhor ainda é ela ter ido à casa dele como que para se desculpar. A sensibilidade dele de fazer uma piada depois de sentir o desconforto da Jennifer com a pergunta foi bem agradável. Esperava uma vilania por parte do amigão, mas recebi um personagem legal de acompanhar.

Mais uma vez, a trilha sonora de Apartamento 212 falha miseravelmente. A que foi utilizada na sequência da Jennifer não conseguindo dormir e lidando com as feridas não faz sentido, pois traz um sentimento de aventura e até sedução, tornando o clima muito mais leve do que deveria ser.

Demonstrando novamente sua burrice, mesmo estando toda ferrada, a Jennifer foi à entrevista e não ao médico. Ela foi capaz de se disfarçar para o policial, mas não para o responsável por sua contratação? Agora sabemos suas prioridades.

O superior da Brenda provavelmente dispensou a Jennifer achando que ela fosse uma drogada ou algo assim. A gente sabe que não, mas, do ponto de vista da Brenda, isso era possível. Com uma irresponsabilidade dessas, a Brenda merecia um forte puxão de orelha.

A medida que a Jennifer tomou para lidar com o problema foi uma caça aos insetos. Por mais que insetos fossem responsáveis pelos machucados, a partir do momento em que as feridas existem, afastá-los não resolve o problema.

Dúvidas:

A Jennifer foi fazer o que na casa do policial? E porque desistiu de fazer?

O que o policial fez ajudado pela síndica para que a Jennifer voltasse para ele?

Por que a Jennifer estava com a chave da caixa e não a tinha aberto antes?

O que ocorre depois que a Jennifer abre a caixa é uma loucura confusa, irritante e incompreensível, também por ser no escuro. Não há explicações, só o enfrentamento de um bicho bizarro. Nessa parte, o amigão aparentemente morre de forma tão conveniente que eu revirei os olhos.

Eu já tinha desistido do filme quando ela colocou o bicho no microondas e fiquei positivamente surpreso com a maluquice do roteiro. Depois ele saiu do microondas, fez uma investida e ela o segurou como se ele não fosse nada. Aí eu já estava aplaudindo de pé essa porcaria de história.

A cena pós-créditos indica que a Jennifer foi morar com o policial e, de algum modo, direcionou o bicho para atormentá-lo. Por quê ela precisaria se vingar? Esse sentimento não foi trabalhado e, francamente, ver algo análogo a Percy Jackson nesse filme é patético. É muito bobo. O rumo natural dela seria concluir sua emancipação, não se vingar.

Esse rumo que Apartamento 212 tomou foi um equívoco absurdo. A propagação das feridas indicava algo assustador e sobrenatural, talvez com alguma revelação chocante, mas o roteiro abraçou uma ideia tosca e embarcou nela, sacrificando o potencial e a qualidade que possuía até o surgimento do bicho.

Não que Apartamento 212 fosse excelente, mas eu o estava levando a sério. Me senti enganado enquanto os créditos finais subiam.

O filme não oferece explicações. O bicho existe como um fantasma da caixa e atormenta quem a possui. Não há mais nenhuma informação sobre o que o motiva ou a razão de, subitamente, ele atacar inúmeras vezes sem pudor. Me faltam palavras para descrever a raiva que senti de Apartamento 212.

Observação: o subtítulo “A Infestação” contribuiu muito para a minha raiva, pois eu esperava infecção e recebi monstro tosco.

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